Williams de 90 sem amarelo? Jordan de 95 dourada? Pinturas raras da F1 #5

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Nos primeiros meses de 2016 o Projeto Motor preparou um especial, em quatro partes, sobre pinturas raras da F1. São composições de cores utilizadas em poucos – às vezes apenas um – GPs, ou mesmo que ficaram restritas a baterias de testes (coletivas ou privadas), ou ainda a eventos promocionais.

CONFIRA as outras quatro partes desta série aqui: Parte 1 | Parte 2 | Parte 3 | 2014

Já àquela ocasião surgiram muitas histórias interessantes e de difícil pesquisa. Conforme passaram-se os meses este pobre escriba seguiu guardando imagens curiosas que achou por aí para uma eventual quinta parte. Chegou o momento de colher os frutos deste exercício de paciência. O douto leitor pode conferir abaixo quais são os novos 14 membros do clube.

1 – Ferrari “amarela belga” – parte 2 (1961)

1961 - Ferrari amarela

O GP da Bélgica de 1961 não foi o primeiro em que uma Ferrari alinhou ostentando pigmentação amarela. Tal feito já ocorrera na edição de três anos antes do mesmo páreo. O motivo para o déjà vu foi, de novo, a presença do ás local Olivier Gendebien. Conhecido por seu talento nos páreos de rali e protótipo, e muito respeitado pelo comendador Enzo Ferrari, o belga disputou algumas etapas do Mundial pela escuderia italiana entre os anos 50 e 60. Já contamos essa história na terceira parte do especial. Sua última aparição como representante do time itálico foi justamente esta de Spa-Francorchamps, ostentando em sua 156 a pintura típica dos competidores do país. O resultado foi digno: quarto lugar.

2 – Tyrrell troca azul pelo branco (1981)

1981 - Tyrrell

Quando Ken Tyrrell lançou, no GP da Alemanha de 1981, o modelo 011, carro-asa de traços bastante inspirados no Brabham BT49, aproveitou a oportunidade para deixar de lado o azul marinho – herança da ex-patrocinadora Elf que lhe acompanhara durante toda sua passagem pela F1 até então. Em seu lugar entrou um livery todo branco (e praticamente sem patrocínios, como já virara rotina na vida do construtor britânico). Com ele Eddie Cheever e Michele Alboreto disputaram cinco etapas, sem absolutamente nenhum resultado expressivo.

3 – Toleman cinza, azul, vermelha e branca (1982)

1983 - Toleman

Assim como ocorreu a outras equipes da grelha, a Toleman foi pega de calças curtas no segundo semestre de 1982, quando saiu a decisão de que o efeito solo estaria banido do campeonato. Àquele momento a pequenina operação sediada em Witney já estava em estágio avançado de desenvolvimento do TG183. O chassi se encontrava praticamente pronto para ir à pista, e acabou usado de forma experimental por Derek Warwick nas provas de Monza e Las Vegas. Desempenho passou longe de empolgar, mas ao menos a limpíssima combinação de cinza com azul, branco e vermelho chamou a atenção. O monobloco bojudo, de bico alto (comportando um radiador frontal) e grandes aletas apensadas aos casulos laterais, demonstrava o arrojo do projeto de Rory Byrne, posteriormente adaptado às novas regras para ser usado em 1983 e até em algumas provas de 84.

4 – Tyrrell preta “de churrascaria” (1984)

1984 - Tyrrell

Vivendo na penúria, a Tyrrell se viu obrigada a trabalhar com pequenos acordos esporádicos de patrocínio ao longo de 1984. Uma das empresas que frenquentemente apareceram sobre a carenagem do 012 foi a churrascaria alemã Maredo. No GP de Hockenheim, corrida doméstica para a investidora, o bólido surgiu nas longas retas do traçado com os decalques do restaurente em destaque sobre fundo predominantemente preto. Na fotografia quem aparece é Mike Thackwell, convidado para substituir o ausente Stefan Bellof (que tinha compromissos no Mundial de Protótipos) e que não conseguiu se classificar para o grid.

5 – Williams FW13B sem topo amarelo (1991)

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Regresso à velha casa após duas estações de muitas aventuras (e alguns dissabores) na Ferrari, Nigel Mansell reiniciu sua trajetória na Williams com uma sessão de três dias de testes em Paul Ricard, entre os dias 18 e 21 de janeiro de 1991. Como o mítico FW14 ainda não estava pronto, o bigodudo teve de se divertir a bordo do FW13B-09, o último carro da leva usada por Thierry Boutsen e Riccardo Patrese no ano anterior. Embora os tempos não tenham sido divulgados, diz-se à boca miúda que o “Leão” extraiu ótimo ritmo ao usar acerto com traseira solta e suspensões rígidas. Isso só acentuou as suspeitas dos engenheiros, de que tanto belga quanto italiano não souberam tirar tudo do modelo, já que preferiam carros mais neutros e moles. Ah, sim: no teste de Mansell o amarelo do bólido sumiu, fruto do fim do contrato com a companhia têxtil bretã ICI Tactel. Ele voltaria semanas depois, de maneira coincidente, após firmamento de acordo com a tabagista Camel.

6 – Jordan 192 verde (1992)

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Antes de assegurar um interessante aporte financeiro da petrolífera sul-africana Sasol, o que levou o time a trocar o verde pelo azul, a Jordan inicou a pré-temporada de 1992 vestindo o problemático 192 com uma roupagem que trazia muitos resquícios da bem-sucedida campanha anterior. Nesta imagem registrada durante teste em Barcelona, por exemplo, Stefano Modena aparece rodado na pista com um 192 esverdeado e decalcado por somente três empresas em relativo destaque: Barclay (marca de cigarros), Phillips (divulgando seu sistema de som automotivo) e Yamaha (a nova fornecedora de motores).

7 – Scuderia Italia Lola “Wait” (1993)

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Conhecida como uma espécie de “Ferrari lado B” em sua passagem pela F1, devido ao uso de liveries semelhantes aos da Scuderia e chassis de traços relativamente refinados, a Scuderia Italia passou por profundas modificações entre 1992 e 93. A principal foi a troca da fornecedora do carro: saiu a Dallara, entrou a conterrânea Lola, trazendo consigo o grosseiro T93/30. Dizem que usar preto ajuda a esconder os defeitos do corpo. Bem… Talvez seja pelo uso dessa pintura “pelada”, com as lâminas em fibra de carbono à mostra, que o projetista Eric Broadley não tenha percebido durante a pré-temporada a aberração que criou. O Projeto Motor bem que tentou descobrir o que significa o “Wait” grafado em amarelo na tampa do cofre do motor, mas não conseguiu. Conforme evidenciado pelo inconfundível capacete, o ás desta foto colhida no autódromo do Estoril é Michele Alboreto.

8 – Jordan azul, amarela, vermelha e branca (1995)

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Três anos depois de ganhar o apoio da Sasol, a Jordan trocou o patrocínio máster pelo de outra petroleira: a francesa Total. O time de Eddie Jordan parece ter ficado um pouco perdido com a mudança, pois conseguiu iniciar o certame de 1995 com uma das combinações mais horrorosas da história da F1: este emaranhado de faixas azuis, amarelas, vermelhas e brancas exibido pelo 195 de Rubens Barrichello e Eddie Irvine nos GPs do Brasil e Argentina. Ficou tão feio que decidiram mudar tudo e colocar um tom aquático de verde na dança a partir de San Marino, compondo uma mistura um pouco menos feia, embora não menos confusa.

9 – Tyrrell azul marinho (1995)

Tyrrell 1995

Outra escuderia a ter iniciado aquela temporada com uma pintura e terminado com outra foi a Tyrrell. Para 95 a equipe decidira voltar às origens e cobrir o promissor – e mal desenvolvido – 023 de azul marinho. Com esta elegante versão do modelo o finlandês Mika Salo chegou a flertar com os pontos em Interlagos e também no Oscar Gálvez. Só que a operadora de telefonia Nokia, que expunha seu logotipo sobre o capô do motor, achou que sua marca não ganhava tanto destaque naquela composição. Exigiu, então, que Ken Tyrrell voltasse a uma disposição próxima àquela usada em 94: base branca e elementos complementares em tons mais claros de azul. A alteração ocorreu também a partir do páreo de Ímola.

10 – Jordan 195 dourada (1996)

1995 - Jordan

Eis a prova cabal da diferença que a pintura pode fazer em nosso julgamento sobre se um carro é bonito ou não. Imagine se a Jordan tivesse disputado toda a época de 95 com este carro. Seria, de longe, o mais belo da grelha. O motivo de o livery dourado da Benson & Hedges ter sido especialmente aplicado ao 195 foi um teste protagonizado por ninguém menos do que Colin McRae em Silverstone, conforme atestado pelo lendário capacete auriceleste do campeão do WRC. A sessão fez parte de um evento promocional que colocou McRae a bordo de um F1 e o então ás da Jordan, Martin Brundle, no controle do Subaru Impreza 555 do compatriota numa pista de terra. O resultado da brincadeira você pode conferir neste vídeo.

11 – Minardi PS02 toda negra (2002)

2002 - Minardi

2002 foi um ano da transição definitiva para a Minardi. Qualquer ligação com a original escuderia fundada por Giancarlo Minardi fora suplantada por uma organização totalmente gerenciada pelo excêntrico magnata australiano Paul Stoddart. Os investimentos do empresário do ramo da aviação deram nova cara à operação de Faenza, a começar pelos carros: estes passaram a ser pintados quase que integralmente de preto. No caso do PS02, conduzido por Mark Webber e Alex Yoong, a base original apresentada na pré-temporada era toda negra. Pena que acabou sendo maculada por camadas brancas e vermelhas já na abertura do Mundial, em Melbourne (corrida em que Webber estreou com um memorável quinto posto).

12 – Williams FW27 toda azul (2005)

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Já mostramos em outras partes do especial como o azul marinho se tornou uma espécie de “cor oficial” da Williams para os ensaios de inverno europeu. Na pré-temporada de 2006 não foi diferente: repare como estava o FW27 (modelo do ano anterior) pilotado por Nico Rosberg em Jerez de la Frontera.

13 – Spyker laranja e prata (2006)

2006 - Spyker

Assim que adquiriu o espólio da obscura Midland, a pequenina montadora neerlandesa Spyker realizou seu shakedown na F1 com uma derivação do M16, bólido concebido pelo grupo russo em 2006, numa coloração diferente. Ali já dava para sentir que o laranja, tipicamente holandês, invadiria a carenagem. Foi com essas cores que a equipe disputou as últimas três corridas daquela temporada. Conseguiu reconhecer o capacete da imagem? É do italiano Ronnie Quintarelli, um dos novatos (apesar de já ter 27 anos) avaliados pelo time. Alem dele treinaram o também inexperiente Adrian Valle e o titular Christian Albers. No fim a segunda vaga ficou com outro estreante, Adrian Sutil.

14 – HRT toda branca (2012)

2012 - HRT

A rotina das chamadas “três nanicas” na F1 de 2010 a 2012 foi única e meramente lutar pela sobrevivência. Veja o caso da HRT (antiga Hispania) em 2012: a operação sequer conseguiu aprumar o limitadíssimo F112 a tempo de participar dos treinos coletivos. A estreia do modelo ocorreu meras duas semanas antes do GP da Austrália, em duas sessões: um shakedown realizado por Narain Karthikeyan em Barcelona, já com a pintura oficial (branco, vinho e dourado), e um chamado “teste de filmagem” em Jerez, capitaneado pelo veterano Pedro de la Rosa. Neste último, o bólido surgiu todo de branco e sem nenhum patrocínio, evidenciando que aquela seria mais uma época de agruras financeiras.

Colaboraram Arlindo Silva, Bruno Ferreira e Vitor Veine. Aos três vão meus agradecimentos.

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Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.