Christian Horner é chefe da Red Bull desde a entrada da equipe na F1, em 2005
(Foto: Getty Images / Red Bull Content Pool)

Christian Horner: do sonho de pilotar na F1 à glória no pitwall da Red Bull

A Red Bull é uma potência da F1 há mais de uma década. Já entrou para a história como uma das equipes mais vitoriosas tanto em conqiustas de corridas como de campeonatos. E desde sua entrada no Mundial, a operação na categoria é liderada por um mesmo homem: Christian Horner.

Ao estudar a jornada de Horner, é difícil acreditar que ele tenha apenas 48 anos de idade. Sua carreira é recheada de grandes projetos, muitos triunfos, e alguns poucos fracassos. Mas existe uma característica muito marcante que é possível observar em sua trajetória: a obstinação e confiança.

Ele nasceu em uma família que não tinha muito contato com automobilismo, porém, era bastante inserada no setor automotivo. Seu avô trabalhou na montadora inglesa Standard Motor Company e seu pai fundou uma empresa de assessórios e componentes para carros, sediada na região central da Inglaterra.

A paixão por automóveis acabou pegando Horner ainda criança. E ele levou esse sentimento para a pista, começando a correr de kart. Com bons resultados, ele ganhou uma bolsa para competir na F-Renault Britânica em 1992, aos 19 anos. E não decepcionou. Correndo pela tradicional equipe Manor, ele ficou em quarto no campeonato, em temporada que foi vencida pelo espanhol Pedro de la Rosa, futuro piloto de F1.

Horner subiu em 1993 para a F3 Britânica. Primeiro, passou pela classe B, onde venceu cinco corridas e terminou em segundo na classificação geral. Depois, ficou duas temporadas na classe A, na qual não se deu tão bem. Sem resultados tão expressivos, ele resolveu apostar tudo em uma nova empreitada.

Arden International: a grande aposta de Horner

Horner se viu em uma situação que não tinha um patrocínio ou orçamento para subir para a F3000 em uma equipe de ponta. Na época, a categoria era o último passo antes da F1, ocupando o espaço que hoje é da F2. Ele sabia que para chegar ao seu sonho de um dia alcançar a F1, ele não poderia ficar andando do meio do pelotão para trás na categoria, ainda mais considerando que já não tinha grandes resultados para mostrar da F3.

Foi então que ele teve a ideia de fazer o famoso all in do pôquer e criar sua própria equipe para 1997. “Decidi que se eu pudesse comprar e correr eu mesmo um carro da F3000, pelo menos no final da temporada, eu ainda teria um carro e algo para mostrar”, disse Horner, em uma entrevista à revista Motorsport, em 2012.

“Eu vendi tudo que eu tinha. Peguei emprestado o quanto eu podia do banco, do meu pai, que me ajudou na condição de um dia pagar de volta, e de onde mais que poderia pensar. Comprei um chassi. Fiz um leasing de dois motores, convenvi Roly Vincini a ser meu engenheiro de corrida, e o carro ficou em um galpão atrás da casa do Roly em Norfolk. Dei o nome para nós de Arden International. Eu era o chefe de equipe, quem buscava dinheiro, secretário, cozinheiro, lavador de pratos, preenchia toda a papelada e aborrecimentos. Como mecânico, tínhamos um rapaz que trabalhava meio período. Ele está na McLaren agora”, continuou.

Durante a montagem da equipe, Horner cruzou pela primeira vez com uma pessoa que seria figura importantíssima em sua vida profissional: Helmut Marko. Ex-piloto de F1 da década de 70, o austríaco administrava uma equipe da F3000. Horner estava procurando um trailer para poder transportar seu carro e equipamentos para as corridas e acabou comprando um de segunda mão do time de Marko.

Obviamente que a temporada foi difícil. A Arden não tinha dinheiro para quase nada. Horner ainda conseguiu marcar um pontinho com um sexto lugar na última etapa, em Jerez, que o deixou na penúltima posição no campeonato, vencido pelo brasileiro Ricardo Zonta, com o colombiano Juan Pablo Montoya de vice.

Para a temporada seguinte, ele conseguiu alinhar um segundo carro e teve como “companheiro” Kurt Mollekens. O belga mostrou um ótimo ritmo e chegou a liderar o campeonato após a terceira etapa, à frente de futuros pilotos de F1 como Stéphane Sarrazin, Montoya, Nick Heidfeld e Gastón Mazzacane. Após oito etapas, ele era o quarto na classificação geral, quando sofreu um acidente na corrida de Hockenheim que o deixou fora da etapa seguinte. Ele ainda voltaria para terminar o ano em sétimo.

Horner, por outro lado, passou em branco. E claro que suas responsabilidades como dono e chefe de equipe, precisando pensar nos custos de qualquer decisão dentro da pista, acabavam o atrapalhando quando estava dentro do cockpit. “Meu problema é que eu pensava demais sobre as consequências. Eu sabia que tinha que terminar a temporada com o carro intacto, então, não podia evitar de criar no subconsciente uma margem de segurança.”

Horner era agressivo como chefe de equipe e também na divulgação de sua equipe
Horner era agressivo como chefe de equipe e também na divulgação de sua equipe (Imagem: Reprodução)

Ao final daquele ano, ele também refletiu sobre seu desempenho dentro da pista. Acabou chegando à conclusão que estava no seu limite e não no nível de pilotos daquela geração, que subiriam nos próximos anos para F1. Assim, aos 25 anos, o inglês resolveu se aposentar da carreira de piloto e focar em administrar sua equipe.

Para a temporada seguinte, ele conseguiu um parceiro para investir no time. David Richards, proprietário da tradicional equipe de rali e turismo Prodrive, comprou metade da Arden. Ele fez a operação, na verdade, atendendo a um pedido de um patrocinador, a empresa petrolífera russa Lokoil, que queria levar o filho do proprietário, Viktor Maslov, para a F3000. Ao lado dele, correria o belga Marc Goossens, que vinha de uma boa experiência da F-Nippon japonesa.

Com o aporte e novo patrocínio, dinheiro deixou de ser problema para a Arden. E apenas um ano depois, Horner conseguiu comprar de volta os 50% da equipe que ele tinha vendido para a Prodrive. Mesmo assim, ele continuou correndo até o final de 2001 com Maslov em um de seus carros para seguir recebendo o apoio da Lokoil.

Chegou então o momento que Horner precisou fazer mais um movimento corajoso. Com a estrutura que formou aos poucos nos três anos anteriores, ele chegou à conclusão que era hora de se separar de seu patrocinador e principal financiador, e apostar em uma dupla de ponta para fazer a equipe começar a frequentar as primeiras posições do grid.

Ele contratou Tomas Enge e Björn Wirdheim, que fizeram um bom trabalho em 2002. Enge terminaria o campeonato com o título, mas acabou sendo desclassificado da etapa da Hungria por conta de um antidoping positivo para maconha. Os pontos perdidos lhe fizeram cair para terceiro na classificação geral, logo à frente do companheiro. A Arden, de qualquer maneira, ainda ficou com a taça da disputa entre equipes.

Em 2003, o time voltou a ter um grande desempenho, levando agora Wirdheim ao título de pilotos e conquistando o campeonato de equipes com uma margem de 20 pontos em cima da… Red Bull Junior Team!

E aqui, Helmut Marko volta à história de Horner. O austríaco tinha vendido sua equipe de F3000, que vinha correndo sob o nome de Red Bull Jr desde 1999, e estava administrando o programa de formação de pilotos da marca de energéticos. “Ele estava cuidando do Vitantonio Liuzzi, que parecia muito forte. Então, eu fiz um negócio com Helmut que correria com ele [Liuzzi] financiado pela Red Bull em 2004”, lembrou o inglês. Liuzzi conquistou o título de pilotos sobrando e a Arden, que ainda teve Robert Doornbos em terceiro no campeonato, destruiu na competição de equipes, terminando como campeã com 130 pontos contra 84 da vice.

Paralelamente, a Red Bull também estava dando um passo no automobilismo que a princípio não tinha ligação com Horner, mas que mudaria a sua vida para sempre.

Chefe de equipe da Red Bull

Agora, dono de uma equipe de sucesso na F3000, Horner começou a pensar no que quase todo garagista da base pensava até o final dos anos 90: “que tal subir para a F1?”. Assim, ele poderia realizar o seu antigo sonho. Não como piloto, mas como chefe de uma escuderia.

Nos anos anteriores, Horner já tinha feito algum contato com Bernie Ecclestone quando representava as equipes da F3000. Ele então abordou o então chefão do Mundial para apresentar sua ideia e recebeu a dica de que Eddie Jordan estava aberto a ofertas. Horner foi então conversar com o norte-irlandês, mas o preço que ouviu pela equipe estava muito acima do que ele poderia considerar investir.

Então, ele comentou sobre a história com Marko e ouviu que a ideia parecia interessante também para a Red Bull. O ex-piloto austríaco marcou um encontro entre Horner e o dono empresa, Dietrich Mateschitz, na Áustria. O inglês apresentou seu projeto de comprar a Jordan, mas ouviu que essa transação não interessava, pois já existia algo caminhando entre a companhia e a Jaguar.

A montadora inglesa na época era de propriedade da Ford, que tinha adquirido cinco anos antes a equipe Stewart para entrar na F1 com um time oficial. Mas as coisas não estavam dando certo e apesar do grande investimento, nenhum resultado importante tinha sido alcançado.

Alguns meses depois do encontro, em 14 de novembro de 2004, a Red Bull anunciou a compra da equipe Jaguar. Pouco depois, também oficializou a contratação de David Coulthard, que estava deixando a McLaren após nove anos.

Enquanto isso, Horner seguia com sua vida. Ele tentava convencer Jordan a baixar seu preço e ia também planejando o programa da Arden para a temporada inaugural da GP2, em 2005. No final de dezembro, já na semana do natal, ele recebeu uma ligação que mudaria sua vida para sempre.

“Helmut me pediu para voar para Salzburg e me reunir com Dietrich de novo. Eu percebi que ele tinha certo nível de frustração com os principais dirigentes que ele herdou da Jaguar, o chefe de equipe Tony Purnell e o diretor administrativo David Pichforth”, contou Horner à Motorsport em 2012. “Muito rapidamente, ele me explicou a visão dele para a Red Bull na F1 e me ofereceu o cargo de chefe de equipe. Era algo enorme para mim, que ele estava preparado para colocar fé em mim para entregar sua visão. Claro que eu disse sim”, continuou.

A relação de Horner e Marko veio de antes da parceria na Red Bull e se tornou pilar central para o sucesso da marca na F1 (Foto: Getty Images / Red Bull Content Pool )

Na manhã do dia 7 de janeiro de 2005, Helmut Marko e Dany Bahar, ambos consultores de Mateschitz para automobilismo, foram a Milton Keynes, sede da equipe, demitiram Purnell e Pichforth e pediram para que eles deixassem o prédio imediatamente. Então, os dois reuniram os funcionários e anunciaram que Horner seria o novo chefe de toda a organização. Em seguida, eles foram embora, antes mesmo do novo comandante chegar, no começo da tarde.

“Eu me vi sentado na mesa de Purnell com seu jornal entreaberto e sua xícara de café cheia pela metade pensando: ‘Por onde eu começo?’”, lembrou.

Na época, Horner tinha apenas 31 anos e era de longe o chefe de equipe mais jovem da F1.

Adrian Newey: a grande sacada de Horner

Obviamente, o começo da Red Bull em 2005 não foi dos mais fáceis. A estrutura herdada pela Jaguar não era das melhores se comparada com times de ponta da F1 e os funcionários viviam um período de incerteza após tantas mudanças de comando, que incluía duas alterações de propriedade (compra da Stewart pela Ford e depois a aquisição pela Red Bull), além de uma sequência trocas no alto escalão.

Com apoio Mateschitz, Horner encarou essa primeira temporada como uma transição, em que focou em entender as principais forças e fraquezas do time para criar uma base de partida para reformulações futuras. Sem nunca ter trabalhado ou tido contato com a F1 até então, ele teve um apoio importante aqui de David Coulthard, que trazia uma experiência não só de piloto com 13 vitórias e dois vice-campeonatos mundiais, mas também de ter passado por duas equipes de ponta (Williams e McLaren) e assim saber onde a estrutura poderia ser melhorada.

Paralelamente, Mateschitz também quis mostrar para a F1 que ele queria muito mais que vencer, mas levar para o paddock um novo conceito que bateria de frente com o estilo meio sisudo da categoria. Logo nas primeiras provas europeias, ele inaugurou o Energy Station, um mega centro de hospitalidade na área dos motorhomes com três andares que incluíam um restaurante, bar e muita música. E mesmo que fosse algo focado no marketing, chamou muita atenção das pessoas da F1 para a forma como a empresa mostrava que queria encarar a categoria. E foi também como deu início a grande manobra de Horner para elevar o nível da Red Bull dentro da pista.

“Na primeira vez no paddock de Imola, nós estávamos ao lado do motorhome cinza e silencioso da McLaren. Não sei bem o que Ron Dennis [então chefe e um dos proprietários da McLaren] achava da nossa música alta, mas vi Adrian [Newey] ali fora, olhando para o Energy Station. Ele estava curioso. Eu nunca tinha conversado com ele antes, mas na minha cabeça, ele era o melhor do mercado. Eu o chamei para entrar, mostrei tudo para ele e lhe dei um drink. Ele não podia evitar de perceber o contraste entre a forma de trabalho da McLaren e a nossa”, contou Horner.

Adrian Newey já era um projetista mais do que renomado. Tinha trabalhado na Williams em uma das melhores fases da equipe durante a década de 90, conquistando os títulos de 1992, 93, 96 e 97. Depois, se transferiu para a McLaren, levando o time aos campeonatos mundiais de 98 e 99. Mas nos anos seguintes, se viu descontente na organização de Woking, especialmente na relação com seu chefe, Ron Dennis.

“Em Mônaco, a Energy Station estava flutuando no porto. Tínhamos uma ação de Star Wars, e Adrian estava curioso. Então, ele veio para ver o que estava acontecendo. E eu confidenciei para David [Coulthard], que tinha trabalhado com ele durante a maior parte de seu tempo na McLaren e o conhecia bem, que eu gostaria de tentar trazê-lo para trabalhar com a gente. David disse: ‘Aqui está o número do telefone dele. Vamos ver se conseguimos marcar um jantar.’ Em julho, jantamos com Adrian e sua esposa. David mostrou muito entusiasmo sobre a Red Bull e a equipe, mas não falamos sobre a ideia de Adrian se juntar a nós, apenas tivemos uma noite relaxante, e ele realmente curtiu. Eu podia sentir que ele estava frustrado na McLaren. E seu contrato estava para expirar.”

Horner então foi conversar com Mateschitz sobre a possibilidade de contratar Newey, mas não chegou a falar em valores. Obviamente que o dono da Red Bull achou a ideia interessante e deu sinal verde para o começo de uma negociação. Em outubro, eles convidaram o projetista para ir à sede da empresa, em Salzburg, na Áustria.

A ideia era mostrar que a Red Bull tinha a objetivo de ser grande e vitoriosa na F1, mas que também queria fazer isso com um clima leve e divertido. Assim, Newey foi levado às montanhas austríacas para almoçar com Mateschitz e teve acesso a diversos “brinquedos” do mandatário da empresa, incluindo uma volta em um caça para sessão de acrobacias.

A visão de Horner na contratação do projetista consagrado Adrian Newey foi essencial para o salto da Red Bull para se tornar uma grande equipe na F1
A visão de Horner na contratação do projetista consagrado Adrian Newey foi essencial para o salto da Red Bull para se tornar uma grande equipe na F1 (Getty Images / Red Bull Content Pool)

No final do dia, Horner finalmente disse a Newey que eles queriam contratá-lo. O projetista disse seu salário, que era 70% superior ao que o chefe da equipe estava imaginando em oferecer. Ele então levou a pedida para o patrão. “Eu liguei para Dietrich, ele ficou quieto por alguns segundos, e disse: ‘Vamos fazer isso’. Essa é a parte boa da Red Bull. É a empresa dele, pertence apenas a ele e nenhuma outra pessoa na Tailândia. Não tem reuniões de conselho, aprovações de acionistas. É tudo feito com uma decisão instantânea. No domingo seguinte, eu e Adrian apertamos as mãos, ele voou para casa e contou a notícia para Ron [Dennis].”

Newey começou a trabalhar na Red Bull em fevereiro de 2006. Obviamente que ele não participou da construção do RB2, segundo carro da equipe na F1 que iria competir já naquele ano, mas aos poucos foi ajudando Horner a introduzir no time processos de desenvolvimento de uma grande equipe. Ele também fez indicações importantes para o chefe de equipe realizar novas contratações e enriquecer o nível do corpo técnico.

A Red Bull ainda demorou alguns anos para se tornar uma potência, mas quando chegou o momento da grande mudança de regulamento de 2009, uma das maiores da história da F1, a estrutura sob o comando de Horner estava pronta. Naquele ano, o time conquistou suas primeiras vitórias e ficou com o vice-campeonato de pilotos e construtores. Em 2010, iniciou uma era de domínio em que venceu quatro títulos de pilotos com Sebastian Vettel e de construtores na sequência.

Com a nova mudança de regras para 2014, o time ficou um pouco para trás, mas sob a liderança de Horner, nunca deixou de ser uma das principais forças do grid. Os altos e baixos vieram, mas uma coisa sempre ficou clara: a confiança da empresa no trabalho do inglês. E ele nunca decepcionou.

Comunicar erro

Comentários

Wordpress Social Share Plugin powered by Ultimatelysocial