Quatro Rodas

Com nome Alpine na F1, Renault volta às raízes de sua divisão esportiva

Em um final de semana com tantas novidades e corrida movimentada, o anúncio de que a equipe Renault de F1 ganhará um novo nome em 2021 passou um pouco despercebido. O time passa a se chamar Alpine, marca esportiva do grupo francês que está aos poucos voltando à ativa nos últimos anos e que agora parece que irá receber mais apoio da nova direção da empresa.

A Alpine é uma marca mais do que conhecida no automobilismo, com sucesso no rali e no endurance, mas nunca esteve na F1. A empresa foi absorvida pelo Grupo Renault em 1974 e seguiu produzindo carros de rua esportivos até 1995.

No início dos anos 2010, o grupo francês começou a considerar um retorno. Querendo aproveitar o histórico ligado às pistas, o primeiro passo foi uma parceria de marketing no endurance. A marca fechou um acordo de patrocínio com a equipe Signatech em 2013 e o protótipo LMP2 Oreca do time passou a ser rebatizado de Alpine.

Quatro anos depois, finalmente um modelo de rua da marca voltou a ser produzido, o A110, um esportivo com linhas inspiradas nos antigos carros da marca e motor traseiro, com um apelo aos puristas e nostálgicos.

A vontade de reviver a Alpine do ponto de vista de marketing para concentrar os projetos mais esportivos da Renault faz sentido e por isso nada mais natural do que rebatizar a equipe de F1, o grande investimento do grupo no automobilismo. Mas existe outro fator que deixa essa história ainda mais interessante e que faz um ciclo se fechar após quase 50 anos: a divisão esportiva da Renault nasceu de uma fusão interna de marcas Alpine e Gordini. Tudo começou ali.

Modelo ALPINE A110S lançado em 2019. Versão esportiva do A110 de 2017
Modelo ALPINE A110S lançado em 2019. Versão esportiva do A110 de 2017 (Foto: Renault)

Como a Alpine se tornou a Renault das pistas

A Alpine foi fundada por Jean Rédélé na cidade francesa de Dieppe nos anos 50. A ideia inicial era formar uma equipe de competições em que ele comprava e preparava modelos de rua para competir em provas de rali e longa duração. Os primeiros sucessos vieram logo com um Renault 4CV em competições importantes como a Mille Miglia e a Copa dos Alpes.

Trabalhando com tecnologias para deixar seus modelos mais leves, ele produziu modelos com carroceria em alumínio e chegou a competir em Le Mans em Sebring. Usando a mecânica do Renault 4CV, ele projetou e construiu o Alpine 106, se tornando um pioneiro na utilização de fibra de vidro no automobilismo. O modelo foi estilizado e passou a ser vendido no mercado em parceria com a Renault.

Alpine A110 de Jean Vinatier no Rallye Copa dos Alpes de 1969
Alpine A110 de Jean Vinatier no Rallye Copa dos Alpes de 1969 (Foto: Renault)

A evolução deste carro se tornaria o 108, um dos grandes sucessos da empresa. Este, inclusive, veio para o Brasil pela Willys-Overland, que rebatizou o carro no mercado nacional de Willys Interlagos, em referência ao autódromo paulistano, entre 1962 e 66. O modelo é sempre lembrado como o primeiro esportivo brasileiro.

A Alpine trabalhava cada vez mais próxima da Renault, tanto em seus modelos como também em desenvolvimento de carros do grupo. Inclusive, os modelos da pequena marca de Dieppe eram vendidos em concessionárias da Renault na França. E a ideia dos veículos de rua era financiar a equipe de corrida, que competia bem contra montadoras importantes no rali como Porsche, Lancia e Ford. Em 71, a empresa também começou a construir modelos de F3 e F2, porém, como não existiam motores Renault disponíveis e não querendo aparecer como “Alpine-Cosworth” ou “BMW”, os monopostos foram batizados com o nome da petrolífera francesa Elf.

Só o que começo dos anos 70 foi cruel para pequenas fabricantes por conta da crise do petróleo. Com a queda das vendas e o passivo aumentando, a Alpine foi vendida para Renault em 1973 para se manter ativa. Três anos depois, a Renault decidiu levar o departamento de competições da marca para a fábrica da Gordini em Viry-Châtillon para que as duas empresas passassem a trabalhar em sintonia. Assim, Dieppe ficou concentrada apenas na produção dos produtos de rua.

A ideia era que a equipe da Alpine trabalhasse no desenvolvimento dos chassis enquanto o pessoal da Gordini seria responsável pela preparação dos motores para competição. Só que a coisa não funcionou como esperado, com certa rivalidade se formando entre os dois departamentos que defendiam nomes diferentes.

Já com um projeto de aumentar sua presença com a marca principal no automobilismo, a Renault decidiu então assumir toda operação em 1976 com sua própria estrutura e organograma e rebatizou o programa de Renault Sport.

A era sob a Renault

A partir da fusão dos programas, Gordini e Alpine se tornaram marcas utilizadas pela Renault para darem um ar de esportividade para alguns de seus modelos de rua. A Renault começou a trabalhar em seu projeto de entrar na F1 em 1977. Mas os outras empreitadas não ficaram de lado.

Usando a consolidada Alpine, os franceses enfrentaram o desafio de competir em Le Mans com o protótipo Renault Alpine A442B, que venceria a prova em 1978 com a dupla Jean-Pierre Jaussaud e Didier Pironi ao volante. Os modelos de F3 e F2 também serviram para o programa de formação de pilotos da Renault e Elf, o que culminaria em uma das melhores gerações de pilotos do país entre o final dos anos 70 e começo dos 80.

Aos poucos, no entanto, assim como a Gordini, a marca Alpine se tornou cada vez menos trabalhada tanto nas ruas como no esporte pela Renault, que passou a investir mais em seu próprio nome em seus programas nas pistas. Ambas perderam assim importância e se tornaram referência em alguns projetos para as pistas ou de esportivos do grupo, mas nunca sem grande investimento.

Alpine A470 da equipe Signatech Alpine Elf durante etapa dos EUA do Mundial de Endurance de 2020
Alpine A470 da equipe Signatech Alpine Elf durante etapa dos EUA do Mundial de Endurance de 2020 (Foto: Antonin Vincent / DPPI / Renault)

A fábrica de Viry-Châtillon seguiu como base principal da Renault Sport nas mais diversas categorias. Em 2002, no entanto, uma reforma do programa foi realizada quando a empresa voltou à F1 através da compra da equipe Benetton, que tinha sede em Enstone, na Inglaterra.

O time manteve em a fábrica britânica como sede do time de F1 enquanto a divisão de motores para a categoria foi mantida nas instalações de Viry-Châtillon, onde está até hoje. O restante do programa esportivo da Renault (que inclui categorias de base, turismo, entre outras) passou a funcionar em Les Ulis.

A nova encarnação Alpine-Renault

O Grupo Renault teve um 2019 difícil com a mudança de direção e um de seus principais executivos, o franco-brasileiros Carlos Ghosn, se envolvendo em problemas com a justiça japonesa. Em julho de 2020, a empresa anunciou que teria um novo CEO (diretor-executivo), Luca de Meo.

O italiano passou a trabalhar em uma reorganização de todo o grupo, para aproveitar melhor as marcas que estão sob seu guarda-chuva. Entre elas está a Alpine, que deve ganhar corpo e deixar de fazer apenas um modelo, sem necessariamente olhar para as linhas de seu passado.

E o primeiro passo para reintroduzi-la no mercado é fazer com que ela volte a ser comentada. Com a Renault tendo assinado há algumas semanas o novo Pacto de Concórdia e assumindo um compromisso de seguir na F1 até pelo menos 2025, nada melhor, pelo menos na visão de De Meo, de aproveitar a já enorme operação na categoria para dar o ponta pé inicial nesta estratégia.

“A Alpine é uma linda marca, forte e vibrante, que traz um sorriso ao rosto de seus seguidores. Ao introduzir Alpine, um símbolo de excelência francesa, uma das disciplinas mais prestigiadas do mundo automotivo, estamos continuando a aventura das montadoras em um esporte renovado. Estamos trazendo uma marca de sonho para o lado dos grandes nomes, para carros de corrida espetaculares e seguidos por entusiastas. A Alpine também irá trazer valor ao paddock da F1: elegância, engenhosidade e audácia”, declarou De Meo no comunicado que anunciou a renomeação da equipe.

Anúncio da entrada da Alpine na F1 a partir de 2021 (Renault)

Cyril Abiteboul, atual chefe da equipe na F1, não só segue no cargo como ainda recebeu a incumbência de liderar a remodelação da Alpine também fora das pistas para supervisionar a montagem da estrutura e plano de expansão para lançamentos de novos modelos.

O time deixa de usar as cores amarela e preta e deve assumir seu tradicional azul, acompanhado do vermelho e branco da bandeira francesa. A marca Renault, no entanto, não sumirá completamente da F1, já que os motores continuarão levando seu nome.

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