Ordens, vaias e mudanças de regra: os detalhes do polêmico GP da Áustria de 2002

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O dia 12 de maio de 2002 marcou uma das corridas com desfecho mais polêmico da F1 nos tempos modernos. Nos metros finais do GP da Áustria, Rubens Barrichello obedeceu ordens da Ferrari e cedeu a primeira posição a Michael Schumacher, que, assim, ampliou uma liderança no campeonato que já se mostrava bastante extensa. 

Isso gerou uma série de desdobramentos para a F1 – tanto em termos de imagem, uma vez que a Ferrari recebeu ampla rejeição do público e foi acusada de ferir o espírito esportivo da categoria, quanto em termos de regras, já que alguns pontos do regulamento foram alterados dali em diante para evitar mais situações do tipo.

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A corrida na Áustria foi um dos pontos mais marcantes da passagem de Barrichello pela Ferrari e se mostrou um momento impactante da campanha do pentacampeonato de Schumacher. Relembre a história em seus detalhes. 

O plano de fundo

Temporada de 2002 começou complicada para Barrichello (Foto: Ferrari)

A temporada de 2002 começou com situações praticamente opostas para os pilotos da Ferrari. Michael Schumacher, que vinha de dois títulos consecutivos, iniciou o ano com quatro vitórias e um terceiro lugar nas primeiras cinco etapas. Rubens Barrichello, que havia passado em branco em 2001, teve quatro abandonos e um único pódio no mesmo período inicial de 2002. 

A sorte do brasileiro parecia que começaria a mudar no fim de semana do GP da Áustria, a sexta etapa do calendário. Na quinta-feira anterior à prova, a Ferrari anunciou a renovação de seu contrato, que passaria a valer até o final de 2004 – a mesma duração do acordo de Schumacher. Isso mostrava que, apesar do mau momento, Barrichello aparentemente ainda tinha o apoio da equipe italiana.

E, dentro da pista de Spielberg (hoje rebatizada de Red Bull Ring, ainda sede do GP da Áustria), Barrichello se mostrou confortável por praticamente o tempo inteiro. Na sexta-feira, apesar de uma escapada da pista na sessão matutina, o brasileiro liderou os tempos combinados e fechou o dia na frente. 

Já no sábado, Barrichello foi o mais rápido na classificação e conquistou sua quinta pole position na F1 (a terceira pela Ferrari). Enquanto isso, Schumacher teve problemas de freio em seu carro titular e precisou usar o modelo reserva para ficar em terceiro, ainda atrás de seu irmão, Ralf Schumacher, da Williams, que completou a primeira fila.

Rubinho ainda liderou o extinto warm-up, no domingo pela manhã, o que mostrava que ele ocupava posição de franco favorito à vitória na Áustria. 

A corrida na Áustria

(Foto: Ferrari)

A boa forma de Rubens Barrichello se manteve durante toda a corrida na Áustria. O brasileiro controlou as ações da primeira posição desde o início, enquanto que Michael Schumacher, que superou Ralf logo na largada, não conseguia se aproximar do parceiro de Ferrari para tentar um ataque. 

A liderança de Barrichello não foi ameaçada nem mesmo com as duas intervenções do safety car – uma causada por uma quebra de Olivier Panis, da BAR, e outra pelo assustador acidente entre Nick Heidfeld e Takuma Sato.

Na medida em que a corrida se aproximava do fim, o mundo começava a questionar se Barrichello de fato venceria a prova ou se a Ferrari iria intervir com ordens de equipe. A dúvida existia principalmente devido ao episódio do GP da Áustria de 2001, quando Barrichello cedeu o segundo lugar a Schumacher nos metros finais de prova.

Só que, em 2001, o alemão ainda tinha certa ameaça de David Coulthard no campeonato, já que o escocês da McLaren vinha apenas quatro pontos atrás. Em 2002, Schumacher tinha quase o dobro de pontos do rival mais próximo, Juan Pablo Montoya, da Williams. 

Para a surpresa de alguns, o cenário se repetiu. Barrichello deixou novamente Schumacher passar nos metros finais da prova, o que deu ao alemão sua quinta vitória em 2002.

Logo de cara a torcida começou a expressar seu sentimento de insatisfação pelo desfecho da corrida. Os pilotos da Ferrari foram vaiados quando desceram do carro, na coletiva de imprensa e no pódio, sendo que Schumacher, constrangido, colocou Barrichello no primeiro lugar e deu ao brasileiro o troféu da vitória.

Rubinho se justificou ao dizer que, mesmo contrariado, precisava cumprir as ordens, já que havia acabado de assinar um novo contrato com a Ferrari. Schumacher comentou que só ficou sabendo do que se passava nos metros finais, mas que, pensando de cabeça fria, aquilo não deveria ter acontecido. 

Já a chefia da Ferrari, especialmente Jean Todt e Ross Brawn, reconheceu que Barrichello foi o vencedor moral na Áustria, mas que, mesmo com as vaias, faria tudo de novo. A equipe citou três anos anteriores (1997, 1998 e 1999) em que seus pilotos perderam o título por uma pequena margem, então ela queria garantir que isso não aconteceria novamente em 2002. 

Desdobramentos negativos

Quebra de protocolo no pódio rendeu multa à Ferrari (Foto: Ferrari)

A repercussão geral do episódio não foi nada boa. A imprensa do mundo inteiro condenou de forma contundente as atitudes da Ferrari, questionando se de fato toda a polêmica foi necessária e se aquilo não feria o espírito esportivo da F1.

“A F1 é a perdedora”, disse o jornal inglês The Telegraph. “A Ferrari arruinou tudo” e “a Ferrari está vermelha de vergonha”, estamparam, respectivamente, os italianos do jornal La Gazzetta dello Sport e os brasileiros d’O Globo. Já a publicação alemã Bild questionou a necessidade de tudo aquilo: “Schumi, você precisava disso?”, levantou. 

Até o então presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, deu sua opinião sobre a polêmica. “Hoje, todo o Brasil é unânime: Rubens Barrichello foi o vencedor do GP da Áustria. A taça é dele”, observou. 

A FIA ficou incomodada com os acontecimentos e prometeu analisar o caso a fundo, sem descartar a possibilidade de punir os envolvidos. O julgamento com o veredito aconteceria pouco mais de um mês depois, em junho.

No dia 26 de junho, a FIA decidiu aplicar à Ferrari uma multa de US$ 1 milhão, mas com metade do valor em efeito suspensivo. Ou seja, US$ 500 mil seriam pagos no ato, e os US$ 500 mil restantes só seriam cobrados caso houvesse outro episódio do tipo em um intervalo de 12 meses (o que não aconteceu). 

Porém, a multa existiu não por conta da ordem de equipe, e sim pela quebra de protocolo no pódio – já que Schumacher colocou Rubinho no degrau mais alto e deu ao brasileiro a taça de vencedor. 

Segundo a FIA, “é dever da equipe garantir que seus pilotos não envergonhem as autoridades nacionais do país sede do GP”. Lembrando que quem entregou o troféu que foi desprezado por Schumacher foi ninguém menos que Wolfgang Schussel, então chanceler da Áustria. 

Os efeitos no campeonato

Schumacher foi campeão com grande antecipação em 2002 (Foto: Ferrari)

Por mais que Jean Todt e Ross Brawn tenham garantido que a Ferrari tomaria as mesmas atitudes da Áustria novamente, na prática não foi bem assim. No GP da Europa, em junho, Barrichello assumiu a ponta e liderou a prova com Schumacher logo atrás, e conseguiu cruzar a linha de chegada em primeiro para vencer pela segunda vez na F1. 

A Ferrari explicou a mudança de mentalidade e disse que, no fim das contas, “aprendeu muitas coisas” com o episódio da Áustria. 

Para confirmar que os pontos obtidos a mais em Spielberg não fariam diferença na luta pelo título, Schumacher se sagrou pentacampeão no GP da França, em julho, na 11ª de 17 corridas da temporada. Nunca algum outro piloto conquistou o título tão cedo na F1, com apenas 64% da temporada concluída.

Em outubro, no GP dos Estados Unidos, Schumacher retribuiu o favor e, quando tentou cruzar a linha de chegada lado a lado com Barrichello, cedeu a vitória ao parceiro nos metros finais. Naquela ocasião, Barrichello garantiu pela primeira vez um vice-campeonato na F1. 

Mudanças nas regras

Como as ordens de equipe foram um assunto em alta durante a temporada de 2002, a FIA decidiu fazer algo a respeito. Muitas soluções foram cogitadas, sendo que a entidade até pediu sugestões dos fãs por e-mail para saber o que fazer. No fim, a FIA decidiu apenas proibir ordens de equipe a partir de 2003. 

É por isso que algumas ordens que aconteceram depois disso foram dadas de maneira velada, com palavras indiretas. Uma delas foi dada no famoso GP da Alemanha de 2010, quando a Ferrari disse a Felipe Massa que “Fernando [Alonso] está mais rápido” que ele para fazer o brasileiro ceder passagem. Isso escancarou o fato de que a proibição das ordens não impedia as equipes de aplicá-las do mesmo jeito. Então, as ordens de equipe voltaram a ser permitidas sem restrições em 2011. 

Apesar do episódio, Barrichello permaneceu na Ferrari por mais algum tempo e ainda teve uma outra uma renovação de seu contrato com a equipe – ele assinou no começo de 2004, válido até o fim de 2006. Mas este contrato não foi cumprido em sua totalidade, já que ele deixou a Ferrari ao término de 2005 para se juntar à Honda.

O GP da Áustria de 2002 foi um dos momentos mais marcantes e controversos da passagem de Barrichello pela Ferrari. E como o episódio se deu antes de as conversas pelo rádio serem disponibilizadas para a transmissão de TV, até hoje não se sabe publicamente qual foi o teor das palavras da Ferrari a Barrichello naquele dia – e isso até já deu margem para que se criasse um folclore ao redor da história. 

LEIA TAMBÉM: Ferrari fez trapalhada maior do que se pensava na Áustria-2002

Barrichello, que está com o troféu de vencedor na Áustria até hoje, diz que tem guardada toda a transcrição da conversa, mas que irá revelar os detalhes somente quando lançar seu livro – e isso ainda não tem previsão para acontecer.

Conheça o episódio em detalhes no quadro “F1 em 5 Minutos”:


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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de edições das 24 Horas de Le Mans e provas de categorias como Indy e WTCC.