(Foto: Clive Rose/Getty Images/Red Bull Content)

Como a Red Bull atraiu Adrian Newey para construir seu império na F1

Para se estabelecer como uma das grandes potências da F1 moderna, a Red Bull se apoiou em um pilar fundamental: Adrian Newey, a mente criativa por trás dos carros campeões do mundo.

No entanto, para conseguir recrutar o projetista há quase 20 anos, o time precisou de paciência, e fazer a proposta certa para roubá-lo da McLaren. E não era uma cartada qualquer, pois o inglês já era um dos nomes mais importantes da F1.

Adrian Newey se consagrou como um dos maiores gênios da história da categoria. O inglês esteve diretamente envolvido em projetos campeões na Williams, e em 97 se transferiu para a McLaren.

Na nova casa, comandou o departamento técnico que também se tornou referência, com destaque para os dois títulos mundiais de Mika Hakkinen, em 98 e 99. Sendo assim, Ron Dennis, chefe da equipe inglesa, traçou um plano secreto. Quando ele se aposentasse, queria passar as rédeas da McLaren para as mãos de Newey e de Martin Whitmarsh, na época o seu braço direito.

Mas o projetista recusou, já que não queria declarar sua fidelidade à ideia sem saber quando isso iria se concretizar. Com a negativa, a relação dos dois nunca mais foi a mesma. Newey tinha contrato com a McLaren até julho de 2002.

Nas negociações para a renovação, Dennis fez uma proposta que contava com uma redução de seu salário, apesar da contribuição de Newey para o ressurgimento da equipe. Isso, obviamente, fez o projetista se sentir desprestigiado. Foi quando novas possibilidades surgiram no horizonte.

Em 2001, a equipe Jaguar tentava ganhar seu espaço, e tinha como chefe o ex-piloto Bobby Rahal, com quem Newey havia trabalhado em seus tempos de Indy. Para fazer o seu time subir de patamar, Rahal traçou um plano ousado: contaria com o dinheiro da Ford, dona da Jaguar, para contratar Newey a peso de ouro.

A amizade com Rahal, mais a possibilidade de liderar um novo projeto, foi um atrativo e tanto. Assim, em junho de 2001, veio a notícia bombástica: a Jaguar anunciou a contratação de Adrian Newey, que seria seu novo diretor técnico a partir de agosto de 2002.

Falava-se na época que o contrato teria cinco anos de duração, com um salário em torno de US$ 5 milhões por temporada. Mas não era bem assim. Horas mais tarde, a McLaren desmentiu a notícia, e inclusive confirmou que havia renovado com Newey até julho de 2005.

As duas partes ameaçaram brigar nos tribunais pelo passe de Newey, mas, no fim, tudo se estabeleceu de “forma amigável”. No fim das contas, Newey havia assinado com a Jaguar uma carta de intenções, e não um contrato de fato, e como a McLaren igualou a proposta e melhorou as condições, Newey decidiu permanecer onde estava.

Crise na McLaren e proposta da Red Bull por Newey

Só que o bonde passou, e os tempos de sucesso da parceria haviam ficado para trás. Em 2002, o modelo MP4-17 não fez frente à poderosa Ferrari, que já estabelecia um domínio com Michael Schumacher.

Então, Newey focou em um projeto mais ousado para 2003: o MP4-18, que tinha um perfil muito mais compacto do que os outros carros da época. No entanto, o novo modelo apresentou uma série de problemas, foi reprovado mais de uma vez nos testes de impacto, e nem sequer chegou a competir.

E por coincidência ou não, dali em diante a relação de Newey com a McLaren se deteriorou de vez. Em 2004, o novo carro, que era uma evolução do problemático MP4-18, não foi nada competitivo. Diante deste cenário, Newey já estava desiludido, e não sabia o que faria depois que seu contrato expirasse.

Na altura, até se chegou a especular que a Williams, sua antiga casa, estava interessada em seu retorno. Outra possibilidade bastante ventilada era a de que o projetista se afastaria da F1 como um todo, e se dedicaria a desenhar barcos para a America’s Cup, o que era um desejo antigo.

Mas uma nova e inesperada possibilidade surgiu na mesa. No fim daquele ano, a Ford anunciou sua retirada da F1, e vendeu a equipe Jaguar para a Red Bull, que enfim teria sua equipe própria. A nova Red Bull Racing começou fazendo barulho nos bastidores, mas discreta dentro da pista, e sabia que, para se tornar protagonista, precisaria montar uma equipe bem estruturada.

Assim, Dietrich Mateschitz e seu braço-direito no automobilismo, Helmut Marko, nomearam o jovem Christian Horner como novo chefe de equipe, e recrutaram David Coulthard como seu principal piloto. Mas o grande alvo de suas investidas seria justamente Adrian Newey, o objeto de desejo da Red Bull para comandar o seu departamento técnico – e para concretizar o plano que sua antecessora Jaguar não conseguiu.

A estratégia da Red Bull era cortejar Newey até o acordo. No fim de semana do GP de Mônaco, Horner convidou o projetista para assistir à pré-estreia do novo filme de Star Wars, que patrocinou os carros da Red Bull naquele fim de semana. Já em Silverstone, foi Marko que abordou Newey, querendo convidá-lo para uma conversa mais detalhada.

Àquela altura, desgostoso com a McLaren e procurando novos desafios, Newey passou a olhar com interesse para a Red Bull. Seria a chance de se envolver com um novo time praticamente desde o início, trabalhando gradativamente até que a estrutura se tornasse vencedora – algo que não pôde desenvolver totalmente com as já campeãs Williams e McLaren.

Coulthard, parceiro de Newey de longa data, também participou das investidas, garantindo ao colega que a Red Bull levava o desafio da F1 à sério, e que estava determinada não medir esforços para se tornar uma potência.

Então, Newey foi ao famoso Hangar 7, em Salzburgo, na Áustria, para se encontrar com Mateschitz em uma reunião secreta. Porém, as conversas ficaram tensas no momento em que o tema “salário” veio à tona. Foi quando o estafe da Red Bull contactou o ex-piloto Gerhard Berger para pedir conselhos.

Perguntado sobre o quanto valia o salário de Newey, Berger disse: “Depende o quanto que vale ganhar 1s por volta”. Era o que a Red Bull precisava ouvir. Assim, as duas partes entraram em um acordo. No encerramento da temporada, no GP da China, Newey comunicou à McLaren que deixaria o time, e como relatou em seu livro, acabou sendo expulso das dependências do time em Xangai depois de dar a notícia a Ron Dennis.

Mas a decisão já tinha sido tomada: a partir de 2006, Adrian Newey comandaria o departamento técnico da emergente Red Bull Racing. Foi uma notícia que gerou muita desconfiança no paddock da F1.

Ron Dennis dizia que Newey decidiu sair porque queria um trabalho mais tranquilo e sem pressão. Já Flavio Briatore, então chefe da campeã mundial Renault, apostava que Newey não ganharia nada em seu novo time. Mas não foi bem assim.

Novo projeto de longo prazo na Red Bull

As coisas demoraram um pouco a engrenar, já que, sob pedido de Newey, a Red Bull investiu pesado para desenvolver um novo câmbio e para trabalhar em seu simulador, além de ter reformulado o departamento técnico do time.

Helmut Marko, Sebastian Vettel, Adrian Newey, Christian Horner celebram o primeiro título da Red Bull na F1, em 2010 (Foto: Paul Gilham/Getty Images / Red Bull Content)
Helmut Marko, Sebastian Vettel, Adrian Newey, Christian Horner celebram o primeiro título da Red Bull na F1, em 2010 (Foto: Paul Gilham/Getty Images / Red Bull Content)

O primeiro modelo assinado por Newey na nova casa foi o RB3, de 2007, que pecava pela falta de confiabilidade. Quando o regulamento passou por uma drástica mudança, em 2009, a Red Bull aproveitou para crescer, venceu suas primeiras corridas e esteve na luta pelo título.

Em 2010, foram mais nove vitórias, e o campeonato do mundo com Sebastian Vettel no GP de Abu Dhabi. A Red Bull havia concretizado o sonho e se tornado uma potência da F1. Vettel emendou quatro títulos seguidos entre 2010 e 2013.

Em 2014, Newey recebeu propostas atrativas de Mercedes e principalmente Ferrari, que apostou pesado em dinheiro e estrutura para atraí-lo. Mas nada feito. No fim das contas, Newey permaneceu vinculado à Red Bull, e foi peça chave para que Max Verstappen iniciasse sua própria hegemonia, coroando a cereja do bolo de uma trajetória tão vitoriosa.

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