Vettel é mais uma grande aposta que se despede da Ferrari por baixo

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Sebastian Vettel e Ferrari anunciaram nesta terça-feira (12) que a parceria não irá continuar em 2021. O piloto encerra seu contrato ao final da temporada de 20 (se ela acontecer) e parte da equipe.

Desta forma, o projeto Vettel na Ferrari acaba de forma um pouco melancólica. Em 2014, o time contratou o alemão para o ano seguinte em substituição a Fernando Alonso. Era um tetracampeão que tinha vencido quatro dos últimos cinco campeonatos e que tinha tudo para se tornar o grande líder da escuderia.

O piloto de então 27 anos tinha sido superado por Daniel Ricciardo dentro da Red Bull em 2014, porém, todos entendiam que sua temporada foi um pouco prejudicada por uma série de problemas mecânicos e outros infortúnios. Apesar de um pouco riscada, a credibilidade do campeão ainda persistia e seu movimento para a Maranello foi considerado na época uma grande contratação.

E a parceria não começou mal. Com a Ferrari ainda longe do desempenho da Mercedes no início da era híbrida, Vettel conquistou três vitórias em 2015. Na temporada seguinte, o time deu um passo atrás, mas o alemão seguiu com boa regularidade e terminou o campeonato em quarto.

A temporada de 17, porém, marcou uma boa evolução da equipe italiana para começar a brigar mais próxima da Mercedes e com Lewis Hamilton. Vettel liderou o campeonato até a 12ª das 20 corridas das temporadas. Só que problemas mecânicos da Ferrari (largou em último na Malásia por troca de motor e ficou no grid no Japão por um problema na vela) e um acidente em Singapura, combinados com uma boa sequência do rival inglês, tiraram a sua chance de título nas etapas finais.

Erros de Vettel e desgaste interno na Ferrari

Mesmo com a derrota em 17, Vettel terminou aquele ano por cima, com o entendimento geral de que a Ferrari tinha sido mais culpada do que ele. A situação iria mudar bastante a partir de 2018.

Desta vez, o time italiano apareceu com um carro forte e mais uma vez o alemão liderou toda a primeira metade da temporada. Só que uma nuvem negra começou a rondar Vettel. Literalmente. No GP da Alemanha, o piloto cometeu um erro sozinho quando liderava tranquilo a corrida na chuva. O abandono, casado com a vitória de Hamilton largando da 14ª posição, custou caro no campeonato.

Algumas etapas depois, em frente a toda torcida da Ferrari em Monza, o alemão mais uma vez errou. Rodou na primeira volta em uma dividida direta com Hamilton. O inglês conquistou mais uma vitória e Vettel terminou em quarto. Novas erros do piloto no Japão e Austin abriram caminho para o título do adversário da Mercedes no México, com duas provas de antecipação, em um ano em que tudo indicava em que Ferrari e o time alemão poderiam brigar até o fim.

A confiança de Vettel claramente ficou abalada com a perda do campeonato. Em 19, ele seguiu cometendo diversos erros e viu ainda o surgimento de uma nova estrela dentro da Ferrari, Charles Leclerc. O novo rival venceu antes dele no ano e terminou o campeonato à frente. Em dezembro, o monegasco ainda renovou seu contrato com a escuderia de Maranello até 2024.

O tetracampeão entrou em seu último ano do acordo com a Ferrari recebendo a notícia de que para renovar, teria que aceitar uma redução de salário e um período de estabilidade menor do que o esperado. Após meses de conversas, os dois lados resolveram encerrar a negociação e anunciaram o fim do casamento.

Vettel, no entanto, não é a primeira grande (e cara) aposta que chega à Ferrari como grande esperança e sai sem os resultados esperados.

Alain Prost (1990 -91)

Prost foi um dos principais nomes da F1 nos anos 80. Depois de dois anos dividindo a McLaren com Senna, o que criou um clima interno insustentável principalmente após a decisão de Suzuka em 89, que incluiu uma manobra em que ele fecha o companheiro para ambos saírem da prova, ele aceitou a proposta da Ferrari para se transferir em 90. Além disso, ainda conseguiu levar junto o projetista principal do time inglês, Steve Nichols.

GP do Japão de 1991 foi a última prova de Prost pela Ferrari

A primeira temporada da parceria até foi bem. O francês disputou o título com Senna até o final do ano, com a briga terminando no polêmico acidente no GP do Japão. Foram cinco vitórias em 16 GPs e o vice-campeonato apenas sete pontos atrás do brasileiro da McLaren.

Só que no ano seguinte, a coisa degringolou. A Ferrari deu um grande passo atrás em termos de desempenho e ficou longe da briga pelo título, que envolveu basicamente Senna, na McLaren, e Nigel Mansell, da Williams.

Sem vitórias e apenas cinco pódios, Prost, quinto no campeonato, foi se enchendo com a situação durante a temporada. O experiente piloto pagou o mico de rodar e abandonar a etapa de Imola, em plena Itália, ainda na volta de apresentação, sob chuva. O clímax da crise aconteceu depois do GP do Japão, em que o francês disse à imprensa que pilotar o modelo 642 era como pilotar um “caminhão terrível”. A declaração caiu como uma bomba na direção da Ferrari, que o demitiu imediatamente.

O então tricampeão sequer participou da etapa final, na Austrália, substituído por Gianni Morbidelli. Sem vaga para 92, ainda teve que tirar um ano sabático da F1.

Fernando Alonso (2010-14)

O primeiro campeão pós-Schumacher, Fernando Alonso era uma das maiores estrelas da F1 na segunda da década de 2000. Ele teve um ano difícil na McLaren em 07, quando se envolveu em diversas polêmicas internas e não lidou bem com a pressão do novato Lewis Hamilton. Sem clima para seguir no time inglês, ele teve que voltar à Renault, em um momento ruim do time, mas chegou na Ferrari como uma nova esperança.

Alonso foi de grande ídolo a dispensável na Ferrari
Alonso foi de grande ídolo a dispensável na Ferrari (Foto: Ferrari)

Alonso passou perto do título com a equipe italiana em pelo menos duas oportunidades, em 10 e 12, onde estava na briga até a corrida final. Mas o desempenho fraco principalmente em 13 e 14, o segundo sem nenhuma vitória, desgastou profundamente a relação. O espanhol, que passou anos dizendo que amava a Ferrari e pretendia se aposentar por lá, começou a lançar alfinetadas públicas.

Com a mudança da liderança da Ferrari, na saída de Luca di Montezemolo e a chegada de um novo diretor executivo, Sergio Marchionne, Alonso perdeu seu principal defensor dentro da empresa e os dois lados decidiram por terminar a relação, antes mesmo do término do contrato. O espanhol seguiu para McLaren e passou a andar no pelotão intermediário e até no fim do grid.

Kimi Raikkonen (2007-09 e 2014-19)

Raikkonen ainda não era um campeão quando chegou à Ferrari em 07, mas já era uma das principais estrelas da F1. E sua estreia não poderia ter sido melhor, com o título logo na primeira temporada na equipe.

Só que daí para frente, as coisas nunca mais andaram bem. Em 2008, ele foi superado pelo companheiro, Felipe Massa, que disputou o campeonato com Hamilton, da McLaren. Em 09, mesmo vencendo uma corrida, novamente ficou devendo e acabou demitido do time para ser substituído por Alonso.

Retorno de Raikkonen não rendeu os frutos esperados (Foto: Ferrari)

Raikkonen ficou fora da F1 entre 2010 e 11 e retornou pela Lotus. Suas duas temporadas na equipe inglesa foram boas, incluindo duas vitórias. Ele então retornou à Ferrari em 14 para formar uma dupla de campeões, ao lado de Alonso. Só que ele nunca se mostrou à altura do desafio.

O finlandês foi superado todos os anos por seus companheiros, Alonso e depois Vettel, e em cinco anos venceu apenas uma corrida. Muito longe do que se esperava de um campeão mundial. A equipe então resolveu apostar em uma jovem promessa de seu programa de desenvolvimento, Charles Leclerc, e não renovou o contrato de Raikkonen para 2019.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.