Quatro Rodas
Lewis Hamilton, no GP da Espanha de 2020

A tática de Hamilton para fugir dos problemas de pneus na Espanha

Durante a semana anterior ao GP da Espanha, falou-se muito do calor esperado para o final de semana da corrida e que isso poderia ser um problema para a Mercedes. O diagnóstico era feito basicamente em cima da corrida difícil que os pilotos da equipe tiveram em Silverstone, no domingo anterior, em que acabaram superados por Max Verstappen, da Red Bull.

E não era para menos. Se no GP do 70º Aniversário, a F1 já encarou uma elevação da temperatura em relação às etapas anteriores, para a prova em Barcelona era esperado, como realmente foi, temperatura acima dos 30°C.

Por mais que as equipes estejam acostumadas com a pista, eles dificilmente a enfrentam dentro deste cenário. Isso acontece porque a F1 visita o Circuito da Catalunha na pré-temporada, no final do inverno espanhol, e o GP da Espanha é realizado normalmente em maio, na metade da primavera. Desta vez, por conta da readequação do calendário imposta pela pandemia, a categoria foi para Barcelona em pleno verão.

Só que existiram algumas diferenças grandes entre as etapas inglesas e a da Espanha. Para começar, a antecipação. Após ter estouros de pneus no GP da Grã-Bretanha e bolhas prematuras no do 70º Aniversário, a Mercedes fez o dever de casa e estudou a melhor forma de enfrentar o desafio. Os integrantes da equipe sabiam que não poderiam permitir um crescimento no campeonato da Red Bull e com novas provas sob forte calor no horizonte, precisavam resolver o problema.

Além disso, a Pirelli levou para a corrida em Barcelona os seus três compostos mais duros (algo que já estava previsto antes mesmo das corridas em Silverstone), diminuindo as chances de falhas nos pneus. E qual foi a estratégia que mudou o cenário para Lewis Hamilton conquistar uma vitória tão dominante na Espanha? Um plano de ritmo de corrida que o inglês cumpriu à risca e vantagem de posição de pista durante toda a prova.

O ritmo de Hamilton na Espanha

Hamilton pulou na liderança na largada e durante as dez primeiras voltas andou devagar, economizando ao máximo seus pneus macios, que eram a principal preocupação para a corrida. O inglês sabia que para não ter problemas nos trechos mais à frente, ele precisava fazer com que estes compostos durassem pelo menos o primeiro terço da corrida de 66 de voltas.

Hamilton comandou o ritmo do GP da Espanha
Hamilton comandou o ritmo do GP da Espanha (Foto: LAT Images/Pirelli)

O piloto da Mercedes andou durante as nove primeiras voltas na casa de 1min24s. Nem mesmo ligou para diferença em relação ao seu seguidor. Em certo momento, a Red Bull chegou a avisar Max Verstappen pelo rádio que ele estava se aproximando de Hamilton, mas o holandês logo percebeu a estratégia: “Mas é que ele está andando super lento!”, exclamou.

O espaço de tempo entre eles variou neste estágio da corrida entre 1s2 e 1s6, o que poderia ser considerado uma ameaça ou pressão. Mas estava tudo sob controle. Por quê? Porque Hamilton sabia o que estava fazendo. O Circuito da Catalunha não é dos mais fáceis para uma ultrapassagem. O piloto de trás precisa entrar na reta dos boxes próximo, mesmo com a ajuda da asa móvel.

Durante os treinos livres, Hamilton acertou seu carro para ter um bom terceiro setor. Assim, ele economizava pneus nas curvas no miolo, principalmente nas de raio longo que proporcionam grandes forças laterais, e no último trecho do circuito, colocava uma distância segura para Verstappen antes da reta e evitava um ataque.

Depois das voltas iniciais, com o desgaste dos pneus macios sob controle, Hamilton percebeu que poderia começar a aumentar o ritmo e mesmo assim chegar à sua meta de volta para o pit stop. Assim, ele baixou seu tempo de volta na volta 10 para 1min23s6, meio segundo melhor do que qualquer giro que tinha feito até então. E seguiu com uma sequência de quatro melhores voltas da corrida até a 13ª passagem, quando marcou 1min22s7.

Gráficos de desempenho de Hamilton no primeiro trecho do GP da Espanha
À esquerda, gráfico mostra evolução do tempo de volta de Hamilton (quanto mais baixo, mais rápido). À direita, diferença entre o inglês e Verstappen nas primeiras 22 voltas

Neste momento, a vantagem para Verstappen subiu de 1s6 para 3s2. E continuou com essa evolução. Hamilton seguiu com voltas sempre em 1min23s baixo e chegou na 20 a abrir 7s1 para o holandês, o que o deixou em uma posição confortável para evitar um undercut ou reviravolta no box. Em Silverstone, quando justamente conseguiu assumir a liderança, foi quando a Red Bull passou a mandar no ritmo da corrida e isso era tudo que Hamilton e a Mercedes não queriam na Espanha.

Reprise no segundo trecho

Verstappen fez sua primeira parada na volta 21 enquanto Hamilton, na 23. Esse intervalo de duas voltas, mais um pit stop consideravelmente mais eficiente da Red Bull (1s8!) fez a diferença entre eles cair para 4s2, mas com o inglês em uma posição bastante confortável. E agora, eles estavam com compostos médios, com os quais a Mercedes se encaixava melhor.

Hamilton começou o stint com a mesma estratégia de controle de ritmo, desta vez andando em 1min23s baixo nas oito primeiras voltas dos novos pneus. A vantagem para Verstappen caiu para 3s4 na volta 30. Só que a partir da 34ª passagem, o hexacampeão voltou a baixar o ritmo para a casa de 1min22s e aí começou a despachar o rival.

Verstappen parou de novo na volta 41, quando a desvantagem já estava em 13s6. Neste ponto, pode-se dizer que a corrida estava praticamente perdida para o holandês e ele passou a se preocupar mais com a manutenção da segunda posição do que com a vitória.

Para piorar a situação da Red Bull, Hamilton mostrou que o degaste de seus compostos estava bem controlado. Ele seguiu na pista mantendo praticamente o mesmo ritmo de Verstappen, que estava com pneus novos. Ele fez seu pit confortavelmente apenas na volta 50, sendo que no giro anterior cravou sua melhor volta na corrida, com 1min21s954.

Vantagem de Hamilton para Verstappen entre a primeira e segunda paradas do inglês

Quando voltou da segunda parada, ele estava 12s à frente e com compostos mais novos. Aí, foi só seguir com o passeio para terminar com 24s1 de vantagem na bandeira quadriculada e com borracha sobrando, como ele mesmo disse.

Por que Bottas não conseguiu repetir Hamilton na Espanha

A corrida de Bottas foi bem mais problemática do que a de Hamilton por um motivo bastante simples: a largada. Ao sair mal ao apagar das luzes vermelhas e cair de segundo para quarto na primeira curva, Bottas perdeu algo muito importante na F1 atual, principalmente em circuitos como o de Barcelona: posição de pista.

A contrário de Hamilton, Bottas não podia controlar seu ritmo, pois precisava recuperar terreno. Ele ficou cinco voltas atrás de Lance Stroll até conseguir fazer a ultrapassagem e depois passou a seguir Max Verstappen. Ele chegou a diminuir a desvantagem para o holandês, mas, como já dissemos, ultrapassar um carro com ritmo parecido no Circuito da Catalunha não é fácil.

Bottas largou mal e comprometeu sua corrida na Espanha
Bottas largou mal e comprometeu sua corrida na Espanha (Foto: Pirelli)

Com o bom pit da Red Bull na volta 21, a Mercedes até arriscou uma parada dupla na 23 para Bottas não perder mais terreno, mas ele continuar atrás de Verstappen no segundo trecho foi extremamente prejudicial.

Na segunda parada, a Mercedes ainda optou em colocar pneus macios no carro do finlandês, algo que se mostrou um erro. Tanto que uma volta depois, quando foi informado da escolha, Hamilton rejeitou a opção e pediu para seguir com os médios para o trecho final de corrida na Espanha.

A decisão do inglês foi acertada ao vermos que o ritmo de Bottas foi ruim nesta parte da prova e ele em momento algum chegou a se aproximar de Verstappen. A duas voltas do final, ele fez um terceiro pit para colocar um novo jogo de médios e fazer a melhor da corrida.

Conclusão do GP da Espanha

Calor é sim algo que pode ferir o desempenho da Mercedes, mas os adversários não podem esperar que as coisas cairão do céu. Ainda mais no caso de Hamilton. O time alemão já mostrou no passado que além de fazer carro e motor bons, sabe evoluir seu modelo durante a temporada e ainda administra bem as corridas e finais de semana.

Existirão novas chances nestas condições, porém, a Red Bull precisará forçar mais o ritmo. Como a Mercedes tem um carro praticamente imbatível na classificação, que invariavelmente colocará seus pilotos na frente no primeiro trecho das corridas, a equipe austríaca precisa fazer bons começos de prova para tomar a posição de pista logo na primeira parada e assim passar a dominar o ritmo de corrida.

O fato do Circuito da Catalunha não permitir ultrapassagens, como a que Verstappen fez em Bottas em Silverstone, deixou Hamilton e a Mercedes em uma posição confortável para administrar a prova. Isso pode não se repetir em outras pistas como Monza, em que também existe a expectativa de muito calor.

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