Com obra prevista em até 23 meses, tempo para Deodoro aperta

0

Grande aposta do Rio de Janeiro para conseguir levar o GP do Brasil de volta à cidade a partir de 2021, o autódromo de Deodoro está com prazo apertado para conseguir se viabilizar como alternativa a Interlagos. Pelo menos já para a próxima temporada, quando São Paulo deixa de ter contrato válido com a F1.

No final de fevereiro, o Inea (Instituto Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro) divulgou o relatório de impacto ambiental, produzido pela empresa Terra Nova, da construção do novo autódromo. Uma das principais críticas sobre a obra é que ela será realizada em uma área em que fica a Floresta do Camboatá, onde estão espécies nativas da Mata Atlântica tanto da fauna quanto da flora. A área, para se ter ideia, é três vezes maior do que a do Jardim Botânico carioca.

Fique ligado em nossas redes sociais: 
Twitter – @projetomotor
Facebook – Projeto Motor
Youtube – Projeto Motor
Instagram – @projetomotor

Para começar a obra, a empresa Rio Motorsport, que venceu em 20 de maio de 2019 concorrência pela PPP (Parceria Público Privada) da prefeitura do Rio de Janeiro em que foi a única interessada a apresentar proposta para construir e administrar o equipamento, precisa aguardar a aprovação do relatório de impacto ambiental em audiência pública.

A reunião estava prevista para o último dia 18 de março. Com a explosão da crise do coronavírus, no dia 13, o governador do estado, Wilson Witzel, suspendeu todos os eventos públicos com aglomeração de pessoas, o que incluiria a audiência. Curiosamente, em 16 de março, a sessão sobre o circuito voltou a ser marcada para 18/03, mesmo com todos os problemas causados pelo Covid-18. Após repercussão na imprensa, incluindo no Projeto Motor, o Inea voltou atrás e voltou a adiar a audiência por tempo indeterminado.

Isso tudo mostra como o tempo está ficando apertado e a pressão subindo para que a Rio Motorsports consiga garantir ao Liberty, detentor dos direitos comerciais da F1, a construção da pista já para 2021. No relatório de impacto ambiental, a previsão da obra é de 23 meses. Isso significa que, se começasse a construção em abril, o autódromo estaria pronto apenas em março de 2022.

O Projeto Motor questionou, antes da explosão da crise do Covid-19, em 11/03, a Rio Motorsports sobre o assunto. A resposta chegou, via assessoria de imprensa, no último 23/03, após o agravamento da pandemia no país e no estado do Rio de Janeiro.

“Este é prazo máximo estipulado pela prefeitura no edital de concorrência. Internamente, nossa previsão é de ter o autódromo pronto para receber a F1 no final de 2021”, explicou a empresa. Fontes do Projeto Motor junto à Rio Motorsport indicam que o autódromo poderia ficar apto a receber o GP em até 15 meses após o início da construção. O prazo é otimista, levando-se em conta o tempo que se levou para outras modernas pistas serem erguidas como Bahrein (16 meses), Xangai (18 meses) e Austin (18), para se destacar os mais rápidos dos últimos 20 anos.

[ATUALIZAÇÃO] Após a publicação da matéria, a assessoria de imprensa da Rio Motorsports entrou em contato com o Projeto Motor para explicar que a empresa leva como referência a construção do autódromo de Aragão, na Espanha, que também foi realizada pela companhia Acciona, e ficou pronta em 52 semanas. Ou seja, cerca de 12 meses.

Cronograma da obra do Autódromo de Deodoro, no Rio de Janeiro
Cronograma da obra do Autódromo de Deodoro, no Rio de Janeiro

Mesmo assim, perguntamos à companhia se para garantir o GP e bloquear uma renovação de São Paulo, o que poderia manter a F1 em Interlagos em um período de mais cinco a dez anos, se existiria a possibilidade de um acordo com o Liberty para a corrida brasileira não acontecer em 2021 para que fosse realizada no Rio a partir do ano seguinte. A resposta foi bem taxativa: “Não trabalhamos com essa possibilidade”.

De qualquer maneira, a Rio Motorsports fica agora à espera da realização de uma audiência pública que está fora de seu controle e que deve acontecer apenas quando a pandemia do Covid-19 se atenuar. Só então que poderá também fechar um contrato com a F1 já para 2021, ou estudar alguma outra alternativa.

Finanças do Autódromo de Deodoro

Pouco se tem informação sobre as finanças e capacidade de investimento da Rio Motorsports para realização do empreendimento em Deodoro. A empresa sempre alegou que tem um conjunto de parceiros e investidores que não podem ser mencionados. Fontes alegam que a construtora espanhola Acciona, que seria a responsável pela obra, já fez inclusive um aporte para que o projeto caminhe.

Projeto mais recente para o Autódromo de Deodoro, no Rio de Janeiro
Projeto mais recente para o Autódromo de Deodoro, no Rio de Janeiro (Imagem: Divulgação)

O que se sabe é que na época da realização da concorrência para a PPP, a Rio Motorsports, formada apenas alguns dias antes, tinha um capital de somente R$ 100 mil. O edital da PPP, inclusive, previa que o vencedor deveria ter o valor de R$ 69 milhões, equivalente a 10% do valor da obra. A assessoria de imprensa, na época, justificou o problema ao Projeto Motor que o valor só seria necessário no ato da assinatura do contrato, o que ainda não ocorreu porque a construção não foi autorizada justamente pela falta da aprovação do relatório de impacto ambiental.

Uma das defesas da Rio Motorsports de sua solidez financeira é que o autódromo seria construído independente da vinda da F1 e que a prova disso é o contrato já assinado com a MotoGP, que já anunciou sua primeira corrida em Deodoro para 2022. Outro ponto que a empresa aponta é que ela não utilizará recursos públicos para a construção do autódromo, apesar de ter uma concessão de apenas 35 anos para exploração do terreno, que se trata de uma área que pertencia ao exército e que foi repassada à prefeitura por conta do projeto.

Na tabela “Quadro Resumo Receitas Operacionais” do relatório apresentado ao Inea, no entanto, existe a previsão de um “aporte público” de R$ 1,2 milhão anual entre o ano 3 da operação do circuito e o 35, que representaria o fim do contrato. Questionada, a Rio Motorsports respondeu via assessoria de imprensa: “Este valor representa apenas uma receita contábil, ou seja, não é uma entrada direta de dinheiro. Ele refere-se à contrapartida de parte área concedida, conforme previsto no edital. Logo, não haverá aporte de nenhum órgão público para a construção do autódromo.”

Uma preocupação sobre a questão é a procura para novas receitas e se o terreno será utilizado para outros objetivos do que apenas a pista de corridas, equipamentos esportivos ou sociais, mas também empreendimentos imobiliários e comerciais (shoppings, condomínios e etc), o que teria impacto econômico, além do  ambiental, em toda a comunidade no entorno e que não está previsto hoje. O projeto do autódromo não especifica este tipo de uso.

Essa foi mais uma das questões que levamos à Rio Motorsports que respondeu de forma que deixa em aberto suas opções, apesar do objetivo do projeto ser o autódromo, como citado no próprio relatório da Terra Nova: “Como sempre dissemos, o projeto apresentado não se resume apenas à construção de uma pista de corrida. O Rio Motorpark será multiuso e multidisciplinar. Por questões estratégicas, ainda não comentaremos quais outros tipos de utilização serão dadas à área.”

Outra dificuldade que pode surgir pós-crise do coronavírus, e que pode também abater até mesmo as intenções de São Paulo para a renovação de seu contrato, é a possível dificuldade de financiamento do projeto. Com empresas em todo mundo passando por dificuldades de caixa e o crédito estatal e privado indo para a recuperação da economia brasileira e mundial, tanto Deodoro como Interlagos, que passa por um processo de concessão que já foi adiado três vezes desde o começo de 2020, podem ter dificuldades de fechar um acordo com a F1.

Meio ambiente

O relatório produzido pela empresa Terra Nova é bastante a favor da construção do autódromo de Deodoro. A principal justificativa é o teórico retorno econômico em “impostos federais, estaduais e municipais”. Como contrapartida, o documento também destaca projetos de compensação ambiental e reflorestamento de espécies de Mata Atlântica, além da realocação das espécies da fauna que vivem no terreno.

“O estudo entregue ao Inea apresenta 20 diferentes programas de compensação ambiental voltado à fauna e flora da área. Todas as medidas necessárias estão contempladas no projeto, como, por exemplo, o plantio de mais de 8 vezes da vegetação suprimida, criação de um horto florestal e coleta de material genético das espécies em risco e retirada e acomodação dos animais ameaçados para áreas mais adequadas à sua sobrevivência e reprodução”, explica a Rio Motorsports em sua nota ao Projeto Motor.

Por outro lado, um relatório do Instituto Jardim Botânico, de 2012, apontou algo diferente. Além da preocupação com a fauna e flora locais, apontando a dificuldade ou quase impossibilidade da replicação daquele ambiente em outro local, também são ressaltados os impactos positivos da Floresta do Camboatá, com cerca 169 hectares, na comunidade local, incluindo controle natural da temperatura e condições climáticas.

“A gente não é contra o autódromo, mas contra o equipamento em cima de floresta. O relatório mostrou que há tipos de solo específicos, que só existem ali, e espécies ameaçadas de extinção. Foi sugerida a região do Gericinó como alternativa, numa área maior já desmatada”, explicou Luiz Cândido, morador da região e membro do movimento SOS Floresta do Camboatá em entrevista ao Jornal O Globo em janeiro de 2019.

A Rio Motorsports afirmou ao Projeto Motor que mantém diálogo com entidades locais da região por ser uma obrigação legal para obtenção das licenças necessárias para a construção do empreendimento. “Isso já foi feito, entregue aos órgãos competentes e será apresentado na audiência pública.”

A área apontada por Cândido em Gericinó aparece no relatório da Terra Nova como uma das cinco alternativas para o autódromo, mas que, segundo o documento, não tem condições de receber o empreendimento por diversas condições, incluindo falta de estrutura local, limitações ambientais e pela necessidade de desapropriações.

Outro que se mostrou contra a construção foi o ambientalista Abílio Tozini, membro do Consemac (Conselho Municipal de Meio Ambiente da Cidade do Rio de Janeiro), de forma mais radical. “É uma loucura destruir o único ponto remanescente de grande porte de Mata Atlântica em área plana no Rio de Janeiro para construir um autódromo. É uma região com uma flora tão rica que o Jardim Botânico explorava para fazer pesquisas, coletar sementes e produzir mudas”, destacou em maio de 2019 em entrevista ao jornal Folha de SP.

Todos ficam agora no aguardo dos próximos capítulos da crise do coronavírus e de sua influência sobre uma decisão tão estratégica para a cidade do Rio de Janeiro.


 Comunicar Erro

Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.