Pódio mais jovem da história escancara precocidade generalizada na F1

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Mais do que ser uma corrida caótica que deixou o público em pé, o GP do Brasil de 2019 serviu para estabelecer um novo recorde para a F1: a prova teve o pódio com menor média de idade da história, formado pelos jovens Max Verstappen, Pierre Gasly e Carlos Sainz. 

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A combinação dos três primeiros em Interlagos foi inesperada, fruto da prova maluca sobretudo em suas voltas finais – isso fez com que dois pilotos estourassem a champanhe pela primeira vez em suas carreiras na F1. No entanto, o estabelecimento do recorde simboliza uma precocidade generalizada que vem tomando conta da categoria em sua era moderna. 

Quais são os cinco pódios mais jovens da história (até o momento) e o que isso mostra sobre o desenvolvimento da categoria? Faremos a recordação neste artigo, bem como uma análise sobre o significado dos números. Já adiantamos: o perfil da F1 já mudou, e talvez de uma forma definitiva.

1 – GP do Brasil de 2019

Top 3: Max Verstappen, Pierre Gasly e Carlos Sainz
Média de idade: 23 anos, 8 meses e 13 dias

(McLaren)

O fim de semana em Interlagos foi dominado por Max Verstappen, que fez a pole, liderou a maioria da prova e venceu de forma categórica. A presença do holandês no posto de protagonista não é novidade, uma vez que ele já detinha uma série de recordes de precocidade na F1 (é o mais jovem a largar e vencer na categoria). Um indicativo disso é que ele, aos 22 anos, 1 mês e 18 dias, já chegou à sua oitava vitória. 

Para triunfar no Brasil, Verstappen precisou se sobressair no duelo contra Lewis Hamilton, hexacampeão mundial e terceiro piloto mais velho do atual grid. Só que, no “toma lá, dá cá” tático entre Red Bull e Mercedes, Hamilton tentou levar vantagem ao colocar pneus novos na fase derradeira de corrida, e isso o colocou em uma posição vulnerável. 

Nos giros finais, Hamilton precisava ultrapassar Pierre Gasly, da Toro Rosso, e Alexander Albon, da Red Bull, para reaver o segundo lugar e tentar algo contra Verstappen. A manobra sobre o primeiro deu certo, mas a tentativa sobre o anglo-tailandês não teve o mesmo resultado – e Hamilton, mesmo terminando em terceiro na prova, acabou punido por provocar um toque no Bico de Pato. 

Assim, Interlagos consagrou Gasly e Carlos Sainz, que, assim, chegam ao seu primeiro pódio na F1. E o recorde de precocidade não é fruto de uma combinação maluca que veio do acaso, já que outros pilotos de pouca idade, como Albon ou até mesmo Charles Leclerc, estavam no páreo por uma posição no top 3. Ou seja, por mais que o pódio em si tenha representado um resultado inesperado, ele acabou consagrando uma precocidade que já está espalhada no pelotão da frente.

2 – GP da Itália de 2008

Top 3: Sebastian Vettel, Heikki Kovalainen e Robert Kubica
Média de idade: 23 anos, 11 meses e 16 dias

(BMW)

Na movimentada temporada de 2008, a F1 ainda passava por uma troca de guarda. Michael Schumacher havia se aposentado pouco antes, e nomes como Fernando Alonso, Kimi Raikkonen, Lewis Hamilton e Felipe Massa tentavam assumir o posto de protagonista que estava vago. 

Aliás, toda uma geração de pilotos nascidos nos anos 1980 começava a chegar à F1, incluindo Robert Kubica e Heikki Kovalainen, que inclusive obtiveram suas únicas vitórias na categoria justamente na temporada de 2008. 

Porém, em Monza, um resultado atípico possibilitou a quebra do recorde de pódio mais jovem da história. Sebastian Vettel, que fazia sua primeira temporada completa na F1, se destacou na chuva para dominar o fim de semana inteiro. Ali, aos 21 anos e 2 meses e vida, ele se tornava o mais jovem a fazer uma pole, vencer e até a subir no pódio.

Em um evento estranho para os protagonistas da luta pelo título, coube a Kovalainen e Kubica completarem o pódio. O finlandês já tinha seus 26 anos e 10 meses de idade, mas a juventude do polonês e sobretudo de Vettel puxaram a média para baixo e possibilitou o estabelecimento do recorde que durou por 11 anos.

3 – GP da Áustria de 2019

Top 3: Max Verstappen, Charles Leclerc e Valtteri Bottas
Média de idade: 24 anos, 5 meses e 6 dias

(Red Bull Content Pool)

Mais um pódio de 2019 na lista, e mais um evento com vitória de Verstappen. Desta vez, o holandês precisou suar para bater Charles Leclerc, seu antigo rival no kart e que chegou ao pelotão da frente da F1 de forma rápida, sendo o segundo piloto mais jovem da história a competir pela Ferrari. 

Leclerc fez a pole na Áustria, liderou boa parte das ações e dava pinta de que venceria com autoridade pela primeira vez na F1. Enquanto isso, Verstappen fez uma largada ruim, chegou a cair para oitavo e precisou remar até se colocar em uma posição promissora nas voltas finais. 

Verstappen, então, conseguiu caçar Leclerc e fazer uma ultrapassagem que deu o que falar na volta 69, de 71 no total. Muito se discutiu sobre a manobra decisiva, o que incluiu um longo processo de deliberação dos comissários de prova para decidir se a vitória permaneceria com Verstappen. O veredito foi dado e o holandês foi confirmado na primeira posição. 

Verstappen e Leclerc são praticamente contemporâneos e tinham, à época do GP da Áustria de 2019, 21 anos e 8 meses de idade. A média do pódio foi jogada para o alto com o terceiro lugar de Valtteri Bottas, um “quase trintão” com 29 anos e 10 meses de idade.

4 – GP da Alemanha de 2008

Top 3: Lewis Hamilton, Nelsinho Piquet e Felipe Massa
Média de idade: 24 anos, 7 meses e 1 dia

(Daimler/Mercedes)

Como já citamos no segundo tópico desta lista, 2008 era uma temporada de mudança de gerações – e, mais uma vez, um resultado inesperado ajudou a prova de Hockenheim a ocupar um lugar no top 5. 

Neste caso, as ações foram dominadas por Hamilton e Massa, os protagonistas daquela temporada. No entanto, um acidente de Timo Glock na fase intermediária da corrida provocou a entrada do safety car e possibilitou que Nelsinho Piquet, que havia largado do fundo do pelotão, pintasse na liderança graças a um pitstop feito na hora certa. 

Na retomada das ações, o brasileiro da Renault ocupava a primeira posição, sem precisar fazer um novo pitstop. Hamilton, que estava em dia inspirado, escalou o pelotão e retomou a ponta, mas Nelsinho resistiu às investidas de Massa para terminar em segundo.

Aquele seria o único pódio de Nelsinho na F1, aos 22 anos, 11 meses e 25 dias. Dois meses mais tarde, seria realizado o primeiro GP de Singapura de F1, corrida que mudaria para sempre os rumos da carreira do brasileiro

5 – GP da Hungria de 2003

Top 3: Fernando Alonso, Kimi Raikkonen e Juan Pablo Montoya
Média de idade: 24 anos, 7 meses e 13 dias

(McLaren)

Novamente um pódio jovem que veio em uma fase de troca de guarda – e, por que não, num momento em que a F1 voltava a ter um fôlego novo. Com a decadência e aposentadoria de Mika Hakkinen, nomes como David Coulthard, Juan Pablo Montoya, Ralf Schumacher e Rubens Barrichello não conseguiam fazer grande resistência ao domínio de Michael Schumacher. Isso resultou em títulos tranquilos para o alemão em 2001 e 2002.  

Uma nova geração começava a mostrar força em 2003. Kimi Raikkonen, em sua segunda temporada na McLaren, encontrou ritmo e consistência para se colocar forte na luta pelo título. Já na Renault, Fernando Alonso fazia sua primeira temporada com um carro competitivo e já começava a incomodar – em março, o espanhol fez a pole do GP da Malásia e se tornou o mais jovem a obter o feito. 

Alonso repetiu a dose na Hungria, desta vez com direito a liderança do começo ao fim, e transformando Schumacher em retardatário. O espanhol se tornava o mais precoce a vencer na F1, aos 22 anos e 26 dias. Raikkonen, com 23 anos e 10 meses de idade, veio a seguir. Quem completou o pódio foi Montoya, com 27 anos e 11 meses. 

A prova de Budapeste foi um indício mais claro da precocidade que dominaria a F1 no começo do século. Em 2005, Alonso conquistaria seu primeiro título mundial, batendo o recorde de longa data de Emerson Fittipaldi – campeão aos 25 anos e 8 meses de idade em 1972.

O que isso nos mostra? 

Os números apresentados aqui não são apenas dados de curiosidade, mas sim a demonstração na prática de um automobilismo cada vez mais precoce. Todos os cinco pódios mais jovens da história aconteceram de 16 anos para cá.

Se forem analisados números de épocas mais distantes, o pódio de menor idade dos anos 1990 ocupa somente o 25º lugar na lista – Europa-1996, com os 25 anos, 9 meses e 25 dias de Jacques Villeneuve, Michael Schumacher e David Coulthard. Já a década de 1980 não conta com  nenhum pódio entre os 50 mais jovens da história.

Isso é resultado de tendências já apresentadas aqui no Projeto Motor – como um kart fortalecido e difundido, além de uma profissionalização intensa desde os primeiros anos nas competições. Assim, os pilotos chegam à F1 jovens, experientes e preparados para o protagonismo desde muito cedo.  

Alguns recordes que duravam por muito tempo foram evaporados recentemente. Emerson Fittipaldi se manteve como o campeão mais jovem da história após a conquista de 1972, mas a marca foi batida repetidamente nas duas últimas décadas – por Fernando Alonso, Lewis Hamilton e Sebastian Vettel. 

Bruce McLaren venceu pela primeira vez na F1 em 1959, aos 22 anos e 3 meses, e se manteve em destaque na estatística de precocidade. De 2003 para cá, Alonso, Vettel, Charles Leclerc e Max Verstappen já bateram a marca. 

A F1, portanto, vem se tornando mais do que nunca o território dos jovens. A mudança de cenário já está clara: não se trata mais da categoria que “separa os homens dos meninos”, pois os meninos já são os donos do pedaço.


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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.