“Williams” não é um documentário sobre a equipe de F1: é sobre solidão

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Antes de iniciarmos a análise sobre o documentário “Williams”, disponível na Netflix e produzido pela produtora BBC Films – um braço da famosa emissora britânica -, como homenagem à terceira escuderia mais vitoriosa da história da F1, vale um alerta: este artigo conterá spoilers. Claro que não contaremos a história toda, mas será inevitável comentar uma ou outra cena. Portanto, se assim lhe aprouver, talvez seja melhor assisti-lo primeiro e depois regressar a estas mal traçadas.

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A primeira coisa que vamos “dedar” é que a produção de 1h44min não vai contar uma história detalhada sobre a evolução da Williams como escuderia. É óbvio que a companhia voltada às competições automobilísticas se encontra no cerne da discussão, mas as atenções serão muito mais voltadas à família e à personalidade de Frank Williams do que ao time em si. Para este humilde escriba trata-se de um roteiro comovente e muito bem pensado, pois foge totalmente do elementar e apresenta um viés muito mais humano do vitorioso dirigente. Veja o trailer:

Caso o douto leitor tenha assiduidade neste sítio, perceberá que o Projeto Motor sempre busca esse tipo de abordagem em suas análises sobre personagens famosos da categoria. Resumos de GPs e temporadas já há aos montes, mas sentimos falta dessa visão um tanto holística dos acontecimentos, capaz de acrescentar elementos psicológicos e intrinsecamente humanos à explicação de por que as coisas aconteceram daquela e não de outra maneira. Colocamos um pouco desse recurso em nossas análises sobre as carreiras de Nigel Mansell e Damon Hill, por exemplo. Para entender do que estamos falando, veja os links abaixo:

Afinal, qual o real nível de grandeza de Nigel Mansell para a F1?
Parte 1
Parte 2

Damon Hill, o antipiloto que desafiou lógica para triunfar na F1
Parte 1
Parte 2

Somos esforçados, mas não dispomos dos mesmos recursos de uma BBC, gigante capaz de compilar depoimentos exclusivos e riquíssimos de quem participou in loco na evolução do contexto. E aí vem a segunda grande virtude de “Williams”: há riqueza nas participações de praticamente todos os personagens, especialmente os que tiveram papel fundamental para o crescimento da equipe: Claire Williams, filha e atual dirigente; Patrick Head, sócio desde pouco depois da fundação da Williams Grand Prix Engineering; Dave Browie, melhor amigo de Frank; Frank Dernie, engenheiro que trabalhou por anos na esquadra; e Peter Windsor, jornalista que trabalhou na Williams como assessor e estava no carro quando o construtor sofreu o acidente de carro que o deixou tetraplégico, no princípio de 1986.

Também há declarações de Virginia, esposa de Frank, falecida em 2013. Para tanto os produtores recorreram a gravações em fita K7 feitas por ela no fim da década de 80, a fim de exorcizar o sofrimento de ter salvado a vida do marido e passado a cuidar de sua saúde incessantemente desde que perdeu os movimentos de quase todo o corpo. Ginny, como era chamada, gravou suas memórias para escrever um livro, A Different Kind of Life, lançado em 1992 e que conta como ela lidou, aqueles anos todos, com um homem que sempre se dedicou mais à F1 do que à sua própria família, mas que agora demandava a dedicação dela em nível máximo.

Frank e Claire Williams: fundador e sucessora no comando da equipe
Frank e Claire Williams: fundador e sucessora no comando da equipe

Ginny, aliás, é a espinha dorsal do documentário, assim como se mostrou uma peça fundamental na própria formação da Williams. Foi ela quem, nos momentos de maior penúria, ajudou a financiar a Frank Williams Racing Cars, escuderia que nada tinha a ver com a Williams Grand Prix Engineering e que foi mantida por Frank entre 1969 e 75. O Projeto Motor já contou a história do time, que passou por muitos maus bocados antes de se tornar a Walter Wolf Racing. A passagem sobre como Williams foi desligado da fábrica que ele próprio criara, inclusive, é um dos momentos mais marcantes do documentário.

Viciado em corridas, Frank sequer passava as festividades de fim de ano com a família. Preferia se dedicar integralmente ao trabalho. Um esposo e pai extremamente fechado, que via o compartilhamento de emoções com seus entes próximos como uma fraqueza. Este é outro detalhe importante: o quanto sua família era, ao mesmo tempo, unida e distante, algo que se reflete até os dias de hoje no relacionamento de Claire com o irmão, John, responsável por cuidar do departamento patrimonial da equipe.

Quanto a Virginia, o desenrolar do filme deixa latente sua subestimada importância como elemento motriz dentro da operação. Por exemplo, Frank não contratava um piloto novo sem que passasse por seu crivo. Sem ela também é provável que o garagista tivesse falecido após capotar seu Ford Sierra 1600 numa estrada próxima ao circuito de Paul Ricard.

Nota-se, ainda, que os produtores se preocuparam em contar com riqueza de pormenores as causas e consequências do acidente de Frank, tanto para a vida dele e de Virginia quanto para a rotina da Williams, especialmente na temporada de 86. Nenhum outro campeonato disputado pela equipe mereceu o mesmo grau de atenção dos roteiristas, por razão sutilmente óbvia: Nelson Piquet e Nigel Mansell travaram uma ácida e fratricida batalha que custou a ambos o título de pilotos, e tudo isso porque Frank não estava lá. Há excelentes declarações de Piquet, Mansell, Patrick Head e Frank Dernie a respeito, inclusive.

Na sexta-feira anterior ao GP da Grã-Bretanha de 86 Frank Williams fez sua primeira aparição pública após o acidente que o deixou tetraplégico. Ginny, sua esposa, foi então convidada a receber o troféu de construtores pela vitória de Nigel Mansell em Brands Hatch, e se tornou a primeira mulher a erguer uma taça num pódio da F1. Esta imagem é uma das mais emblemáticas da história da categoria
Na sexta-feira anterior ao GP da Grã-Bretanha de 86 Frank Williams fez sua primeira aparição pública após o acidente que o deixou tetraplégico. Virginia, sua esposa, foi então convidada a receber o troféu de construtores pela vitória de Nigel Mansell em Brands Hatch, e se tornou a primeira mulher a erguer uma taça num pódio da F1. Esta imagem é uma das mais emblemáticas da história da categoria e simboliza a importância (jamais reconhecida) de Ginny para a evolução da equipe

As únicas outras passagens em pista que mereceram algum detalhamento do documentário foram a relação entre Williams e Piers Courage, o primeiro ás da história da Frank Williams Racing Cars (que acabou morto numa terrível colisão sofrida no GP da Holanda de 1970), e também a primeira vitória da Williams Grand Prix Engineering, com Clay Regazzoni no GP da Grã-Bretanha de 79. Outras passagens esportivas são mencionadas quase que en passant.

Não espere, portanto, nenhum tipo de resumo de resultados temporada por temporada. O imo da história está na análise de caráteres e personalidades do casal (sim, o casal) responsável por fundar e evoluir a Williams. A única lacuna sentida pelo Projeto Motor foi a ausência de menções a acordos de parcerias e patrocínios. A transformação da esquadra numa operação de ponta é retratada quase que como uma mágica obtida num estalar de dedos, e não como resultado da injeção de boa dose de dinheiro vinda de empresas do Oriente Médio (e que permitiu a Frank criar uma estrutura que eventualmente se tornou vencedora).

Para os brasileiros há outro pequeno deslize: as legendas se mostram, por vezes, imprecisas quanto ao uso de termos e jargões específicos do automobilismo. Fica perceptível que o tradutor sabe muito de inglês, mas pouco sobre corridas de automóveis. Nada que tire o brilho final de uma peça documental capaz de emocionar.

Repetindo: “Williams” fala muito menos da equipe de F1 do que sobre os sacrifícios individuais de Frank e Virginia. Ficou ótimo desta forma. Para encontrar sucesso no automobilismo, o casal Williams teve de abdicar de muita coisa, inclusive o compartilhamento de emoções pessoais com os outros e entre si mesmos. Duas figuras tão campeãs e solitárias quanto a própria Williams, que – conforme relembra o ex-piloto Howden Ganley – se mantém hoje como única escuderia “de garagem” da antiga F1 a preservar o fundador como atual dono.

O que já escrevemos sobre a Williams:
A história do massacrante FW14B
FW15C: o carro de “outro planeta”

As loucas aventuras de Frank Williams antes da glória
Jones-Reutemann: a briga interna que custou um título

DEBATE MOTOR #101: os desafios da F1 para o futuro

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Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.