Vitória na Indy 500 alça Japão ao seu lugar de direito no automobilismo

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Nas últimas três décadas, se tornou quase que uma tradição transformar pilotos japoneses em uma piada. Eles são instantaneamente classificados como pagantes sem talento e até espinafrados por seus acidentes. Isso até já vinha começando a mudar aos poucos, mas a vitória de Takuma Sato nas 500 Milhas de Indianápolis pode servir definitivamente como ponto de virada.

É verdade que por conta do apadrinhamento de marcas e patrocinadores, muitos pilotos japoneses chegaram à F1 e à Indy sem o preparo que precisariam para estar nas categorias mais importantes do automobilismo internacional.

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Isso aconteceu muito pelo fato da forte indústria automotiva do país ter se envolvido há muitos anos com competições de todos os tipos e querer sucesso não apenas para a companhia, mas também de pilotos para tentar incentivar ainda mais o esporte a motor local.

Não foram poucas as empresas que chegaram com força no automobilismo ocidental. A Honda fundou sua primeira equipe na F1 em 1964, conquistando, inclusive, duas vitórias nesta primeira encarnação de seu time, com Richie Ginther e depois John Surtees. Quem não se lembra também dos Toyota no rali e nas 24 Horas de Le Mans? A Mazda conquistou um triunfo na prova de Sarthe com seu 787único carro com um motor Wankel na história a vencer a prova.

John Surtees, com o Honda RA301 no GP de Mônaco de 1968
John Surtees, com o Honda RA301 no GP de Mônaco de 1968

Na Indy, a participação, principalmente de Honda e depois Toyota, foi importantíssima para a categoria. A primeira, inclusive, chegou a se tornar fornecedora única de motores no começo dos anos 2000. Subaru, Nissan, Mitsubishi, Sukuki, Yamaha e outras também caíram nas competições de todos os tipos. E nem precisamos falar do ótimo automobilismo interno que existe no Japão, com a participação de várias marcas tanto em provas de GT como de fórmulas.

Satoro Nakajima correu na F1 entre 1987 e 91
Satoro Nakajima correu na F1 entre 1987 e 91

Pilotos japoneses começaram a entrar na F1 ainda nos anos 70. O primeiro que marcou foi Satoru Nakajima, que realmente colecionou algumas besteiras dentro da pista e passou longe de ser um grande talento, mas cumpriu bem sua missão de abrir um caminho para os mais jovens. No seu currículo, ele coleciona dois quartos lugares, uma volta mais rápida no GP da Austrália de 89 e um total de 74 largadas em cinco temporadas. O primeiro pódio japonês aconteceu em 1990, na caótica etapa de Suzuka, com Aguri Suzuki, com sua Larrousse- Lamborghini.

É verdade também que alguns não ajudaram. Ukyo Katayama, Yaki Inoue, Yuji Ide, Hiro Matsushita, Shigeaki Hattori, entre outros competidores do país, passaram pela F1 e pela Indy sem deixar muita saudade. Outros não eram supertalentosos, mas também passaram longe de serem desastres ambulantes como as pessoas esperavam sempre de um piloto japonês.

Em 2002, Takuma Sato chegou à F1 para começar a mudar essa imagem. De barbeiro, o japonês passou a ser visto como agressivo. Sua carreira na categoria foi bastante consistente, incluindo um pódio no GP dos Estados Unidos de 2004 e uma primeira fila ao sair na segunda posição do grid no GP da Europa do mesmo ano, em Nurburgring.

Takuma Sato celebra o terceiro lugar no GP dos EUA de 2004
Takuma Sato celebra o terceiro lugar no GP dos EUA de 2004

Quando a Honda comprou a BAR, ela resolveu investir na dupla formada por Jenson Button e Rubens Barrichello. Para não deixar Sato na mão, ela investiu na formação de um time B liderado por Aguri Suzuzi, a Super Aguri. E ele chegou a marcar quatro pontos com o carro de segunda mão, até que a marca japonesa resolveu cortar a ajuda à equipe após uma temporada e meia.

Sem espaço, Sato se transferiu para os EUA para correr na Indy. E nos oito anos que está por lá nunca fez feio: venceu uma corrida em 2013 em Long Beach, passou perto da vitória na Indy 500 em 2012 e agora finalmente venceu a prova de forma categórica (e empurrado por um motor Honda contra o Chevy do segundo colocado, Hélio Castroneves).

Durante este período, outro japonês também se destacou na F1: Kamui Kobayashi. Se não foi tão consistente como o compatriota, teve seus momentos de brilho em domingos em que realmente esteve inspirado, e conquistou um belo pódio em Suzuka, com o terceiro lugar no GP do Japão de 2012. Chegou a criar uma legião de fãs graças ao seu estilo arrojado, mas lhe faltou constância dentro da pista e apoio financeiro fora para se manter na categoria. Atualmente compete no WEC, pela Toyota, e na Super Fórmula Japonesa.

O mais importante disso tudo é que as pessoas enxerguem que, assim como Alemanha, Inglaterra, Itália, França, Estados Unidos e outros tradicionais, o Japão é sim um dos países mais importantes do mundo para o automobilismo. Sedia desde 1976 provas da F1, sendo que desde 87 de forma ininterrupta, também já recebeu a Indy durante os anos 90 e 2000, tem algumas das marcas mais importantes que estão envolvidas de forma íntima com o esporte a motor em diversas categorias, da fórmula aos GTs, sem esquecer o motociclismo, e, queira ou não, é um polo formador de pilotos.

Se ainda não surgiu um grande talento que tenha chance de ser campeão da F1 ou da Indy, não importa, mas o velho preconceito de que toda vez que um japonês alinha no grid é indício de confusão já não serve mais. E a vitória de Sato deve apenas estimular ainda mais as pessoas a entenderem o lugar do Japão do automobilismo internacional.

 

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.

  • Dox

    Linda matéria, Lucas!!!!!
    É isso aí … quanto mais deixarmos os estereótipos de lado, melhor enxergamos o mundo real.
    Mute no Galvão!!!!