Quatro Rodas
Berger e Alboreto fazem dobradinha da Ferrari em Monza

Uma das vitórias mais emotivas da Ferrari veio quando ninguém esperava

Como em qualquer esporte, uma equipe com mais de 70 anos tem seus altos e baixos. E a Ferrari viveu muitos desses. O time está à beira de completar mil GPs na F1, mas enfrenta uma temporada muito dura, com um carro longe de brigar por qualquer vitória.

Sem dúvida nenhuma, a Ferrari é o time com mais torcedores dentro da F1. Seja por sua tradição, carros espetaculares dentro e fora das pistas, grandes pilotos, além, claro, da sensação de “representante nacional” para os italianos. Acima de qualquer piloto, a Ferrari vencer significa a Itália vencer no automobilismo.

Por isso tudo, quando a escuderia da pequena cidade de Maranello enfrenta tempos difíceis, seus resultados não ficam escondidos no meio pelotão. São questionados em grandes manchetes nos mais diversos idiomas de países que acompanham a F1 com atenção. E em vários desses momentos, o time também reagiu de forma inesperada.

O GP da Itália de 1988 é um desses casos. O modelo F1/87-88C não era um carro ruim. Bem pelo contrário. Não fazia feio. O problema é que naquele ano existia algo muito superior. A McLaren tinha o histórico MP4-4, que, com a incrível dupla formada por Ayrton Senna e Alain Prost, venceu as 11 primeiras corridas da temporada. Mas ganhou sobrando mesmo.

No dia 14 de agosto daquele ano, entre os GPs da Hungria (10ª etapa) e Bélgica (11ª), a Ferrari ainda perdeu seu grande líder, Enzo Ferrari. O fundador da marca morreu aos 90 anos. Mas seu time o honraria. Com uma boa dose de sorte, mas faria a melhor das homenagens que poderia, apenas algumas semanas depois, e dentro da pista.

O primeiro GP da Itália sem o Comendador

A etapa de Monza aconteceu no dia 11 de setembro, menos de um mês depois da morte do Comendador, como era conhecido Ferrari. É lógico que existia um grande sentimento e clima de homenagens neste primeiro GP da Itália sem o folclórico dirigente.

Mesmo assim, era difícil prever que a equipe brigaria por algo melhor do que um terceiro lugar para pelo menos levantar um troféu no pódio em frente aos seus fãs. Como era de se esperar, as McLaren fecharam a primeira fila com Senna na pole, seguido pelo companheiro, Prost, em segundo. A Ferrari fez a parte dela, mesmo a 0s6 do brasileiro, colocando seus dois carros na segunda fila. Gerhard Berger sairia em terceiro à frente de Michele Alboreto, este já a mais de 1s da primeira posição do grid na classificação.

Começou a corrida, e a dupla da McLaren foi embora. Na volta 30 das 51, Senna liderava seguido de perto por Prost e com Berger a mais de 23 segundos. Só que neste momento, a McLaren do francês começou a sofrer com problemas no motor Honda até que ele fosse obrigado a abandonar quatro giros depois.

Senna passou a ter 25 segundos de vantagem para as duas Ferrari e começou a controlar o ritmo por conta do consumo de combustível. Desta forma, a dupla da equipe de Maranello conseguiu diminuir bastante a diferença para o brasileiro na segunda metade da prova. Mesmo assim, não parecia que os carros vermelhos teriam tempo de encostar na McLaren, com Senna passando 4s9 à frente de Berger na antepenúltima passagem.

Só que aquele seria mesmo o dia da Ferrari. Na penúltima volta, Senna chegou na Variente del Rettifilo ao final da reta dos boxes para passar pelo retardatário Jean-Louis Schlesser, que fazia sua primeira e última corrida na F1, pela Williams. Em um lance esquisito, o francês parecia dar passagem para o brasileiro ao ficar do lado de fora do traçado, travou sua roda na primeira perna da chicane e quando Senna fechou para a linha normal da segunda parte da variante, foi acertado pelo novato. O brasileiro rodou e foi obrigado a abandonar.

Berger herdou a liderança, com Alboreto alguns segundos atrás. A reação dos torcedores em Monza foi de explosão quando o austríaco recebeu a bandeira quadriculada alguns minutos depois, com seu companheiro completando a dobradinha do time. A última vez que a equipe tinha conquistado um resultado desses no GP da Itália tinha sido em 1979, com Jody Scheckter e Gilles Villeneuve.

Claro que tanto Berger como Alboreto lembraram e homenagearam Enzo Ferrari nas entrevistas depois da prova. E o mar vermelho de torcedores tomou a pista para celebrar o triunfo, com bandeiras e faixas para o Comendador.

A McLaren não perderia mais nenhuma corrida até o final do ano, totalizando 15 vitórias de 16 possíveis. O título ficaria com Senna, o seu primeiro, e o campeonato de construtores com o time inglês, que somaria incríveis 199 pontos contra apenas 65 da vice, Ferrari, em uma época em que o vencedor de cada etapa recebia apenas 9 pontos. De qualquer maneira, certamente não existia momento e lugar melhor para a McLaren perder sua única prova em 1988.

Emoção para a Ferrari até depois da bandeirada

Os torcedores da Ferrari provavelmente só ficaram sabendo no dia seguinte pelos jornais, ou talvez nem isso, mas ainda existiria um pequeno drama reservado para o time durante a inspeção dos carros.

Os modelos com motores turbo tinham uma limitação diferente no tamanho no tanque de combustível, que era verificada pela FIA enchendo o recipiente com combustível. Se passasse de 150 litros, o carro seria desclassificado. Para os aspirados, o máximo era de 215 litros.

O carro de Berger recebeu uma quantia maior do que a permitida por três vezes. Apenas na quarta o tanque ficou cheio com 149,5 litros. O procedimento de repetir por diversas vezes o reabastecimento pelos comissários era padrão na época, já que durante o processo, poderiam existir questões como ar no sistema, vazamento ou algum outro problema. Mas certamente deve ter deixado muita gente preocupada no box da Ferrari.

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