Você não é o 1º, Rossi: 10 pilotos que correram de F1 e Indy ao mesmo tempo

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O douto leitor já deve saber que Alexander Rossi foi anunciado, na semana passada, como reserva da Manor na F1. Também tem, provavelmente, ciência de que o americano irá coadunar tal função com a de titular da Andretti na Indy. Aliás, em sua estreia pela categoria, na etapa de São Petersburgo, o ás de 24 anos levou o Dallara DW12-Honda #98 ao 12º posto, numa atuação não tão ruim e também longe de ser vistosa.

Curiosamente, ao fazer o anúncio de Rossi como terceiro piloto para 2016, a Manor não teve pudor em descrevê-lo como “aquele que fará história ao se tornar o primeiro a ter um cargo oficial nos dois certames ao mesmo tempo”. De onde a escuderia inglesa tirou essa estatística? Não sabemos. O fato é que, infelizmente, precisaremos tirar o doce da boca de Rossi.

O Projeto Motor lembrou de pelo menos dez casos que contradizem a afirmativa. São competidores que disputaram simultaneamente provas de F1 e Indy (não necessariamente campeonatos completos) numa mesma estação. A lista levou em consideração as antigas USAC e Indy/CART. Champ Car e IRL não entraram porque não houve exemplos encontrados. Sem mais delongas, confira o rol:

Dan Gurney (1962 a 1970)

Dan Gurney

Um dos ídolos declarados deste escriba, Dan Gurney conseguiu a proeza de atingir o sucesso em qualquer tipo de corrida de automóveis da qual participou. Enquanto disputava a F1 em alto nível de 1962 a 1970, por Porsche, Brabham, McLaren e também pela All American Racers – um projeto “puro sangue” dos Estados Unidos no Velho Continente -, o polivalente americano intercalou aparições nas 24 Horas de Le Mans, Nascar e… USAC. Em todas conseguiu registrar vitórias. Nas provas da “Championship Car”, para se ter uma ideia, foram sete triunfos e 18 top-10 em 28 largadas. Nada maus para um “nômade” das pistas.

Jim Clark (1963 a 1967)

Jim Clark

Você que já pesquisou sobre a F1 dos anos 60 sabe que as operações não se resumiam à série principal. Construtores e pilotos também adoravam se aventuravar em provas de resistência, F2 e, vez ou outra, competições estadunidenses como as 500 Minhas de Indianápolis. Com a Lotus e Jim Clark não foi diferente. O “fazendeiro voador” esteve presente em muitas aventuras “extra-F1″ ao lado de Colin Chapman, incluindo cinco inscrições na Indy 500 (com direito à vitória na edição de 65, mesmo ano de seu bicampeonato na Europa) e outras três em páreos válidos pela USAC (Milwaukee 63; Trenton 63 e 64). Clark, aliás, foi o responsável pela primeira glória de um bólido com motor central-traseiro na categoria, ao faturar as 200 Milhas de Milwaukee em 63.

Jackie Stewart (1966 e 67)

Jackie Stewart

Outro volante europeu a invadir as competições do outro lado do Atlântico foi Jackie Stewart. Ainda como promessa da BRM, o escocês participou de três provas da USAC entre 1965 e 66. Duas delas foram edições das 500 Milhas, conforme não seria difícil prever, mas houve uma terceira e obscura presença na etapa extra-campeonato de Fuji, Japão, no segundo ano. A bordo de um Lola-Ford da Mecom Racing, o bretão dominou as ações da partida (saiu da pole) à bandeirada, tendo Bobby Unser como único adversário a completar o cotejo com o mesmo número de passagens realizadas.

Graham Hill (1966 a 68)

Graham Hill

Único detentor da Tríplice Coroa do automobilismo, Graham Hill foi um pouco além de fazer só as 500 Milhas na USAC. Assim como Stewart, o inglês defendeu a esquadra do empresário John Mecom nas 200 Milhas de Fuji de 66, completando na quinta colocação. Em Indianápolis o total foi de três largadas (66 a 68), além de uma desconhecida tentativa frustrada de alinhar no grid da edição de 1963.

Jochen Rindt (1967 e 68)

Jochen Rindt

O único campeão póstumo da F1 almejou alcançar as láureas no templo dos ovais duas vezes. A primeira se deu em 1967, quando competia pela Cooper e ingressou na Indy 500 através da AAR, a mesma escuderia de Dan Gurney. Após um mês de muitos problemas mecânicos no chassi Eagle Mk2, o austríaco não passou da 32ª e penúltima posição na grelha, tendo abandonado a prova no 108ª giro devido a uma falha nas válvulas de admissão. Na temporada seguinte, repetiu a sina ao representar o time oficial da Brabham: largou em 20º e sofreu uma quebra de pistão logo na quinta volta.

Bobby Unser (1968)

Bobby Unser

A história enfim se inverteu. Neste caso estamos falando de um bicampeão da USAC que veio a calhar de comparecer a etapas esporádicas da F1. Em 1968, logo no ano de seu primeiro título e da primeira de suas três coroas em Indianápolis, o irmão de Al Unser e tio de Al Jr. fez um acordo para defender a BRM nos GPs de Itália e Estados Unidos. No primeiro, mal teve oportunidade de conhecer o problemático P126 e acabou nem obtendo vaga para a prova. No segundo, arrumou um 19º lugar na ordem de partida, mas viu o gostinho de participar de um Grand Prix pela primeira vez acabar logo na 11ª passagem, junto com um estouro de motor.

Mario Andretti (1968, 69, 71, 72, 74 a 79, 81, 82)

Mario Andretti

Outro maluco que gostava de conciliar várias competições diferentes numa mesmo época era Mario Andretti. Campeão da F1 em 78, da USAC em 65, 66 e 69, e da Indy (já devidamente renomeada) em 84, o americano mais bem sucedido do automobilismo em termos mundiais disputou páreos simultâneos das duas categorias em nada menos do que oito temporadas.

Danny Ongais (1977 e 78)

Danny Ongais

Bancado pelo mecenas Ted Field, magnata que se metia a investir em empreitadas nas áreas de comunicação, cinema e esporte a motor, Danny Ongais fez carreira discreta na USAC na segunda metade dos anos 70. Também com a ajuda do empresário, cujo time se chamava Interscope, o ás americano alinhou para as duas etapas da gira norte-americana da F1 em 77, sempre a bordo de um velho Penske PC4. Não realizou qualquer cena digna de menção. Field insistiu com a brincadeira e colocou Ongais para correr os GPs da Argentina e do Brasil de 78, mas o defasado Ensign N177 não permitiu que ele saísse do fim do pelotão. Mais para frente ocorreram duas novas tentativas, em Long Beach e Zandvoort, desta vez usando um Shadow DN9. O resultado foi ainda mais tétrico: Danny sequer conseguiu pré-classificação para disputar a tomada decisiva de tempos nas duas ocasiões.

Teo Fabi (1984)

Teo Fabi

Após passarmos pelo confuso período das décadas de 70 e 80, chegamos ao exemplo mais emblemático deste artigo. Teo Fabi acumulou o posto de titular da Brabham em 1984, ao lado do brasileiro Nelson Piquet, ao mesmo tempo em que disputou parte do campeonato da Indy pela Forsythe, correndo com um March 84C empurrado pelo Cosworth DFX (derivação turbocomprimida do DFV V8, um projeto que merece um artigo à parte). O italiano chegou a declinar presença nos GPs de Mônaco e do Canadá para cumprir o séquito das 500 Milhas, no que acabou substituído pelo irmão, Corrado, nos dois eventos. Curiosamente, seu melhor resultado em ambas as categorias naquela estação foram dois terceiros lugares, obtidos em Detroit (F1) e Portland (Indy).

Nigel Mansell (1994)

Mansell

A história mais famosa, porém, certamente é a de Nigel Mansell. Após deixar a Williams como campeão mundial no final de 1992 e conquistar a América no ano sequente, pela Newman-Haas, o Leão atendeu ao apelo de Frank Williams e alinhou em quatro etapas da F1 em 1994, a bordo do #2 que ficara órfão de Ayrton Senna. Reza a lenda que, para correr o equivalente a um quarto do certame, Mansell teria recebido da equipe mais do que o que foi pago a Damon Hill pela temporada completa. Nigel entrou como “segundo piloto de luxo” de Hill nas provas de Magny-Cours, Jerez, Suzuka e Adelaide, as que não conflitavam com seu calendário na CART. O fato de estar ativo no automobilismo o ajudou a não pagar mico, mas o peso da idade e a falta de ritmo com um carro da categoria limitaram suas ações. Resultado: se não passou vergonha, Mansell também não andou uma voltinha sequer à frente de Hill nos quatro eventos, e só herdou o triunfo do GP da Austrália graças ao controverso choque entre seu companheiro de equipe e Michael Schumacher, que decidiu de forma elegíaca aquele conturbado campeonato.

 Comunicar Erro

Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.