(Foto: Keko Pascuzzi/Divulgação/PepsiCo)

Mariana Becker: “As histórias mais legais são quando as pessoas se revelam”

Com o fim da transmissão na Band da F1, que retorna à Globo em 2026, os espectadores devem deixar (pelo menos na transmissão de TV) de acompanhar as reportagens de Mariana Becker nos autódromos da categoria. A mudança é algo que está sendo bastante sentido por boa parte da comunidade que acompanha o Mundial mais de perto e comentada nas redes sociais.

Becker se formou em jornalismo na década de 90 e entrou na Globo em 1994. Desde então, cobriu diversas modalidades esportivas, incluindo as temporadas de 2002 e 2003 de surfe. Ela foi a primeira repórter a cobrir um dia da regata de volta ao mundo, atualmente Volvo Ocean Race, a bordo de um dos barcos correntes.

O gosto pelo automobilismo também logo apareceu quando ela participou das edições de 2000, 02 e 03 do Rally dos Sertões. Na primeira vez, como navegadora e nas duas seguintes, como pilota.

Pouco depois, a jornalista gaúcha se mudou para a Europa e tornou-se correspondente internacional da Globo. Neste período, ela cobriu diversos tipos de acontecimentos, como ataques terroristas na França e festivais de cinema de Berlim e de Cannes.

A partir de 2008, entre suas atribuições, Becker passou a ser uma das repórteres recorrentes do canal na cobertura da F1. Suas reportagens logo se tornaram algo rotineiro para quem acompanhava o campeonato.

Quando a emissora carioca deixou de transmitir o Mundial no final de 2020, ela também deixou o canal. Becker foi contratada então pela Band, nova casa da F1 no Brasil.

Além de ser a principal repórter da emissora nas transmissões, ela também se mostrou bastante ativa nas redes sociais, abrindo o leque de possibilidades para reportagens, entrevistas e histórias do automobilismo.

Além disso, ela logo se tornou uma referência para novas gerações de mulheres que começaram a acompanhar a F1, um público que aumentou bastante nos últimos cinco anos.

Durante a semana do GP de São Paulo de F1, em novembro, o Projeto Motor aproveitou um evento de um patrocinador da categoria para uma conversa com Backer sobre cobertura da F1, jornalismo nos novos tempos e carreira.

Confira o bate-papo do Projeto Motor com Mariana Becker:

Projeto Motor – Durante a sua carreira, houve muitas mudanças não só no automobilismo, mas também no jornalismo e na mídia em geral. O que você sentiu nesse tempo que você teve que se adaptar a coisas que mudaram na cobertura?

Mariana Becker – Na verdade, essas mudanças pra mim vieram só pra facilitar e pra melhorar o meu trabalho. Na verdade, eu já tinha conteúdo, vontade e quantidade de histórias e de coisas pra mostrar que eu não conseguia mostrar porque o mundo era diferente. Quando o mundo foi mudando com as mídias sociais, a forma de ver o jornalismo e de contar histórias foi mudando. Pra mim, foi uma vazão do que eu já sentia, do que eu já via, observava e que eu tinha vontade de contar.

Então, eu passei a contar pra uma galera coisas que eu contava só pra quem me conhecia, meus amigos e tal. Ou gente que gostava de automobilismo ou mesmo de viagens perguntava. Com a vinda desses canais todos… E de você ter uma liberdade maior da forma de falar, do que mostrar e de como mostrar.

Não foi assim que vi uma coisa e vou ter que me adaptar. A impressão que eu tive que alguém fez assim um buraquinho e eu aproveitei. Foi saindo todo resto de dentro.

PMotor – Foi uma coisa orgânica.

MB – Total. Foi um alívio. Sabe, eu tenho tanta coisa pra mostrar, tanta coisa que eu quero falar, e aí só alguém abriu as portas.

PMotor – Eu lembro, por exemplo, na pandemia que você fez entrevistas bem legais nas redes sociais. Tem muita gente, talvez da imprensa tradicional, que às vezes ainda briga um pouco com as redes sociais. Mas você vê como um canal que dá pra fazer também, não só pelo lado influencer e tudo mais, mas um jornalismo legal usando as redes sociais?

MB – Dá, dá muito pra fazer. Eu acho que daí o único problema assim… Eu acho que não tem como não fazer jornalismo usando as redes. Mas daí entra só no quesito da sua responsabilidade, da sua formação como jornalista. De você entender que aquilo que você está falando vai ter eco na vida das pessoas. Você entender essa responsabilidade e ser ensinado por alguém numa universidade ou num curso. Você entender que “ó, como muda a vida do cara se você deu uma informação errada”.

Como é que se faz pra dar certo? Você ouve primeiro esse. Aí, você ouve o oposto. Então fazer o jornalismo, tem que continuar tendo um certo nível de excelência. Você pode escolher querer fazer um jornalismo talvez mais popular, menos popular, mais específico, menos específico. Mas o grau de responsabilidade tem que estar na tua cabeça.

Então, eu totalmente acho que dá. E acho que dá pra se complementar também. Você pode fazer um jornalismo mais tradicional e ter uma visão e um jeito de se comunicar também diferente pra complementar aquilo. Não como a única forma de dar e de receber informação. Eu sempre digo: checou a fonte?  Quem é que te disse isso?  “Ah, fulano”. Mas e aí? Já ouviu o outro lado?

Então, eu acho que é um mundo que não dá para reclamar. Você pode reclamar para melhorar em termos de responsabilidade e de espaço, mas eu acho que é o mundo de todos.

PMotor – Uma coisa que mudou muito também nos últimos anos na F1 é o crescimento muito expressivo do público feminino. Hoje, os números falam em 40% do público.

MB – Até mais em alguns lugares.

PMotor – Exato. E lógico que tem várias repórteres mulheres que passaram pela F1. Mas acho que você conseguiu trabalhar muito esse lado de mostrar como a mulher, num meio muito masculino, pode fazer um trabalho muito legal e conseguir um espaço. Como é que você vê esse feedback hoje? Pois a gente vê as meninas mais novas olhando pra você com uma referência. Como é que você vê essa resposta?

MB – Eu fico honrada. Fico superfeliz. Cada vez que alguma delas vem pra mim e diz “ah, eu me inspiro em você”, eu também sinto o peso da responsabilidade de não fazer nenhum grande erro. Erro, a gente faz, todo mundo faz. Mas de não cometer nenhum erro grave assim.

E ao mesmo tempo eu fico supercontente. Num ambiente como esse que a gente tá hoje [entrevista foi em um evento de patrocinador da F1 com jornalistas e influenciadores], se a gente fizesse isso, há 5 anos atrás, ia ter eu e alguma outra pessoa que estivesse trabalhando aqui de mulher. Ia ser só homem. Não ia ter mulher. Ou porque não conseguiu chegar perto do automobilismo ou porque chegou e não tinha coragem de estar aqui.

Mariana Becker se tornou referência para a nova geração feminina na cobertura da F1 (Foto: Marcelo Machado/Divulgação/PepsiCo)
Mariana Becker se tornou referência para a nova geração feminina na cobertura da F1 (Foto: Marcelo Machado/Divulgação/PepsiCo)

Então, é meio inacreditável pra mim, que agora, em 2025, essas meninas que estão aqui, as meninas que estão nas mídias sociais ou começando a ir ao autódromo, estejam desbravando. Você está desbravando um gosto?! Uma coisa é você desbravar profissionalmente, sei, lá eu… Ah pô, não tinha pilota porque achava-se que as mulheres não tinham força física para isso… Outra coisa é um gosto. Desde quando?! “Ah, não posso ver tênis pelo ambiente…” Como assim?! Então não posso comer feijão?

Então, é inacreditável que isso esteja acontecendo, e fico muito feliz que todo mundo pode fazer o que tá fim. Gosto do automobilismo, então eu vou. “Ah, mas eu não entendo”. E daí?! Alguém vai pagar a tua conta? Você vai responder um teste no final? Tô lá porque eu tô a fim de ver. Eu não tenho que entender. Eu tenho que gostar. Se eu entender e gostar, beleza.

PMotor – Neste seu tempo na F1, qual foi a história que você mais gostou de contar?

MB – É muito difícil te dizer. Às vezes eu fico em casa pensando “se me perguntar qual o mais legal? Qual o mais mais?”. Eu nunca sei.

Mas eu posso te dizer o seguinte: as histórias mais legais pra mim são quando as pessoas se revelam. Quando eu sinto que o cara ou a menina tá se revelando. Revelando uma coisa que nunca revelou antes. Que ele tá se sentindo tão à vontade comigo que ele tá contando uma coisa que as pessoas em casa vão passar a ver ele de outra forma. Vão passar a entender alguma coisa que aconteceu na vida dele de outra forma. Isso pra mim assim me dá um prazer tão grande. Mais do que o furo, sabe.

É quando você vê o Lando [Norris] ou sei lá quem te dizer “pô, eu tô fazendo terapia porque eu não tô conseguindo aguentar a pressão. Tá difícil.” Agora, já virou uma coisa comum. Mas antes, não era. Então você conseguir fazer o cara se abrir. Isso me dá um prazer imenso. Mostrar que o cara que é super-homem é humano também. Ou que o grande evento tem 800 pessoas para levantar aquele pneu e deixar daquele jeito. Que aquilo tem que ser pintado assim.

Você revelar o que faz daquilo que a pessoa tá só vendo. O que tá por trás daquilo que a pessoa tá vendo. E esse é o meu papel como jornalista. O cara em casa tá vendo e eu que estou lá tem que dizer “olha aqui, olha na frente”. Esse é o meu papel.

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