Maria de Villota: o estranho acidente e a trágica história da espanhola na F1

A história de Maria de Villota e sua passagem pela F1 representaram um capítulo marcante para a categoria. A piloto espanhola teve um acidente estranho com um carro da Marussia em um teste em um aeroporto, o que teve consequências trágicas. 

Maria de Villota nasceu no dia 13 de janeiro de 1980 e desde cedo se relacionou com o automobilismo. Ela teve influência de seu pai, Emilio de Villota foi piloto e chegou a correr na F1 na década de 1970. 

A chegada à F1

Inicialmente, ela se dedicou a categorias de menor porte, especialmente competições de fórmula dentro da Espanha, e posteriormente em carros de turismo. Porém, a piloto ganhou mais destaque quando competiu na Superleague, categoria de monopostos que envolvia clubes de futebol, onde defendeu o Atlético de Madrid.

Em 2011, De Villota fez seu primeiro teste extraoficial na F1 pela Lotus, guiando um modelo da Renault de 2009 em Paul Ricard. Para 2012, os laços com a F1 ficariam mais estreitos: ela se tornou piloto de testes da Marussia, uma das equipes menos competitivas do grid.

Como os testes eram bastante restritos naquele ano, a espanhola provavelmente só faria sua primeira atividade oficial em uma sessão coletiva em Abu Dhabi, em novembro.

Os testes aerodinâmicos

maria de Villota Duxford
Uma das últimas imagens de Maria de Villota em ação (Foto: Reprodução / Twitter)

Porém, as equipes tinham outras possibilidades de colocar seus carros para andar em 2012. O Regulamento Desportivo da F1 previa quatro dias de testes aerodinâmicos, que eram realizados somente em linha reta. Tais atividades serviam para verificação de novas peças e a correlação entre o que é visto no túnel de vento e o que se passa na prática. Por ser uma atividade de linha reta, muitas equipes realizavam testes deste tipo em aeroportos – e este foi o caso da Marussia. 

No dia 3 de julho de 2012, De Villota seria a responsável por guiar em um teste aerodinâmico no aeroporto de Duxford, na Inglaterra. A ocasião marcaria seu primeiro contato com o carro da Marussia. A espanhola testaria novas peças que a equipe pretendia estrear no GP da Grã-Bretanha, que seria realizado ao fim daquela semana. 

Em seu primeiro giro de instalação, De Villota deu duas voltas pela pista do aeroporto e atingiu velocidades na casa de 240 km/h. Quando retornou à  garagem pela primeira vez, aproximadamente às 9h15 locais, aconteceu o acidente. Testemunhas relataram que a piloto tinha de passar por um ziguezague de cones antes de estacionar, e por isso ela reduziu a velocidade.

O acidente de Maria de Villota

Porém, o carro repentinamente voltou a acelerar e foi em direção a um caminhão da Marussia que estava estacionado perto do local. Mais do que isso: na traseira do caminhão havia uma rampa que estava erguida na altura da cabeça da espanhola. Quando percebeu que bateria o capacete contra a rampa, De Villota tentou virar sua cabeça para esquerda, de forma instintiva. Isso deixou o lado direito de seu rosto mais exposto. 

O impacto com o caminhão foi a aproximadamente 60 km/h e provocou uma enorme rachadura no capacete, o que também resultou em graves lesões à cabeça da piloto. Em seguida, a ambulância foi chamada e De Villota demorou para ser retirada do carro, pois ficou cerca de 15 minutos inconsciente. 

Maria de Villota Capacete
Capacete de Maria de Villota ficou rachado (Foto: Reprodução/Twitter)

Quando a piloto conseguiu chegar ao hospital, o primeiro comunicado dizia que ela corria risco de morte. Ela foi submetida a cirurgias neurológicas e plásticas, e seu estado foi estabilizado. Porém, no dia seguinte, foi confirmado que De Villota havia perdido seu olho direito.

A recuperação inicial e a tragédia

A sua recuperação, no geral, correu de forma rápida. Ainda no mês de julho, De Villota foi transferida para um hospital em Madri, e pouco depois recebeu alta. Em outubro, ela fez sua primeira aparição pública após o acidente e revelou que se lembrava de tudo o que havia acontecido naquele fatídico dia – embora nunca tenha falado publicamente sobre os detalhes técnicos do que ocorreu. De Villota também relatava que ainda sentia fortes dores de cabeça, além de ter tido seu olfato e paladar afetados. Isso não a impedia de realizar trabalhos de caridade, além de atuar na Comissão de Mulheres no Automobilismo da FIA.

Contudo, infelizmente, a história teria um final trágico. Em outubro de 2013, Maria de Villota foi encontrada morta em seu quarto de hotel em Sevilha, na Espanha, onde participaria de um evento. A família revelou que a piloto morreu por “causas naturais”, destacando que estas foram “consequências neurológicas” do acidente que sofreu no ano anterior.

As investigações do acidente

Uma investigação já estava em andamento desde 2012, mas a trágica perda da espanhola deixou o mundo do automobilismo ainda mais ávido por respostas. A Marussia defendia desde a época do acidente que não houve um problema no carro que tenha causado a batida. “Nossa investigação interna exclui o carro como um fator para um acidente”, disse John Booth, chefe da equipe.

O responsável pela análise do caso foi o Health and Safety Executive, órgão governamental britânico que investiga acidentes de trabalho que resultaram em lesões físicas. As conclusões saíram oficialmente em 2015, e basicamente indicava que nenhuma ação deveria ser tomada contra as partes envolvidas. No entanto, a investigação trouxe detalhes importantes que ajudam a explicar como foi a dinâmica do acidente.

Antes da sessão, De Villota havia dito para a equipe que não conseguia operar adequadamente a embreagem do carro quando o volante estava esterçado. A embreagem de um carro de F1 é situada atrás do volante, que fica totalmente virado quando os pilotos saem dos boxes normalmente. Por sua vez, a Marussia, considerava que isso não seria um problema, já que se tratava de um teste em linha reta, então a embreagem não teria de ser usada com o volante virado.

“Uma luta do carro com a piloto”

O time conversou com a espanhola sobre os diversos procedimentos a serem adotados, mas não entrou em detalhes sobre o que ela deveria fazer para parar o carro. Elementos como quais marchas deveriam ser selecionadas, ou as velocidades ideais a serem adotadas, não foram mencionados. Ou seja, a equipe, segundo a investigação, “dependia da habilidade e experiência da piloto”. 

Então, durante a sessão, De Villota passou pelos cones e se aproximava da zona de garagem, tendo reduzido a 45 km/h. Com a velocidade baixa, os giros caíram para 4100 rpm, mas ela ainda havia deixado a segunda marcha engatada.

Em seguida, o carro ativou um sistema de proteção que sobe o giro do motor automaticamente para evitar que ele desligue, mas foi isso que fez com que a velocidade voltasse a subir. 

Foto: Reprodução/Twitter

Isso resultou em “uma luta do carro com a piloto”, como definiu a investigação. De Villota tentou usar os freios, reduzir da segunda para a primeira marcha, colocar em ponto morto e esterçar o volante. No entanto, as rodas dianteiras travaram com todos estes comandos. Então, o carro foi lançado em direção à traseira do caminhão, e foi ali que a colisão aconteceu. 

Uma breve disputa judicial

A família da piloto entrou na justiça contra a Marussia, até porque foi a equipe que posicionou o caminhão com a rampa perto da área da pista. Mas, em 2017, as duas partes entraram em acordo e a disputa jurídica foi encerrada. 

Maria de Villota teve uma passagem rápida pela F1, mas foi o suficiente para ela deixar sua marca. O seu legado inclui um livro que escreveu, chamado “A Vida é um Presente”, que foi lançado na semana seguinte à sua morte. Segundo a própria espanhola, o episódio do acidente lhe deu uma nova perspectiva sobre a vida e sobre as coisas que realmente importam.

“O acidente me deu uma nova perspectiva da vida, sobre as coisas que importam. Me ensinou que, para alcançar o que você quer, é preciso educar a si mesmo através de sacrifício e esforço.”

Maria de Villota (1980 – 2013)

Confira mais detalhes no vídeo especial sobre Maria de Villota:

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