Vettel entendeu a essência da Ferrari como Alonso jamais conseguiu

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Em outubro de 2014, Sebastian Vettel anunciava que deixaria a Red Bull ao término daquela temporada, o que colocaria um fim amargo a uma das parcerias de piloto e equipe mais vitoriosas da história recente da F1. O tetracampeão não vinha se apresentando com o mesmo brilho dos anos anteriores, e, amplamente ofuscado por Daniel Ricciardo, tentaria reconstruir seu prestígio fora do time austríaco.

Pouco mais de um mês depois, a Ferrari, em meio a uma campanha bastante apagada, oficialmente decretava a saída de Fernando Alonso. A esta altura, a união de forças entre a Scuderia e o alemão, que vinha sendo especulada havia anos, parecia algo iminente. No entanto, mais que conveniente, o movimento das peças do quebra-cabeças se mostrou perfeito para ambos.

Vettel comemora a vitória surpreendente na Malásia (Divulgação)
Vettel comemora a vitória surpreendente na Malásia (Divulgação)

Em sete corridas disputadas em 2015, a parceria entre Vettel e a Ferrari ainda não gerou frutos mais concretos, o que muito se explica pelo amplo domínio da Mercedes. Apesar disso, o início é positivo. Além da surpreendente vitória no GP da Malásia, o alemão se estabeleceu como a principal ameaça ao reinado das Flechas de Prata. O cenário gerou elogios mútuos nesta semana, com o piloto classificando o momento como “um sonho se tornando realidade”; já a equipe diz que o tetracampeão é a figura certa para levar Maranello de volta à glória. A relação vive verdadeira lua de mel.

Verdade seja dita: a Ferrari procurava havia tempos por seu piloto ideal, alguém que tivesse todos os pré-requisitos para compreender a dinâmica única da Scuderia. Desde a saída de Michael Schumacher, o time apostou em Kimi Raikkonen e Felipe Massa, que até chegaram a dar alegrias aos tifosi. Entretanto, os dois pecavam em aspectos que lhe impediram de entrar no rol dos grandes da equipe.

Então, chegou Alonso. O espanhol até parecia ser a figura perfeita para liderar o time: é trabalhador árduo, fala italiano fluentemente, é consistente e inteligente como poucos. Mas sua capacidade de trabalhar em equipe (no caso, a falta dela) foi algo que desgastou a relação, especialmente nos recorrentes momentos de crise de sua passagem por Maranello.

Alonso de cara feia na Ferrari: cena não era tão rara (Divulgação)
Alonso de cara feia na Ferrari: cena não era tão rara (Divulgação)

Apesar de suas qualidades na pista, Alonso tinha sérios problemas para compreender a metodologia de trabalho da Ferrari, onde, desde sempre, se diz que o piloto deve servir à equipe, e não o contrário. Em momentos chave, Alonso não pensava duas vezes para criticar o time, seja via rádio, seja em entrevistas – algo que é tremendamente mal aceito na Ferrari.

Com a saída do espanhol, coube a Vettel assumir a responsabilidade de liderar a Ferrari, especialmente em um momento de transição para os italianos, com trocas de chefe de equipe e até mesmo do presidente da empresa.

“Alonso não é um homem de equipe como Schumacher, e isso chateava as pessoas. Michael não só conhecia seus mecânicos, mas sabia o nome de suas esposas e filhos. Isso o ajudou a construir a equipe a seu redor”, comparou Pat Symonds, que trabalhou com as duas feras, à revista F1 Racing em 2014

Inicialmente, era difícil prever exatamente o que se esperar da parceria. Afinal, a Ferrari ainda arrumava a casa, enquanto que Vettel somente estava habituado a competir pelo time que o formou – e mesmo assim viveu momentos de tensão, como na polêmica vitória do GP da Malásia de 2013, quando desrespeitou as ordens do time e ultrapassou Mark Webber.

As dúvidas ficaram de lado quando as peças se encaixaram de maneira melhor que a esperada. O modelo SF15-T mostrou qualidade desde o início, o que permitiu a Vettel recuperar a sua velha forma. O tetracampeão parecia sem brilho em seus dias derradeiros na Red Bull, e nada melhor que uma mudança de ares para se reinventar na pista.

Vettel e o chefe Arrivabene tiveram boa relação de imediato (Divulgação)
Vettel e o chefe Arrivabene tiveram boa relação de imediato (Divulgação)

Nos sinais do dia a dia, Vettel aparenta ter incorporado o modus operandi da Ferrari de uma maneira que Alonso jamais conseguiu. E isso se aplica nos bons momentos, comemorando uma vitória de maneira autêntica feito um latino, e nos tropeços, mantendo um discurso consciente, valorizando o trabalho de equipe e focando no longo prazo. É desta postura que o time precisa.

Talvez tendo aprendido com os erros de seu antecessor, o alemão mostra compreender que, na Ferrari, as coisas funcionam de uma maneira bastante particular. A relação ainda está em seu início e passará por muitos momentos de provação, mas, em sua primeira fase, mostra que as duas partes encontraram uma na outra o que procurava para reencontrar o sucesso.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.