Circuito de Kyalami foi a casa mais tradicional da F1 na África
(Foto: Divulgação)

Em busca do quinto continente: circuitos na África para a F1

Com corridas na Europa, Ásia, Oceania e Américas, já faz um tempo que a F1 deve uma visita à África para voltar a ter um calendário que passe pelos cinco continentes habitáveis do globo. Isso não foi algo raro na categoria e aconteceu até 1993, última vez que o Mundial passou pela África do Sul.

Em 2019, informações de que a Liberty estaria estudando opções para correr no continente africano já circulavam. E recentemente, após ser questionado em um vídeo sobre locais que a F1 deveria ir, Lewis Hamilton deu mais uma cutucada na história.

“Acho que deveríamos levar a atenção de volta à África e realmente destacarmos o lugar lindo que é, esse é o lugar mais importante que devemos ir. Precisa acontecer onde não é tudo sobre dinheiro. É sobre as pessoas. No negócio, este nem sempre é caso”, declarou o hexacampeão.

Bem, mas onde a F1 poderia correr na África? As opções não são muitas. E, ao contrário do que pede Hamilton, sim, é preciso dinheiro. Seja para pagar as taxas da categoria, para construir ou reformar um autódromo ou promover o evento. Por isso tudo, mesmo que desde a época de Bernie Ecclestone a vontade, que segue grande com a Liberty, esteja lá, a equação é difícil de se fechar.

Pistas na África que poderiam receber a F1

Dos circuitos existentes hoje no continente, apenas dois estão na longa lista de pistas licenciadas pela FIA para receberem competições internacionais: Kyalami e Marraquexe. Ambas têm grau dois, o que significa que hoje não poderiam sediar um GP de F1, mas também não estariam longe. Com uma obra de porte médio para adequação de alguns pontos (a entidade não diz quais), elas poderiam evoluir para o grau um.

A pista marroquina já recebe a Fórmula E e entre os circuitos da categoria é o que aparece com a melhor graduação na lista da FIA, já que a categoria é bem menos exigente que a F1. O traçado não permanente que usa vias locais, apesar de ser claramente um dos melhores do campeonato de elétricos, no entanto, claramente precisaria de alterações para receber a F1.

Desde sua inauguração, em 2009, a pista vem recebendo constantes melhorias, e já sediou etapas do Mundial de Turismo (antigo WTCC). Desde 2016, ela tem um trecho construído especificamente para corridas, o que a transforma em um traçado misto de rua e permanente. Mesmo assim, zebras e sarjetas estão claramente fora do padrão da F1. De qualquer maneira, a Liberty já admitiu que mantém conversas com os administradores da pista e autoridades locais para a possibilidade de um GP no futuro.

A grande favorita hoje para organizar um GP seria mesmo Kyalami, tradicional praça na África do Sul. O autódromo já recebeu a F1 em 20 oportunidades desde 1967, sendo a última em 1993.

O circuito foi comprado em 2014 pelo empresário Toby Venter, que entre outros negócios é proprietário da “Porsche África do Sul”. Ele investiu pesado na atualização do autódromo nos últimos anos e conseguiu elevar a pista para o grau dois da FIA recentemente. A modernização contemplou um recapeamento total, mudanças no traçado, atualização de itens de segurança como barreiras e áreas de escape para padrões internacionais, melhora da área para espectadores, reconstrução quase que total do prédio dos boxes e paddock, entre outros.

Isso lhe deu visibilidade e a chance para atrair campeonatos internacionais. Em 2019, Kyalami já sediou uma etapa do IGTC, competição internacional de carros GT3, e tem acordo fechado para receber o Mundial de Endurance (WEC) em 2021.

Toda essa movimentação, claro, chamou também a atenção da Liberty, que abriu um canal de conversas com Venter e autoridades locais sobre as possibilidades de a África do Sul voltar a ser sede de uma etapa da F1. Claro que a negociação ainda é bastante preliminar e quase que protocolar, já que a Liberty mantém conversas com diversos países e pistas pelo mundo independente de projetos de curto, médio ou longo prazo. Mas Kyalami, até por sua movimentação recente, claramente seria uma alternativa bastante válida.

O misterioso projeto no Zimbábue

Em 2018, surgiu a notícia que um novo autódromo seria construído no Zimbábue e que ele poderia se tornar uma opção viável para a F1 na África. O assunto esfriou por um tempo, mas no começo de 2020, a imprensa local começou a falar de novo do projeto.

Pelo que pudemos apurar em sites do país, o investimento seria feito por um fundo de investimentos de Dubai. A ideia é construir uma zona de entretimento e turismo próxima à cidade de Victoria Falls, onde já existe um famoso parque de proteção em que visitantes podem conhecer as Cataratas de Victoria, além de fazer passeios de safári.

O empreendimento teria como inspiração o autódromo de Abu Dhabi, o que incluiria um grande hotel, um parque de diversões temático, shopping e, claro, o circuito de corridas com 5,4 km de extensão já com graduação um da FIA, um kartódromo e uma pista para competição de dragster de 1,2 km. Tudo dentro de um grande terreno de 500 hectares.

Segundo relatos da imprensa local, a empreitada já estaria em andamento, com projetos sendo desenvolvidos, processos para licenças de construção caminhando e até mesmo primeiras obras envolvendo estradas de acesso acontecendo na região.

É claro que construir uma estrutura dessas tão próximo a um parque ambiental, em que vivem animais silvestres e uma incrível flora local, não é algo simples. E deve até mesmo ser questionado ao máximo para que não aconteça desmatamento e desequilíbrio ambiental.

A história da F1 na África

Ainda na época dos Grande Prêmios pré-II Guerra, corridas na África aconteciam com certa frequência recebendo grandes nomes do automobilismo europeu. Países como Líbia, Marrocos e África do Sul receberam diversos eventos grandes.

Mesmo depois da formação do Mundial, correr na África também não seria algo raro para a F1 e chega a ser curioso como a categoria virou suas costas para o continente nas últimas três décadas. O Marrocos foi o primeiro país a receber uma etapa da categoria, em 1958, no desafiador e perigoso circuito de Ain Diab, próximo a Casablanca.

A corrida foi vencida por Stirling Moss, com um Vanwall, e decidiu do campeonato daquele ano em favor de Mike Hawthorn, da Ferrari. O evento também seria marcado pela morte de Stuart Lewis-Evans após sérias queimaduras em um acidente em que seu Vanwall pegou fogo, no fechamento de uma das temporadas mais trágicas da história da F1.

A F1 voltaria poucos anos depois ao continente, em 1962, agora na África do Sul. O circuito de East London recebeu a categoria por três anos até 1965, pulando a temporada de 64. O local já tinha sediado provas internacionais no período pré-II Guerra e suas atividades durante a década de 50 foram realizadas em um novo traçado de rua, próximo à costa, sempre com enorme presença de público.

A partir de 67, no entanto, que o país e o continente encontraram sua casa quase que definitiva em Kyalami, que passaria a receber constantes etapas da F1 até os anos 90, com alguns hiatos. Um deles, após 1985, causado por grande pressão internacional por conta do regime do apartheid na África do Sul. A F1, por anos, foi o único esporte a realizar competições no país ignorando o problema.

As últimas etapas no local aconteceriam em 1992 e 93, após uma reforma que mudou quase que completamente o traçado e a estrutura do autódromo.

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