Raikkonen estreou na F1 com 20 anos e pouquíssima quilometragem na base
(Foto: Divulgação)

Como Raikkonen gerou polêmica antes de sua estreia na F1

Em 2021, Kimi Raikkonen vai completar 20 anos de F1. Ele já tem o recorde de mais GPs na categoria, com 330 ao final da temporada de 2020. O de tempo entre a primeira e a última prova, porém, ainda é de Michael Schumacher, com 21 anos e 3 meses entre sua estreia no GP da Bélgica de 1991 e sua despedida a segunda e definitiva) no Brasil, em 2012.

De qualquer maneira, a longevidade de Raikkonen, um dos pilotos mais queridos pelos fãs nas últimas décadas, já surpreende muita gente, até pelo seu estilo de aparentar pouco apego à fama e tudo que cerca a F1 fora do cockpit. Esse tempo todo rendeu, inclusive, boas histórias. Algumas mais lembradas, outras nem tanto.

E talvez uma das mais curiosas é sobre a chegada de Raikkonen à F1. Você sabia que o finlandês criou uma grande polêmica na categoria, que gerou comentários e opiniões de todos os lados, antes mesmo de sua estreia? Pois é. A contratação de Raikkonen em 2001 foi marcada por protestos e muita vigilância ao piloto.

Não que ele tenha ligado muito, como os próprios resultados dele mostraram, com uma ascensão rápida e cheia de surpresas. Mas para contar essa história, precisamos voltar um pouco no tempo e contar quem era Kimi Raikkonen no ano de 2000.

Raikkonen de 20 anos: talento sem quilometragem

Naquela temporada, Raikkonen, ainda com 20 anos de idade, fazia seu primeiro ano completo nos carros de monoposto, competindo com destaque na F-Renault Britânica. O forte desempenho mostrado pelo finlandês fez com que seus empresários, David e Steve Robertson, entrassem em contato com Peter Sauber, argumentando que tinham um diamante bruto nas mãos. Basicamente, eles diziam que, se a equipe Sauber não fosse ágil e garantisse o finlandês logo, uma outra equipe inevitavelmente o faria.

Interessado, Sauber decidiu dar ao jovem Raikkonen uma sessão de testes, o que aconteceria em setembro, no circuito italiano de Mugello. Kimi atuou por três dias: no primeiro, usou a ocasião para se adaptar à F1, sobretudo pela força G imposta ao seu pescoço e o câmbio borboleta, que era uma novidade para ele. Mas, já no segundo dia, sob os olhares atentos de Peter Sauber, ele virou um tempo melhor do que havia feito naquela semana o titular do time Pedro Paulo Diniz. Isso deixou a Sauber bastante impressionada.

A equipe se preparava para mudanças para 2001. Seus dois pilotos estavam de saída: Mika Salo se juntaria ao projeto da Toyota, que faria um ano só de testes em 2001, enquanto Diniz iria para a Prost, para ocupar uma posição de executivo. A Sauber queria aproveitar a oportunidade para apostar em jovens: uma das vagas ficaria com Nick Heidfeld, que tinha uma temporada no currículo com a Prost. Já a outra tinha como favorito Enrique Bernoldi, piloto de testes da Sauber e que tinha apoio da Red Bull.

Só que o teste em Mugello colocou uma pulga atrás da orelha de Peter Sauber. O dirigente acabou convencido e resolveu que Raikkonen deveria ficar com o cockpit. O problema é que havia um obstáculo no caminho: a questão da superlicença. Naquela época, a emissão do documento não tinha um critério tão bem estabelecido como acontece hoje, mas a F1 não costumava dar a superlicença para pilotos que pularam F3000, Indy ou F3.

Raikkonen, àquela altura, já havia se sagrado campeão da F-Renault Britânica, mas tentaria chegar à F1 tendo somente 23 corridas de monopostos no currículo. O assuntou gerou bastante debate na F1.

Ralf Schumacher, da Williams, dizia que um piloto jamais deveria ser autorizado a saltar da F-Renault direto para a F1. Já o na época tricampeão Michael Schumacher, que também testava em Mugello quando Kimi guiou um F1 pela primeira vez, apostou que o finlandês era um campeão em potencial, mesmo que ele cometesse erros como todos cometem.

E mesmo com tanto debate, Peter Sauber estava seguro de que Kimi era o homem certo para a vaga, especialmente pela maturidade e velocidade que ele apresentou mesmo sendo tão jovem e inexperiente. Uma decisão final seria tomada no dia 7 de dezembro, em reunião especial da FIA.

A decisão da FIA que abriu as portas da F1 para o novato

O destino de Raikkonen foi decidido por uma votação da Comissão da F1 – que incluía membros das equipes, representantes da FIA e alguns dos grandes patrocinadores da categoria. A votação teve placar de 24 a 1 em favor de ceder a superlicença ao jovem piloto.

O único que votou contra foi Max Mosley, presidente da FIA. Ele temia que a presença de Kimi poderia causar riscos à segurança dos concorrentes. De acordo com o dirigente, “quando há um acidente causado pela presença de pilotos inexperientes, é ele que precisa dar explicações ao mundo sobre o que aconteceu”.

Sob muitos olhares críticos, Raikkonen mostrou maturidade e velocidade em sua primeira temporada na F1
Sob muitos olhares críticos, Raikkonen mostrou maturidade e velocidade em sua primeira temporada na F1 (Foto: Divulgação)

Mas a história ainda não tinha acabado. Raikkonen de fato estaria autorizado a competir, mas receberia apenas uma superlicença provisória, que seria revista a cada três meses. Caso tudo corresse bem, ele receberia a licença definitiva. Caso contrário, se ele provocasse algum acidente mais grave, teria o documento cassado e deixaria a F1.

Assim, Raikkonen chegou à abertura do campeonato de 2001, no dia 4 de março, em Melbourne, sob os olhos atentos de todo o mundo. O curioso é que ele era um dos quatro estreantes na Austrália, mas apesar de toda celeuma em torno de seu nome, ele nem era o mais jovem do grid. O isso por que finlandês é mais velho que Fernando Alonso, outro novato, e Jenson Button, que partia para sua segunda temporada.

Mas a inexperiência de Kimi se destacava, sobretudo em um circuito tão complicado como o de Melbourne. Na classificação, ele obteve o 13º lugar, três posições atrás do parceiro, Heidfeld. Na corrida, Raikkonen conseguiu escalar o pelotão em circunstâncias difíceis para receber a bandeirada em sétimo, sendo que apenas os seis primeiros pontuavam na época.

Só que a Sauber fez um protesto à direção de prova contra Olivier Panis, o quarto colocado, que ultrapassou Heidfeld sob bandeiras amarelas ainda no início da corrida. O francês da BAR sofreu uma punição de 25s, e isso promoveu Raikkonen para o sexto lugar. Depois de toda a controvérsia, o finlandês pontuava logo em sua corrida de estreia.  

Raikkonen admitiu que o resultado lhe deu uma satisfação especial, sobretudo por todos os questionamentos feitos por Max Mosley. Peter Sauber foi além e classificou a atuação de Raikkonen como “um milagre”. Mesmo assim, a situação não mudou e o piloto continuou com a superlicença provisória por algum tempo.

Raikkonen continuou progredindo e obtendo bons resultados, como dois quartos lugares, na Áustria e no Canadá, e um quinto em Silverstone. Isso obviamente colocou o piloto na mira das principais equipes da F1, e ele chegou a ser especulado na Ferrari. Em setembro de 2001, um ano após seu primeiro teste com a Sauber em Mugello, ele foi anunciado pela McLaren, substituindo o compatriota Mika Hakkinen, campeão pela equipe nas temporadas de 1998 e 99. Seria o começo de sua vida como piloto de ponta na F1, o que marcou uma das ascensões mais rápidas que a categoria já viu.

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