Saída de Helmut Marko marca fim de primeira era da Red Bull
A Red Bull anunciou na última terça-feira (10) que Helmut Marko deixará de ser consultor da empresa para automobilismo, cargo que o ex-piloto austríaco ocupava desde 2001.
Desta forma, a Red Bull fecha uma fase em que passou por profundas mudanças estruturais, incluindo o desligamento dos três principais nomes de sua operação: Marko, Christian Horner e Adrian Newey.
Com esses três trabalhando juntos nas últimas duas décadas, a equipe venceu oito títulos de pilotos (quatro com Sebastian Vettel e quatro com Max Verstappen) e seis de construtores.
Marko foi o primeiro a chegar ao projeto e o principal conselheiro do dono da Red Bull, Dietrich Mateschitz, que morreu em 2022. Cada passo da empresa no automobilismo teve o dedo, ou pelo menos alguma sugestão, dele.
Entre suas funções, sempre esteve a de manter o controle das decisões mais próximas da empresa da Red Bull, não permitindo que a operação de F1 se tornasse totalmente independente.
Antes de ser dirigente, Helmut Marko foi piloto nos anos 60 e 70, chegando até mesmo à F1. Mas ele precisou se aposentar após um acidente durante o GP da França de 72.
Uma pedra de asfalto na pista de Clermont-Ferrand foi arremessada pelo carro que estava à sua frente, a Lotus de Emerson Fittipaldi, e acertou seu capacete. O objeto passou pela viseira, acertando seu olho esquerdo. Marko ficou cego deste olho para sempre.
Mas ele nunca deixou o automobilismo. Ele se tornou empresário de pilotos, entre eles, os austríacos Gerhard Berger e Karl Wendlinger, que correram na F1 entre os anos 80 e 90. Em 1989, ele fundou uma equipe de categorias de base, a RSM Marko, que competiu na F3 e na F3000.
A ligação de Marko com a Red Bull
Em 1999, a equipe de Marko fechou um patrocínio com a Red Bull e passou a competir sob o nome de Red Bull Junior Team. Essa relação foi a semente da criação do programa de formação de pilotos da marca, que passou a funcionar oficialmente em 2001, sob supervisão de Marko.
O dirigente sempre teve total confiança de Mateschitz e passou a sinalizar quais os pilotos a Red Bull deveria investir. O patrocínio cobria as despesas dos competidores nas categorias de base em equipes estruturadas e, dependendo do desempenho, até mesmo para correr na F1.
Com apoio financeiro da Red Bull, o brasileiro Enrique Bernoldi, que correu pela equipe júnior da marca em 1999 e 2000 na F3000 Internacional, chegou à F1 para competir pela Arrows em 2001 e 2002.
Dois anos depois, o austríaco Christian Klien se tornou o primeiro piloto a passar oficialmente pelo programa de formação na base a chegar ao Mundial. Ele correu pela Jaguar em 2004.
O projeto de jovens pilotos da Red Bull ganhou força rapidamente. A marca percebeu, então, que era hora de dar um passo mais ousado.
A equipe Red Bull e o sucesso do programa júnior
Helmut Marko participou de toda a concepção da equipe Red Bull e ajudou Dietrich Mateschitz nas negociações para a aquisição do time da Jaguar na F1, para transformar a operação britânica (que, na época, estava sob a propriedade da Ford) na Red Bull Racing a partir de 2005.
Foi ele também que indicou a contratação do chefe da equipe, Christian Horner, que era proprietário de uma equipe na F3000, a Arden, e que vinha trabalhando em um projeto para tentar subir para a F1. Um ano depois, Newey, campeão como projetista por Williams e McLaren, foi contratado.

Enquanto o inglês comandava a operação do novo time, Marko, além de supervisionar o trabalho da equipe, tinha maior foco no programa de formação de pilotos.
Em 2006, a Red Bull comprou a Minardi, equipe italiana que se arrastava no fim do grid, para criar um time B na F1. Assim, a empresa criaria um caminho claro para seus pilotos da base, que poderiam ser testados já na F1 na Toro Rosso (Touro Vermelho, em italiano, ou “Red Bull”) antes de serem promovidos para a esquadra principal.
Com esse investimento jamais visto na F1, o programa de formação da Red Bull se tornou o mais bem-sucedido da história da categoria. Sob o comando de Marko, o projeto levou 18 pilotos à F1 nos últimos 21 anos, incluindo os campeões mundiais Vettel e Verstappen.
Muitos deles conseguiram seguir suas carreiras mesmo após saírem do programa, o que evidencia o potencial dos pilotos formados pela empresa. Para ter uma ideia, dos 20 pilotos do grid de 2025 da F1, sete (35%) chegaram ao Mundial pelas mãos de Marko e da Red Bull: Verstappen, Yuki Tsunoda, Isack Hadjar, Liam Lawson, Pierre Gasly, Alex Albon e Carlos Sainz.
Críticas a Marko pela forma de condução
Apesar do sucesso da equipe Red Bull e do programa de formação da empresa, Helmut Marko sempre recebeu muitas críticas pela forma como conduzia o projeto com pilotos jovens.
Para começar, o austríaco não poupava seus aprendizes de julgamentos e opiniões duras em público. Não foram poucas as vezes em que ele depreciou a atuação de representantes das equipes ou do programa da empresa.
Para muitos, isso, de certa forma, colocava uma pressão extra desnecessária nos pilotos, ainda mais se tratando de jovens que normalmente tinham pouca experiência e ainda lutavam por um espaço na F1.
Além disso, principalmente a partir de 2019, aconteceram promoções e rebaixamentos entre as equipes principal e B da Red Bull na F1 de forma bastante acelerada. Muitas vezes, os pilotos sequer conseguiam terminar uma temporada completada no time principal antes de serem trocados.
Em 2025, Lawson, promovido da AlphaTauri no começo do ano, perdeu a vaga na Red Bull após apenas duas corridas. Assim, ele retornou ao time B para o restante do ano. Seu substituto, Yuki Tsunoda, até terminou a temporada na Red Bull, mas já perdeu a vaga para o ano que vem para Isack Hadjar, que também vem na equipe B (agora chamada de Racing Bull ou RB).
Marko, no entanto, nunca mostrou qualquer tendência de mudança de comportamento e alega que outras equipes da F1 dão ainda menos chances aos seus jovens pilotos. Ele lembra que muitos dos times concorrentes sequer promovem seus protegidos ao Mundial, ao contrário da Red Bull.
A saída da Red Bull
Aos 82 anos, Marko agora sai da Red Bull de forma ligeiramente inesperada, já que ele ainda tinha contrato vigente com a marca até 2028. A questão é política, já que a Red Bull vem fazendo mudanças em sua operação de F1 desde a morte do antigo proprietário da empresa, Mateschitz.
Em 2024, após um escândalo de assédio sexual envolvendo Christian Horner, o chefe da equipe, que deixou o clima interno bastante pesado, o projetista multicampeão da equipe, Adrian Newey, resolveu deixar o time. Ele assinou com a Aston Martin a princípio para ser o diretor técnico, porém, recentemente foi anunciado como novo chefe da equipe.
Depois de meses de uma intensa luta pelo poder contra os novos executivos da Red Bull, Horner acabou sendo demitido da equipe em julho de 2025. Seu destino ainda é incerto.
Marko também não vinha tão alinhado às novas filosofias implantadas pela empresa Red Bull. Ele recebia cada vez mais críticas por suas últimas decisões no programa júnior e na gestão das carreiras dos pilotos.
Os executivos da companhia passaram a frequentar cada vez mais os autódromos e a fábrica, exigindo uma maior verticalização das decisões. Para quem até há poucos anos contava com a total confiança de Mateschitz, esse tipo de relação, mais profissional e hierárquica, não funcionou tão bem.
Sendo assim, a decisão de encerrar o contrato de Marko tornou-se iminente.
O futuro da Red Bull
Com tantas transformações, mesmo que o futuro da Red Bull não pareça estar em jogo, os próximos capítulos da equipe serão relevantes e devem contar uma nova história. A estrutura que funcionou por quase 25 anos deixou de existir por completo.
Em 2026, a equipe passa a fabricar seus próprios motores, que serão rebatizados de Ford por meio de um patrocínio da marca americana. Outra novidade bastante expressiva. O desempenho nesse primeiro ano do novo regulamento deve ser primordial para os planos do time.
Se hoje existe um ativo inquestionável na Red Bull, é Max Verstappen. É difícil saber se o piloto terá paciência para um desenvolvimento de longo prazo ou se enxerga uma possível mudança de equipe em 2027 caso as coisas não andem bem no começo dessa nova era da equipe.
É com a saída de Horner e Marko que começaremos a entender melhor quais são as aspirações e planos da nova administração da empresa Red Bull para sua operação na F1: manutenção do investimento atual e do interesse em títulos, redução da operação ou preparação para uma saída total a médio prazo.
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