Quatro Rodas
Honda deixa F1 e sua parceria com a Red Bull ao final de 2021

O “vai e vem” da Honda na história da F1

A Honda anunciou neste 02/10 que irá deixar a F1 ao final da temporada de 2021. É um golpe forte para a categoria, que agora vê seu número de fornecedoras de motores cair novamente para três. Vamos abordar melhor esse assunto em um novo artigo nos próximos dias.

Perder a Honda em específico também é sempre ruim para a F1, já que a marca é uma das que participa de forma mais ativa da categoria nestes seus 70 anos de história. Ela é a quinta fabricante de motores com mais largadas, com 452, atrás apenas de Ferrari, Renault, Ford e Mercedes. Se somarmos as participações dos propulsores batizados de “Mugen-Honda”, que basicamente eram motores da empresa preparados pela Mugen, ela sobe para quarto, à frente da Mercedes.

A companhia também é a quinta da F1 em número de vitórias, 77, mesma posição em poles, com 79. Ou seja, é impossível não considerar a Honda como uma das participantes mais importantes da história. Ao mesmo tempo, a marca tem essa tradição de em tempos em tempos revisitar sua participação na F1. Ela entra e sai, às vezes com mais ou menos investimento, mais ou menos sucesso.

Com as manchetes sobre a nova decisão de se tirar da F1, o Projeto Motor resolveu relembrar as diversas passagens da Honda pelo Mundial.

1964-68: a primeira empreitada da Honda com equipe própria

A Honda foi fundada em 1937 como uma fabricante de anéis para pistões, se tornando rapidamente uma das principais fornecedoras de montadoras japonesas, especialmente a Toyota. No pós-II Guerra, precisando rever seu modelo de negócios, a empresa resolveu investir na produção de motos, lançando seu primeiro modelo em 1949.

No final da década de 50, a companhia já tinha concessionária nos Estados Unidos e passava a ser uma das maiores fabricantes do mundo. Com o sucesso, a Honda resolveu investir também em carros. O seu primeiro lançamento foi uma pequena pick-up para serviços de carregamento, o T360, que chegou ao mercado japonês em 1963.

Paralelamente, a companhia sentiu a necessidade de, além de suas participações nos campeonatos de motos, já começar a mostrar sua marca nas quatro rodas. Assim, em 1962, iniciou os estudos para entrar na F1.  

A princípio, a ideia era de se juntar à Lotus e ser a fornecedora de motores da equipe. Um acordo chegou a ser feito para a temporada de 1963, mas Colin Chapman mudou de ideia após alguns meses. Os japoneses resolveram então entrar com uma equipe própria. O investimento foi enorme, já que a empresa resolveu construir uma fábrica especifica para seus carros e motores do programa de F1, algo que era relativamente raro na época entre as participantes.

Estreia da Honda na F1 aconteceu no GP da Alemanha de 1964
Estreia da Honda na F1 aconteceu no GP da Alemanha de 1964 (Foto: Honda)

A estreia, com o modelo RA271, aconteceu no GP da Alemanha de 1964, sexta das 10 etapas daquela temporada, com o americano Ronald Bucknum ao volante. Era um primeiro ano de testes e ajustes ao projeto, e a equipe se inscreveu em apenas mais duas corridas, na Itália e Estados Unidos.

Para 1965, a Honda finalmente veio para sua primeira temporada completa, com Richie Ginther se juntando a Bucknum para formar a dupla do time. O modelo RA272 era uma evolução do primeiro carro, com poucas mudanças, e ajustes tanto no chassi quanto no motor para melhorar a confiabilidade.

E logo os primeiros resultados começaram a surgir e a equipe marcou pontos em três etapas, incluindo uma surpreendente vitória de Ginther no México, última etapa do campeonato. Na mesma corrida, Bucknum ainda ficou em quinto.

Por conta de uma mudança no regulamento de motores, com a liberação de motores aspirados de 3 litros (era 1,5l até então) e o aumento do peso mínimo para 500 kg, a Honda perdeu a maior parte do campeonato de 66 e voltou apenas para três etapas finais. No México, mais uma vez Ginther conseguiu um bom resultado, em quarto.

A Honda resolveu então mudar seu formato de trabalho para 67, contratando a Lola para desenvolver seu chassi e se concentrando no motor. Para conduzir sua máquina, a empresa investiu no campeão de 64, John Surtees. E o investimento valeu a pena, já que o inglês pontuou em cinco das 11 etapas do campeonato, vencendo ainda o GP da Grã Bretanha, em Silverstone.

Surtees elevou o nível do projeto da Honda na F1
Surtees elevou o nível do projeto da Honda na F1 (Foto: Honda)

As coisas pareciam continuar a evoluir no ano seguinte com o modelo RA301 e Surtees conseguiu mais dois pódios durante a temporada. Só que no GP da França, a equipe tentou introduzir o novo RA302, que ao contrário do irmão feito em alumínio, foi construído em magnésio, um componente muito mais leve, porém, bastante inflamável. O carro ainda se mostrou nervoso e difícil de pilotar.

Surtees se recusou a andar com ele por achar perigoso demais e a tarefa ficou com Jo Schlesser. Na segunda volta da prova no circuito de Rouen, o francês bateu e seu carro se incendiou quase que instantaneamente. O piloto não teve chances de deixar o veículo e morreu.

As críticas que a empresa sofreu pelo acidente aliadas ao novo foco de investimento na expansão dos negócios da venda de carros nos Estados Unidos, levaram a Honda a suspender seu programa na F1 ao final de 1968, alegando principalmente os altos custos.

1983-92: nova incursão como fornecedora de motores

Nos anos 80, as transmissões por TV da F1 explodiram e diversas montadoras começaram a se interessar no campeonato como plataforma de marketing. Além disso, os turbos ganharam espaço, abrindo um novo momento para motores na categoria, que vinha sendo dominada principalmente pela briga entre Ferrari e Ford Cosworth na década anterior.

Entre as diversas marcas que desembarcaram no campeonato, a Honda foi uma delas, desta vez apenas como fornecedora de propulsores, se aliando à equipe Spirit para 1983 com um V6 turbo de 1,5 litro. Já no final daquela temporada, a marca conseguiu um acordo com um time maior, a Williams, campeã de 82.

A aliança da Honda com a Williams na metade da década de 80 rendeu muitos frutos
A aliança da Honda com a Williams na metade da década de 80 rendeu muitos frutos (Foto: Honda)

O campeonato de 84 amplamente dominado pelo conjunto McLaren-Porsche, mas o trabalho da Honda com a Williams começou a mostrar alguns frutos, principalmente com a vitória de Keke Rosberg em Dallas. No ano seguinte, a parceria conquistou mais quatro vitórias e a Williams já terminou na terceira posição entre os construtores, no encalço de McLaren e Ferrari.

A partir deste momento, a Honda passou a se firmar como a melhor fabricante de motores da F1. A Williams não venceu o campeonato de pilotos de 86 mais por conta da briga interna entre Nigel Mansell e Nelson Piquet, que deixou a porta aberta para Alain Prost se aproveitar de sua regularidade. Mas em 1987, o time dominou a categoria, com nove vitórias, sendo que a Honda ainda levou mais duas com a Lotus, sua segunda equipe.

Para 1988, a parceria com a Williams foi rompida e a Honda se aliou à McLaren, com a Lotus permanecendo como segundo time da marca. A McLaren se beneficiou dos ótimos motores da empresa para vencer quatro campeonatos na sequência, mesmo com a proibição dos turbos no meio do caminho. A Tyrrell ainda passou a receber os propulsores da empresa no lugar da Lotus, só que sem o mesmo tratamento de fábrica, com a Mugen sendo responsável pela preparação.

McLaren e Honda se tornaram quase imbatíveis entre 1988 e 91 (Foto: Honda)

Em 92, no entanto, com a evolução da Williams equipada com um ótimo V10 da Renault, a Honda decidiu mais uma vez se retirar da F1. Chegava ao fim a segunda aventura da Honda na F1, apesar de os motores da marca continuarem presentes sem apoio oficial, pela Mugen, companhia de preparação de propulsores de competição com uma ligação com Honda por ter sido fundada pelo filho do fundador da marca, Hirotoshi Honda, mas que sempre foi independente.  

2000-2008: parceria com a BAR e nova equipe própria

O desligamento da Honda da F1 neste período pós-92 nunca foi completo. Os motores da Mugen seguiram no campeonato passando pelas equipes Lotus, Footwork, Ligier, Prost e Jordan, inclusive com quatro vitórias por Jordan e Ligier.

Neste meio tempo, a Honda ainda iniciou o projeto de uma equipe própria em 1998, mas que acabou sendo suspenso por conta de diversos fatores, entre eles a morte do projetista Harvey Postlethwaite, que liderava o projeto. O Projeto Motor já contou os detalhes deste caso aqui.

De qualquer maneira, a marca resolveu retornar oficialmente como fornecedora de motores em 2000, em uma parceria com a equipe BAR. O novo time teve alguns altos e baixos, mas no geral se estabilizou como uma boa equipe média. Em 2005, a Honda então resolveu dar um passo adiante a adquiriu por completo a escuderia, voltando a ter um time próprio na F1.

Encarnação dos anos 2000 da equipe Honda foi uma grande decepção (Foto: Honda)

O projeto receberia um investimento considerável e em 2006 até mostrava algum potencial, com uma vitória de Jenson Button e o quarto lugar no campeonato de construtores. Só que a partir daí, foi ladeira abaixo. As temporadas de 07 e 08 foram extremamente decepcionantes, com a equipe passando a frequentar as últimas posições do grid e marcando poucos pontos.

Com os resultados ruins e uma enorme crise econômica mundial explodindo em 2008, a Honda resolveu se retirar da F1, passando toda a equipe para Ross Brawn e mais alguns executivos do time, que formariam a nova Brawn GP, campeã de pilotos, com Button, e construtores, com motor da Mercedes, logo no ano seguinte, em 2009. Essa história também já contamos aqui no Projeto Motor.

2015-2021: Honda na era híbrida

A F1 adotou a partir de 2014 um novo formato de propulsores, usando uma tecnologia híbrida de um motor a combustão V6 1,6l turbo com sistemas de recuperação de energia bastante avançados. A ideia era atrair novas montadoras. A Honda foi a única que se interessou a participar ao lado das competidoras que já estavam no grid (Ferrari, Mercedes e Renault).

Novamente, a ideia era de entrar apenas como fornecedora. E a McLaren foi escolhida como cliente, em uma tentativa de se reviver o sucesso do final dos anos 80 e 90. Só que a Honda entrou no campeonato com uma temporada de atraso, em 2015, e sofreu com isso.

O motor tinha problemas tanto de confiabilidade quanto de potência e passou a ser chacota no paddock, especialmente depois da famosa mensagem de rádio de Fernando Alonso dizendo “motor de GP2”. A parceria entre Honda e McLaren se desgastou e o divórcio se tornou inevitável ao final de 2017.

A equipe inglesa passou a receber o equipamento da Renault enquanto a Honda foi trabalhar com a Toro Rosso, segunda equipe da Red Bull (rebatizada em 2020 de Alpha Tauri). Como a relação da Red Bull com a Renault também não estava em seu melhor momento, em 2019, a Honda e a marca de energéticos aumentaram a colaboração para fornecimento para as duas equipes do grupo na F1.

Verstappen fez questão de homenagear a Honda na primeira vitória da nova parceria com a Red Bull, em 2019
Verstappen fez questão de homenagear a Honda na primeira vitória da nova parceria com a Red Bull, em 2019 (Foto: Mark Thompson/Getty Images/Red Bull Content)

E logo no primeiro ano, vieram três vitórias, o que consolidou um novo momento para a Honda na F1. Em 2020, após 10 etapas, já foram mais dois triunfos, um pela Red Bull e outro pela Alpha Tauri.

Mesmo com toda esta evolução, a Honda mais uma vez resolveu interromper seu programa no Mundial, alegando que irá focar no investimento em novas tecnologias verdes, com o objetivo de zerar sua pegada de carbono até 2050. Encerra-se assim mais um capítulo da marca japonesa na F1.

Números da Honda na F1

Motor

Corridas: 452
Temporadas: 30
Equipes: 12
Vitórias: 77
Pole Positions: 79
Títulos de construtores: 6 (Williams e McLaren)
Títulos de pilotos: 6 (Nelson Piquet, Ayrton Senna e Alain Prost)

Equipe

Corridas: 88
Temporadas: 8
Vitórias: 3
Pole Positions: 2
Melhor no campeonato de construtores: 4º (1967 e 2006)
Melhor no campeonato de pilotos: 4º (John Surtees)

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