F1 FORA DO DOMINGO corridas de sabado e reveillon

F1 fora do domingo: as corridas que quebraram a tradição

F1 é quase sinônimo de domingo. Mas a história da categoria está cheia de exceções — e, em 2026, vamos temos mais uma delas, com o GP do Azerbaijão realizado em um sábado.

Pode até parecer estranho, mas não faz muito tempo que também vimos Las Vegas, Bahrein e Arábia Saudita fugindo do domingo. E, se muita gente acha que isso é invenção moderna, a verdade é que a F1 já correu diversas vezes aos sábados e dias de semana — incluindo até uma sexta-feira de Ano-Novo.

O GP do Azerbaijão de 2026 é o de número 75 na história da F1 fora de um domingo. Juntas, essas corridas representam 6,5% de todas as provas oficiais da história do Mundial.

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A primeira corrida da história da F1 foi num sábado

Realmente, assistir a uma corrida de F1 que não seja de domingo é algo estranho. Mas isso não só aconteceu mais vezes do que muita gente imagina, como, curiosamente, esse foi o caso de uma das provas mais icônicas da história: justamente a que inaugurou a F1.

Em 13 de maio de 1950, um sábado, o campeonato mundial de F1 nasceu com uma corrida em Silverstone.

Na Grã-Bretanha pós-Segunda Guerra, o domingo era sagrado: leis herdadas do século 18 reservavam o dia ao culto religioso e proibiam entretenimento pago. Resultado: eventos esportivos em geral eram mais comuns aos sábados.

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Eventos esportivos na Grã-Bretanha eram concentrados nos sábados

E essa situação perdurou por décadas. O GP da Grã-Bretanha manteve essa tradição de 1950 até 1975. Foram 26 edições consecutivas que aconteceram aos sábados. Isso começou a mudar apenas em 1976, quando aconteceu a primeira edição num domingo.

Depois, até 1983, houve um revezamento, seguindo a alternância entre os circuitos que sediavam a prova. Nos anos em que o GP da Grã-Bretanha era realizado em Brands Hatch, acontecia de domingo; e, nas temporadas em Silverstone, de sábado.

A partir de 1984, em Brands Hatch, todas as etapas britânicas passaram a ser disputadas aos domingos. O primeiro GP de domingo em Silverstone veio em 1985.

Indianápolis 500 na F1: 11 anos e só um domingo

E se você acha que correr de sábado é estranho, que tal correr no meio da semana? Entre 1950 e 1960, as 500 Milhas de Indianápolis fizeram parte do calendário oficial da F1.

É verdade que a prova fazia parte do cronograma do campeonato mais por questões políticas. A prova até recebeu alguns pilotos e equipes da F1 neste período, mas sempre manteve seu regulamento próprio. Ou seja, carros de F1 mesmo nunca foram utilizados na etapa do oval americano.

De qualquer maneira, era uma prova sancionada e que contava pontos para o Mundial. E aí entrava uma questão muito particular do evento: a Indy 500 sempre corria no Memorial Day — ou Dia da Memória, em português —, feriado nacional nos Estados Unidos que homenageia os militares que morreram em serviço ou combate pelas Forças Armadas do país, celebrado anualmente no dia 30 de maio.

As 500 Milhas de Indianápolis seguiam então o feriado, e a prova podia cair em qualquer dia da semana. Assim, as 11 edições válidas pelo Mundial aconteceram em espalhadas por todos os sete dias da semana.

Curiosamente, das provas que contaram para o calendário da F1, apenas uma aconteceu em um domingo, em 1954.

As 500 Milhas de Indianápolis deixaram a programação do Mundial depois de 1960. Suas edições seguiram sendo realizadas no dia 30 de maio, independentemente do dia da semana, até que uma nova lei americana entrou em vigor no começo dos anos 70.

O Congresso passou os feriados federais dos Estados Unidos para segundas-feiras, com o objetivo de criar finais de semana prolongados todos os anos para os trabalhadores. Assim, a partir de 1974, a Indy 500 resolveu fixar sua prova para os domingos que antecediam o Memorial Day, que cai sempre na última segunda-feira de maio.

O costume do domingo sem esportes

Mas, mesmo depois de Indianápolis deixar o calendário, a F1 ainda teve cronogramas modificados na América do Norte por conta de costumes locais.

Até o começo dos anos 70, restrições impostas por leis e códigos de várias cidades — principalmente dos Estados Unidos, Canadá e Grã-Bretanha — protegiam o domingo como dia sagrado ou de descanso obrigatório. E, mesmo na ausência de uma norma oficial, as populações destes países ainda tinham forte restrição cultural a eventos esportivos aos domingos.

Por isso, o GP dos Estados Unidos de 1959, em Sebring, e o do Canadá de 1969, em Mosport, foram realizados em sábados, com o intuito de respeitar a vontade das comunidades locais e garantir um público maior nas arquibancadas.

Feriados europeus: Pentecostes e Dia do Trabalho

Na Europa, os feriados também mexiam com o calendário. Os promotores viam essas datas como boas oportunidades para aproveitar o público que viajava pelo continente nestas folgas e encher as arquibancadas.

Os organizadores do GP da Holanda, por exemplo, aproveitaram o feriado religioso de Pentecostes e realizaram as edições de 1958, 1960 e 1961 em segundas-feiras, em Zandvoort — circuito conhecido por ficar próximo a um balneário que sempre recebe muitos turistas.

Com a mesma visão, o GP da Espanha de 1972, em Jarama, na cidade de Madri, também foi realizado em uma segunda, 1º de maio, feriado do Dia do Trabalho.

África do Sul: a campeã das exceções

Mas poucos GPs fugiram mais do cronograma tradicional do que o da África do Sul. Por lá, o sábado era o “dia do esporte”, enquanto o domingo ficava reservado à igreja, por lei e por tradição.

Foi assim que o GP sul-africano virou sinônimo de corrida fora de domingo: entre 1962 e 1985, nenhuma das 21 corridas válidas do campeonato na África do Sul aconteceu num domingo.

E os organizadores foram além. Em 1967 e 1968, as provas aconteceram em segundas-feiras — 2 de janeiro e 1º de janeiro, em pleno Ano-Novo.

Houve ainda a edição de 1º de janeiro de 1965, que caiu numa sexta-feira. Os pilotos comemoraram o Réveillon e, horas depois, entraram na pista para abrir o campeonato mundial em East London.

O GP da África do Sul depois se estabeleceu como uma prova sempre aos sábados até 1985 — última corrida da F1 no país durante o regime de apartheid, sistema que promovia de forma oficial a segregação e a discriminação racial.

A categoria retornou à África do Sul no início da década de 90, quando as primeiras leis que sustentavam o apartheid começaram a ser revogadas, para a realização de duas etapas, em 1992 e 1993. Foram as primeiras e únicas corridas do Mundial na África do Sul realizadas de domingo.

Las Vegas: a exceção virou negócio

E, para falarmos de corridas de F1 aos sábados, Las Vegas precisa ser mencionada com destaque. Apesar de poucas etapas terem sido realizadas na cidade do entretenimento dos Estados Unidos, a tradição de correr aos sábados já dura mais de 40 anos.

Em 1981 e 1982, os GPs foram organizados em um circuito montado no estacionamento do hotel e cassino Caesars Palace, um dos mais emblemáticos da cidade.

Como o sábado normalmente era a noite de maior movimento de apostadores, a ideia dos promotores foi realizar a corrida no sábado à tarde, para já atrair a atenção do público e, ao mesmo tempo, liberar o fluxo de carros nos arredores do cassino e no estacionamento logo em seguida — sem atrapalhar o movimento da casa de entretenimento no seu melhor dia.

Em 2023, quando a F1 voltou a Las Vegas, agora em um circuito de rua de estilo mais tradicional, o sábado voltou junto. Mas o motivo mudou um pouco…

A questão ainda era comercial, porém, agora, voltada para a audiência da TV. A corrida larga às 22h local — o horário nobre da TV americana — e vira manhã de domingo na Europa.

Além disso, a prova noturna obviamente abriu a oportunidade de mostrar ao mundo o que Las Vegas tem de mais icônico: suas luzes e shows luminosos, como o da famosa arena Esfera.

O atual CEO da F1, Stefano Domenicali, chamou o horário de “perfeito” e disse que antecipar seria um “erro total”. Funcionou: a prova de 2023 foi vista por 1,3 milhão de americanos, e a de 2025 bateu recorde, com 1,5 milhão.

Questões comerciais sempre foram importantes para as provas em Las Vegas da F1 acontecerem aos sábados
Questões comerciais sempre foram importantes para as provas em Las Vegas da F1 acontecerem aos sábados (Foto: Mark Thompson/Getty Images/Mercedes)

Bahrein e Arábia Saudita 2024: o Ramadã

No início de 2024, a F1 precisou fazer um ajuste em suas duas primeiras etapas do campeonato por motivo religioso.

O Ramadã, o mês sagrado muçulmano, começaria no pôr do sol de domingo, 10 de março. Para respeitar a tradição, o GP da Arábia Saudita foi antecipado para o sábado, 9 de março. E, como o regulamento exige uma semana de intervalo entre etapas, o GP do Bahrein, na semana anterior, também foi para o sábado, 2 de março.

Desta forma, pela primeira vez em décadas, a temporada abriu com duas corridas fora de domingo.

Azerbaijão 2026: o luto nacional

E isso tudo nos traz de volta ao presente, quando voltaremos a ter uma corrida da F1 fora do domingo. Em 2026, o GP do Azerbaijão acontece num sábado, por conta do Anım Günü — o Dia da Memória no Azerbaijão.

A data homenageia os militares e civis que morreram na Segunda Guerra de Nagorno-Karabakh, em 2020 — um conflito entre Azerbaijão e Armênia, de 44 dias, que começou em 27 de setembro.

Por decreto presidencial, a data passou a ser um dia de luto para o país, em que, ao meio-dia, todo o Azerbaijão respeita um minuto de silêncio.

A natureza festiva de um evento esportivo como o GP de F1 seria incompatível com o clima desse domingo. Por isso, a pedido do promotor da prova e do governo, a FIA e a F1 moveram a corrida para o sábado, 26 de setembro.

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