Willy T. Ribbs: o primeiro negro na Indy 500 e a andar de F1

0

Existe um personagem no automobilismo que, ainda mais em tempos difíceis em que estamos enfrentando no mundo, merece ter sua história contada. Willy T. Ribbs foi o primeiro negro na história a se classificar para as 500 Milhas de Indianápolis e a andar em um carro de F1 em um teste, ambos na década de 80.

Todo o problema racial que existe no mundo e que mais uma vez está sendo discutido após o assassinato de George Floyd por um policial americano branco nos Estados Unidos é escancarado no automobilismo. Além do preconceito já existente em um esporte em que basicamente apenas a elite econômica mundial participa, o que denota uma quase que homogeneidade branca, a situação ainda explicita o problema social do mundo.

Casos por exemplo da África do Sul, país com ampla população negra, ter tido mais de 20 pilotos a largarem pelo menos uma vez em um GP da F1 e nenhum negro estar nesta lista é um exemplo básico deste problema.

Na semana do GP do Brasil de 2019, Lewis Hamilton, primeiro negro a realmente competir em um GP da F1 e hoje na lista dos melhores pilotos da história, falou do problema, que supera até mesmo o possível incentivo de seu sucesso.

“Acho que sempre foi um problema. O que eu gosto é que vejo famílias de diferentes estilos de vida, etnias e origens vindo até mim e dizendo: ‘meu filho quer ser um piloto’. Isso é ótimo, mas existe um problema. A cada ano fica mais caro. Hoje eu não seria capaz de correr na F1. Nós, como uma família de trabalhadores, não teríamos qualquer chance de chegar na F1 com o dinheiro que tínhamos. Sinto que o esporte está indo na direção errada”, disse na coletiva à imprensa brasileira.

O próprio inglês, que recebeu apoio da McLaren e da Mercedes desde os tempos do kart, sofreu racismo em diversos momentos. Em um dos momentos mais lembrados, algumas pessoas brancas foram nas arquibancadas do circuito de Barcelona com máscaras pretas e camisetas com a frase “Família Hamilton” durante a pré-temporada de 2008. O piloto ainda era vaiado e xingado com palavras extremamente racistas. O mesmo aconteceu durante o GP da Espanha de 2009. E a pior parte foi a resposta tímida, para não dizer inexistente, da categoria e do paddock da F1.

E mesmo quando conseguem entrar neste meio, como em quase todos os setores da sociedade, o racismo se torna um problema em um meio que se depende mais da vontade de um chefe de equipe ou patrocinador de contratar o piloto do que o talento dele em si.

Para um personagem como Willy T. Ribbs, que ainda tentava abrir seu caminho ao final dos anos 70 e começo dos 80, e que tinha uma personalidade forte, forjada pela infância e adolescência numa Califórnia em que problemas raciais sempre foram um problema, isso pode ser ainda mais difícil.

“Eu lidei com isso na pista e fora. Vem agora com a tecnologia e comunicação mundial. A não ser que aconteça uma mudança e uma mudança real na sociedade de todo o mundo, nós [afro-americanos] vamos desaparecer. Não chegaremos a 2050. Isso começa com economia, começa com desigualdade social”, denunciou Ribbs em entrevista à revista inglesa Motorsport nesta semana.

As raízes e o começo de Ribbs

William Theodore Ribbs Jr. nasceu em 3 de janeiro de 1955 na cidade de San José, no estado americano da Califórnia, em uma família de classe média. Ele era neto de Henry Ribbs, que em 1927, após anos trabalhando como aprendiz de encanador, fundou a empreiteira de encanamentos “Ribbs Plumbing”.

A firma, segundo o site da Biblioteca Pública de San José, foi uma das primeiras empresas ao oeste do rio Mississipi de propriedade de um afro-americano. Próspero, Henry Ribbs construiu cinco casas em uma rua de San José para alugar. Em 1960, a prefeitura local rebatizou a alameda de “Ribbs Lane”.

Família Ribbs se tornou um símbolo da comunidade negra em San José, na Califórnia (Foto: Biblioteca Pública de San José)

William Ribbs Sr deu continuidade à companhia do pai. Ele também mantinha uma grande paixão por carros e automobilismo, participando de algumas corridas regionais na região de São Francisco durante os anos 50 e 60. Além disso, viajava de motorhome para assistir a corridas da F1 nos Estados Unidos, Canadá e México. Viver com este incentivo e ambiente, claro que levou um de seus cinco filhos, Willy T. Ribbs, a gostar também deste mundo.

Antes mesmo de tirar a carteira de motorista, Willy T. Ribbs já saía acelerando os carros do pai nas estradas das montanhas da Califórnia, o que lhe rendeu rapidamente alguns problemas com a polícia. Após se formar no ensino médio, ao final de 1975, ele se mudou para a Inglaterra para tentar uma carreira no esporte a motor. Ele competiu e venceu o campeonato de Fórmula Ford 1.600 que levava o nome promocional de “Estrela do Amanhã”, em 77.

“Quando cheguei à Inglaterra, eu sabia por ler a revista Autosport que tinha uma equipe de muito sucesso, chamada de Scorpion Racing e que o dono era Mike Eastick”, contou Ribbs no recente documentário sobre sua carreira “Uppity”. “Então, eu fui até a fazenda dele e bati na porta. Ele pensou que eu queria um emprego na fazenda. ‘Não’, eu disse. ‘Estou aqui para pilotar um de seus carros de corrida’. Se você levasse dinheiro, seja pessoal ou de patrocinadores, ele te colocaria no carro. Paguei com o dinheiro que estava reservado para minha faculdade”, continuou.

Willy T. Ribbs durante sua temporada na FF1600 na Inglaterra, em 1977 (Foto: Chassy Media)

Enquanto muitos pilotos seguiram com suas carreiras na F3, Ribbs não tinha mais dinheiro pessoal para investir e não conseguiu um patrocinador para continuar bancando sua incursão europeia. Então, ele não teve alternativa a voltar aos Estados Unidos.

Carreira nos EUA e teste na F1

Apesar de não conseguir avançar no caminho convencional para a F1, Ribbs continuou correndo nos EUA. Em 1978, com apoio do pai, ele conseguiu algum destaque na etapa da Fórmula Atlantic em Long Beach. Um mês depois, o presidente do circuito de Charlotte, Humpy Wheeler, querendo atrair a atenção de uma parcela do público negro, resolveu o convidar para participar de uma etapa da Nascar Cup.

Choveram críticas. A Nascar e Ribbs receberam diversas cartas, algumas, como conta hoje o ex-piloto, com ameaças de morte. “Se este n***** correr, ele não vai sair da pista vivo”, citou no documentário. Comissários da categoria também não queriam permitir que ele competisse alegando falta de experiência em stock cars.

Neste meio tempo, ele chegou a perder o carro com que correria para outro piloto, mas Wheeler conseguiu outra vaga para ele de última hora. O vai e vem o fez perder dois treinos livres. Só que a oportunidade sumiu de vez quando ele foi preso por dirigir na contramão em uma rua de sentido único. A equipe então o substituiu por um emergente Dale Earnhardt.

Apesar da chance perdida, a carreira de Ribbs seguiu com participações de sucesso na Fórmula Atlantic e no campeonato Trans-Am, de Camaro. Em 1985, ele fez sua primeira tentativa de participar das 500 Milhas de Indianápolis, em um negócio que envolveu o famoso empresário Don King (que ganhou notoriedade por agenciar boxeadores) pela equipe Sherman Armstrong, porém, com um equipamento de segunda mão.

Na sessão de orientação de estreantes, ele não conseguia passar de 170 milhas por hora enquanto os outros novatos estavam andando a 200 mph. Na metade do treino, ele estacionou o carro e disse que não estava confortável com o carro e que iria embora. E o fez.  

“Velocidade não tinha nada a ver com aquilo. Era um carro ruim. Arie Luyendyk pilotou ele pela equipe Provimi Veal e não gostou, então, venderam para a Armstrong. Muitas pessoas me disseram para não aceitar, mas era uma chance de correr em Indy, então eu peguei”, contou Ribbs em uma entrevista ao LA Times em 1987.

“Era simplesmente um carro ruim. Eu não passava de 170, e tinha peças e partes caindo dele. Até onde eu sei, não tive problema de andar a 200 mph em Daytona. Mas para ir a 200, o piloto precisa de um carro embaixo dele”, continuou.

Um dos momentos mais importantes de sua carreira, no entanto, aconteceria no ano seguinte. Ele foi convidado por Bernie Ecclestone, que lembrava dele da temporada na Inglaterra em 1977, para realizar um teste pela equipe de Brabham. Ele se tornaria assim o primeiro negro a pilotar um carro de F1 na história.

Testes de Willy T. Ribbs pela Brabham em 1986
Testes de Willy T. Ribbs pela Brabham em 1986 (Foto: Chassy Media)

A sessão aconteceu no circuito do Estoril, em Portugal, e Ribbs conseguiu completar todo o programa planejado, mas não existem informações públicas confiáveis sobre seu desempenho. Como se sabe, ele não recebeu novas chances na categoria e o Mundial teria que esperar 21 anos para outro negro ter uma oportunidade, Lewis Hamilton, desta vez com muito mais sucesso.

“Bernie Ecclestone me convidou a ir para Portugal para testar uma Brabham com outros 15 pilotos. Eu nunca tinha pilotado um F1 antes, mas amei. Foram cinco dias e tive a chance de ver como uma grande organização funciona. Dos 15 pilotos, fiquei em 12º”, disse o ex-piloto ao LA Times um ano depois do teste.

Nascar e 500 Milhas de Indianápolis

Naquele mesmo ano de 1986, Ribbs finalmente conseguiria participar de três etapas da Nascar Cup. Nenhuma com grande destaque, mas longe de ir mal, andando no pelotão intermediário do grid de mais de 40 carros.

Quatro anos depois, ele voltaria a aparecer em uma categoria de grande porte dos Estados Unidos ao correr por oito vezes na Indy, em uma operação financiada pelo comediante negro Bill Cosby, com seis abandonos (quatro por falha mecânica e dois acidentes) e um top 10.

A Trans-Am foi a categoria pela qual Willy T. Ribbs mais se destacou, chegando a correr para a equipe de Dan Gurney

Na temporada seguinte, ele realizaria o sonho de finalmente competir nas 500 Milhas de Indianápolis, pela equipe Walker. Ele se classificou na 29ª posição do grid e mesmo abandonando após apenas cinco voltas com um problema no motor, ele entrou para a história como o primeiro participante negro da história da prova. Ele ainda correria mais oito corridas pela Walker com três top 10, incluindo um sexto lugar na etapa de Vancouver.

O ano de 93 foi o que ele teve mais oportunidades na Indy, com 13 participações novamente pela Walker e muitos resultados medianos, mas com o feito de receber a bandeira quadriculada na Indy 500, na 21ª posição.

Willy T. Ribbs continou correndo até o final da década de 90, mas sem nunca conseguir um programa de temporada completa. Nos anos 2000, ainda fez mais algumas aparições, incluindo uma participação na Indy Lights, em 2011, aos 55 anos.

Desde sua participação em Indianápolis, apenas mais um negro conseguiu participar das 500 Milhas de Brickyard, George Mack, em 2002.

Controvérsias e posicionamentos de Ribbs

Ribbs se meteu em muitos confusões. Não há dúvidas. Muitas vezes foi criticado até por representantes da comunidade negra americana. Ele recebeu uma multa em 1984 na Trans-Am por dar um soco em Bob Lobenberg e foi suspenso na IMSA, três anos depois, por fazer o mesmo com Scott Pruett. Também foi multado por direção excessivamente agressiva por pelo menos cinco vezes.

Claro que por sempre ser lembrado como o “primeiro” e “único” negro nas competições chamavam ainda mais a atenção para seu comportamento dentro e fora da pista. Hoje, ele vive no Texas e elogia a postura de Lewis Hamilton, que recentemente criticou a comunidade do automobilismo e da indústria automotiva por não se posicionar contra o caso do assassinato de George Floyd e apoiar as manifestações antirracismo que estão acontecendo pelo mundo.

Willy T . Ribbs e Lewis Hamilton, durante o GP dos EUA de 2012, em Austin (Foto: officialwillytribbs.com)

“Estou orgulhoso dele por tomar a liderança. E estou orgulhoso da Mercedes”, disso Ribbs em entrevista à revista inglesa Motorsport. “Os alemães sempre foram justos com ele, eles foram bons com ele e estou orgulhoso pela Mercedes o ter apoiado. E por ele ser homem o bastante para dizer o que está errado e se levantar pelo que é certo.”

Após os comentários do hexacampeão da F1, uma avalanche de suporte por redes sociais de outros pilotos, equipes e empresas relacionadas ao automobilismo surgiu. Ribbs enfatizou o mérito de Hamilton por fazer todos começarem a se mexer em torno do assunto.

“Não existem muitos homens com bolas para fazer isso, especialmente aqueles que dependem de relações públicas. Agora, esses pilotos estão entrando na onda, seguindo Lewis. Eles têm a posição para mudar o mundo. Eles têm a voz e a plataforma.”


 Comunicar Erro

Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.