Williams não merece ser crucificada por perda de pódio em Silverstone

7

Não faltaram críticas à Williams depois do desfecho infeliz para a equipe no GP da Inglaterra do último domingo (5). Diante do início de prova bastante promissor e competente por parte de Felipe Massa e Valtteri Bottas, é natural que haja uma frustração coletiva com o time perdendo o pódio nas voltas finais, em plena prova em seu quintal de casa.

No Brasil, muito alimentado pelo discurso da transmissão oficial, a equipe inglesa foi crucificada pelos fãs por supostamente cometer um erro óbvio e infantil, que acabou dificultando mais uma vez a vida de Massa. No entanto, a proposta do Projeto Motor é evitar repetir análises emocionais e, neste caso, buscar entender o que se passou por trás das decisões tomadas nas voltas finais em Silverstone. A Williams de fato dormiu no ponto ou houve mérito por parte das rivais?

Massa parou uma volta depois de Vettel, suficiente para perder posição (Steven Tee/LAT)
Massa parou uma volta depois de Vettel (Steven Tee/LAT)

Como não é raro acontecer na Inglaterra, as condições climáticas na metade final do GP eram um pesadelo até aos melhores meteorologistas. A chuva ameaçava, mas hesitava em dar as caras de vez – e, quando caiu, afetou em um primeiro momento só alguns pontos da pista. A decisão de trocar pneus não era algo óbvio, mas sim uma questão de sacrifício: ou se comprometia o trecho seco ao colocar pneus intermediários, ou permaneciam com slicks com dificuldades na parte molhada. Uma decisão que envolve diversos fatores, envolve o timing e precisa ser tomada no instante correto.

O líder Hamilton fez sua parada final na volta 43, quando sentiu que a chuva começava a cair mais forte no circuito. Apesar de a decisão ter se mostrado perfeita, o piloto admitiu que ela foi fruto de uma visão apurada com uma pitada de sorte, já que nem ele mesmo estava totalmente seguro do que fazia.

“Eu acho que foi a primeira vez em minha carreira inteira na F1 que eu tomei a decisão perfeita quanto aos pneus. Eu pedi para parar assim que vi a chuva apertando, então eu coloquei os pneus para molhado na hora certa. Assim que saí dos boxes, fiquei torcendo para que continuasse chovendo”, comemorou Hamilton

Hamilton decidiu arriscar mesmo desconfiado, pois corria o sério risco de ser engolido por Nico Rosberg caso permanecesse na pista. O alemão voava nas condições mistas e havia tirado quase cinco segundos nas três voltas anteriores. No entanto, a situação era tão instável que o próprio Rosberg se deixou iludir com seu ritmo superior ao de Hamilton e pensou que o parceiro havia errado em ir aos boxes.

“Eu estava bastante certo de que era a decisão errada, porque ainda estava no ‘chove não molha’ naquele momento. Então, na verdade, fiquei bastante feliz na hora que ele fez o pitstop. Mas, no fim, foi a decisão correta”, conformou-se o alemão, que parou uma volta depois

Além de Hamilton, somente um outro piloto colocou pneus intermediários na volta 43: Sebastian Vettel. Assim como o piloto da Mercedes, o alemão também estava em posição de apostar, já que fazia prova bastante apagada e ocupava uma distante quinta colocação. Uma troca de pneus certeira era uma das únicas chances que tinha de dar o salto que precisava.

Raikkonen parou cedo demais e sofreu (Divulgação)
Raikkonen parou cedo demais e sofreu (Divulgação)

Mais que o feeling, Vettel teve um importante aliado quando precisou tomar a decisão correta. Isso porque seu companheiro de equipe, Kimi Raikkonen, foi um dos primeiros a calçar os intermediários, na volta 38, ainda de forma prematura. Com o asfalto majoritariamente seco, o finlandês se arrastava na pista com os pneus inadequados, perdendo bastante terreno para Sergio Pérez, seu rival mais próximo. Contudo, foi justamente na volta 43 que Raikkonen começou a andar no mesmo ritmo do piloto da Force India, o que já era um indicativo de que a hora ideal de colocar intermediários havia chegado.

Justamente pela decisão rápida e certeira, Vettel preferiu enaltecer a si próprio e a Ferrari, que mais uma vez se mostrou capaz de tomar uma decisão precisa no calor dos acontecimentos.

“Não foi um presente. Não foi o Papai Noel que me levou aos boxes. Foi nossa decisão, e não foram muitos que acertaram. Nós acertamos, foi nossa escolha, e conquistamos o pódio”

Mas onde a Williams entra nessa história? Primeiramente, é preciso relembrar o contexto da corrida. Massa ocupava o terceiro lugar, levando a equipe ao pódio pela terceira vez consecutiva em pleno palco de Silverstone. A Williams, que já tem como histórico ser excessivamente conservadora em estratégias, não estava na hora, momento e condições de abandonar essa característica e arriscar. A decisão só seria tomada caso fosse seguramente a melhor escolha, o que, àquela altura, ainda não havia ficado totalmente claro.

“Nós estávamos esperando até a hora certa para parar e acho que Lewis parou uma volta antes de nós. Ele tomou uma ótima decisão ali. A chuva estava apenas começando a atingir a reta principal, e, quando isso aconteceu, Vettel ainda teve 15 segundos a mais para tomar a decisão, quando já estava claro que começaria a chover. Ali, nossos carros tinham acabado de passar da entrada dos boxes e tivemos que dar uma volta a mais”, justificou o engenheiro Rob Smedley

Button venceu na Austrália-2010 graças a uma escolha correta (Divulgação)
Button venceu na Austrália-2010 graças a uma escolha correta (Divulgação)

Em condições climáticas instáveis como essas, o que pode fazer grande diferença é a sensibilidade do piloto, já que as informações que a equipe possui no pitwall não conseguem ser tão precisas quanto os olhos daqueles que acompanham em primeira pessoa a evolução da chuva e do asfalto. Jenson Button, por exemplo, é uma figura que se sobressai em momentos assim.

Em entrevista à TV Globo logo depois da corrida, Massa disse ter notado que a pista estava ficando bastante molhada na volta 43. Contudo, suas palavras indicam que nem ele, nem a Williams haviam percebido que se tratava da hora certa de parar – não por seu demérito, mas sim porque a situação, naquele momento específico, impossibilitava qualquer certeza.

“É frustrante perder um pódio assim, mas, na chuva muitas coisas podem acontecer. Talvez podemos acertar, talvez podemos errar… É parte do jogo”

Dos 13 pilotos que estavam na prova em sua fase final, apenas dois deles conseguiram tirar algum tipo de vantagem com o último pitstop. O que se viu em Silverstone não se tratou de um erro grosseiro da Williams, mas sim de uma daquelas típicas situações em que a decisão correta parece óbvia somente depois dos desdobramentos dos fatos. A F1 é rápida não somente na pista, mas também fora dela, em escolhas que precisam ser tomadas em um piscar de olhos. No fim das contas, méritos de Lewis Hamilton e Sebastian Vettel.

Confira o Debate Motor #4, com análise do GP da Inglaterra:

 Comunicar Erro

Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.