Quatro Rodas

Verstappen e Leclerc: F1 pode ter novo duelo de velhos rivais do kart

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Não é algo exatamente raro na F1, mas nem por isso a história deixa de ser interessante: Max Verstappen e Charles Leclerc, antigos rivais e astros no kart, parecem destinados a novamente estar em rota de colisão, desta vez na principal categoria do automobilismo mundial.

A dupla de jovens talentos teve um curto e intenso período juntos no kart, no início da atual década, o que já dava indícios de que se tratavam de dois nomes a serem observados com atenção nas pistas.

Verstappen e Leclerc são contemporâneos (o monegasco é apenas 16 dias mais jovem), mas, por algum tempo, suas carreiras não estiveram em sincronia. O holandês ingressou no kart em 2005, muito influenciado pelos pais, o ex-F1 Jos Verstappen e a habilidosa kartista Sophie Kumpen. Nas primeiras temporadas, acumulou títulos em campeonatos holandeses e belgas, onde concentrou a fase inicial de sua carreira.

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Já Charles, filho do já falecido Hervé Leclerc, ex-piloto de F3 nas décadas de 80 e 90, brilhou em campeonatos franceses de kart em seus primeiros anos nas pistas.

2010
Verstappen acabou derrotado por Albon, atual F2, em competição em Portugal, em 2010 (CIK-FIA)

Entretanto, 2010 seria um ano para dar um passo além, já que ambos já haviam completado 12 anos e poderiam estrear em competições internacionais. Verstappen mergulhou de cabeça e participou ativamente de torneios distintos; enquanto isso, Leclerc passava a contar com o precioso apoio da All Road Management, de Nicolas Todt, algo que só conseguiu graças ao intermédio de Jules Bianchi.

A primeira competição em que Verstappen e Leclerc dividiram a pista aconteceu logo em fevereiro daquele ano, no South Garda Winter Cup, disputada no kartódromo italiano de Lonato. Na tomada oficial de tempos da classe KF3 (atual OK-Júnior), os dois ficaram colados, com o holandês à frente, em quinto, 0s069 melhor do que Leclerc, o sexto.

No restante das atividades, Verstappen obteve maior destaque ao ficar em segundo na pré-final e na final, superado em ambas pelo mais experiente russo Egor Orudzhev. Já Leclerc perdeu terreno na pré-final e completou a competição somente em 21º. A prova também teve participação de nomes como Esteban Ocon, que foi o sétimo, e Pierre Gasly, o 10º.

Leclerc também teve resultados de destaque em 2010 - nesta, dividiu o pódio com Pierre Gasly
Leclerc também teve resultados de destaque em 2010 – nesta, dividiu o pódio com Pierre Gasly (CIK-FIA)

Verstappen provocou impacto em sua primeira temporada internacional, com títulos na classe KF3 no WSK World Series, WSK Euro Series, WSK Nations Cup e a Bridgestone Cup Europe.

Coincidentemente, uma de suas poucas derrotas naquele ano se deu na outra vez em que teve a companhia de Leclerc: na Copa do Mundo da classe KF3, em Braga, Portugal, é superado por Alex Albon (atual piloto da F2 e que, ironicamente, contava com o apoio da Red Bull), mas fecha em segundo ao levar a melhor em um duelo mano a mano com Gasly. Leclerc tem um resultado mais apagado ao completar em 29º.

KF22
(CIK-FIA)

Em rota de colisão

Ainda na classe KF3, o monegasco começa 2011 em melhor forma: em fevereiro, anota a pole no South Garda Winter Cup ao bater Verstappen, o segundo colocado, por 0s039. O holandês reage ao vencer todas as baterias eliminatórias, embora Leclerc fique próximo nos resultados combinados.

Dali em diante, as coisas não se desdobraram na melhor forma para os dois. Verstappen perdeu rendimento na pré-final e fechou a competição geral em segundo, atrás do norueguês Dennis Olsen. Leclerc também teve problemas na penúltima bateria e só conseguiu concluir o torneio em oitavo, levando a melhor em um duelo direto com George Russell (atualmente na F2).

Charles Leclerc
Charles Leclerc (CIK-FIA)

Verstappen e Leclerc participam da temporada do WSK Euro Series e mais uma vez o holandês levanta o caneco, com destaque para a rodada dominante em Portimão, Portugal. Seu rival mais próximo é Ocon, o vice, mas ainda assim com uma margem grande. Leclerc faz campanha repleta de contratempos e problemas mecânicos e é somente o 23º.

Mas Leclerc termina o ano com uma nota para lá de positiva. Na Copa do Mundo da classe KF3, em Sarno, na Itália, faz a pole ao derrotar Verstappen por 0s028, bate o holandês de novo na pré-final e termina o evento com uma imponente vitória. Já o holandês teve uma bateria decisiva problemática ao escapar da pista e abandonar.

Max Verstappen
Max Verstappen (CIK-FIA)

Em 2012, os dois sobem à classe KF2 (atual OK). No já habitual torneio de início de ano, o South Garda Winter Cup, Verstappen crava a concorrência e já começa com vitória, enquanto que Leclerc sucumbiu a um acidente na final e foi somente 25º.

O holandês ganhava ainda mais espaço no cenário do kartismo com mais um título no WSK Master Series – torneio em que Leclerc competiu em somente uma prova. Mas o monegasco daria a volta por cima no WSK Euros Series, quando também entraria em rota de colisão direta com Verstappen.

Na primeira etapa do campeonato, em uma chuvosa Sarno, Verstappen dominou todas as atividades, acumulou vitórias nas baterias e parecia destinado a um triunfo tranquilo. Mas na final, quando liderava com certa vantagem, rodou em uma poça e caiu para 19º. Ele chegou a se recuperar para sexto, mas já distante de Leclerc, que esteve lá para aproveitar a oportunidade e obter uma improvável conquista.

Na prova seguinte, em Val d’Argenton, na França, a dupla entrou em conflito direto, já que, em uma das baterias eliminatórias, os dois colidiram durante uma disputa por posição. Verstappen soltou cobras e lagartos e chamou a atitude do rival de “injusta” por ter, segundo sua visão, lhe “empurrado para fora da pista”. Já Leclerc classificou o episódio como “apenas um incidente de corrida”. Mas não teve jeito: ambos acabaram desclassificados pelo arranca-rabo (veja a reação dos dois no vídeo abaixo).

No fim do torneio, Leclerc levou a melhor com tranquilidade e obteve uma importante conquista para seu currículo. Mas a rivalidade com Verstappen no kart continuaria no ano seguinte – e em uma importante plataforma.

Pódio Mundial
(CIK-FIA)

2013, o último duelo no kart em plataforma mundial

Promovido às categorias de ponta do kart, Verstappen teve um ano iluminado em 2013, com conquistas significativas em certames europeus tanto na classe KF quanto na KZ. Mas foi no Mundial daquela temporada que seu potencial ficou evidente.

O holandês e Leclerc estavam inscritos no torneio da classe KZ1 que seria realizado em Varennes, na França. A concorrência era forte: estavam também os campeões mundiais Davide Forè, Marco Ardigó e Paolo de Conto, além do ex-F1 Jaime Alguersuari e Sauro Cesetti – sim, o homem que tem em seu currículo uma vitória sobre Michael Schumacher, Lewis Hamilton e Nico Rosberg no kart (contamos a história aqui).

Nas provas eliminatórias, Verstappen garantiu a pole para a decisão, enquanto que Leclerc partiria de sexto. Só que tudo mudou bem rápido na largada: o monegasco salta para segundo e deixa o holandês para trás, com Ardigó em disparada na liderança.

Na segunda volta, Verstappen despacha Leclerc e, duas passagens depois, assume a ponta. Até o fim da prova, o piloto só abre vantagem para a conquista de um notável título mundial, enquanto que Leclerc se sobressai na disputa entre os demais para fechar em segundo.

Dali para frente, Verstappen e Leclerc migraram para os monopostos, mas em caminhos distintos. O holandês teve ascensão meteórica ao ir direto à F3 e receber uma impactante proposta para se juntar à Toro Rosso em 2015. O monegasco fez um caminho mais tradicional: entrou na F-Renault, F3, GP3 e F2 (com títulos nas duas últimas). A ida à F1 pela Sauber, já apadrinhado pela Ferrari, também foi consequência natural.

Agora, eles entram mais uma vez em rota de colisão, parecendo destinados a ocupar postos de protagonistas na F1 por muito tempo – outro que também pinta neste cenário é Ocon, cuja história com o Verstappen merece um destaque à parte em um outro dia. Depois de todo esse tempo e de idas e vindas, Verstappen e Leclerc devem ter novas batalhas, mas desta vez no palco mais importante de todos.

 

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.