A vez em que Barrichello quase trocou a F1 pela Indy nos anos 90
Rubens Barrichello competiu na F1 entre 1993 e 2011, e chegou a ter por vários anos o recorde de GPs disputados. Mesmo que sua carreira tenha sido longa e bem-sucedida, houve um momento em que foi ponderada uma mudança de ares, justamente pela dificuldade do brasileiro em ganhar espaço.
Em 96, quando não estava no seu melhor momento com a Jordan, Barrichello flertou com a CART, uma das vertentes de uma Indy que havia acabado de se dividir nos Estados Unidos. O plano teve a bênção de Emerson Fittipaldi, que se prontificou a intermediar o acordo. Mas o que fez com que Barrichello cogitasse deixar a F1? É essa a história que o Projeto Motor conta a seguir.
O início promissor: Donington Park e o radar dos grandes times
Desde seu começo na F1, em 1993, Barrichello conseguiu construir aos poucos uma forte reputação. A bordo da Jordan equipada com os motores Hart, o brasileiro se destacou em seu ano de estreia por conta de sua atuação no GP em Donington Park, quando andou entre os primeiros na chuva, os pontos com o quinto lugar no Japão, e pelo fato de ter se imposto sobre seus companheiros de equipe, especialmente os veteranos Thierry Boutsen e Ivan Capelli.
Por isso, já em 94, seu nome começou a rodar pelo mercado. Barrichello chegou a ser especulado como um potencial substituto de Ayrton Senna na Williams após o acidente fatal do tricampeão, mas foi com a McLaren que as conversas de fato avançaram. Rubinho negociou com o time de Ron Dennis para a temporada de 95, só que o acordo barrou em dois empecilhos principais que impediram que isso fosse concretizado: o primeiro é que a McLaren queria testá-lo na pista antes de definir qualquer contratação, e o segundo, o mais importante, é que a proposta da equipe não dava garantias de titularidade. Nós já contamos essa história de forma bastante detalhada em outro conteúdo.
HISTÓRIA COMPLETA: A incerteza que melou a ida de Barrichello para a McLaren em 1995
A aposta na Peugeot que travou a ascensão

Sendo assim, Barrichello optou por renovar o contrato com a Jordan para 95, apostando suas fichas na nova parceria de fábrica que a equipe iniciaria com a Peugeot. Mas, mesmo que o brasileiro tenha esbanjado otimismo, o conjunto era frágil e não tinha a velocidade para competir com os ponteiros. Então, de uma forma geral, a temporada de 95 freou a ascensão de Barrichello na F1, como também já contamos em detalhes por aqui.
Apesar do ano difícil, Barrichello ainda tentou consolidar um movimento para levá-lo à ponta do grid em 96. O mercado estava agitado com a transferência de Michael Schumacher para a Ferrari, então Rubinho foi considerado um potencial parceiro do alemão em 96. No entanto, ele não era a primeira opção, então a Ferrari acabou fechando com Eddie Irvine, que era justamente o seu companheiro de equipe.
Outra possibilidade era substituir o campeão mundial na Benetton — Barrichello manteve sérias conversas e esteve perto de fechar um acordo, mas, de última hora, a equipe mudou de direção e contratou Gerhard Berger. Assim, sem outras opções atrativas, Barrichello mais uma vez renovou com a Jordan por um ano, com a opção de extensão por mais uma temporada.
O ano de pressão na Jordan
Era um momento de grande importância para a Jordan, que, em 96, caminhava para o segundo dos três anos de contrato que tinha com a Peugeot. Ela também teria a bordo um novo patrocinador principal, a tabagista Benson & Hedges, que até mudou as cores do carro para o amarelo que se tornaria icônico. Então, com uma aliança de fábrica e as finanças em dia, seria fundamental para a equipe dar um salto de competitividade, com o objetivo de se juntar ao pelotão da frente e, quem sabe, conquistar sua primeira vitória.

Não foi assim que as coisas se desenrolaram. Ao longo do ano, Barrichello conseguia ser um pouco mais competitivo em sessões de classificação, com destaque para a primeira fila no GP do Brasil (largou em segundo, apenas atrás do pole position Damon Hill). Mas, em corridas, pontuava de maneira esporádica, de modo que o carro da Jordan andava atrás das favoritas Williams, Ferrari e Benetton, além da McLaren, sendo que ela viu até a Ligier surpreender e vencer em Mônaco.
Isso gerou um ambiente de intensa pressão para a Jordan, já que tanto a Peugeot como a nova patrocinadora almejavam resultados mais competitivos. E, na fase intermediária da temporada, começava a se cogitar a possibilidade de haver uma repaginada total da dupla de pilotos. A montadora francesa pressionava por um nome de seu país, como Olivier Panis ou Jean Alesi. Outros nomes ainda eram especulados ou almejados (como Heinz-Harald Frentzen, Jan Magnussen, Jos Verstappen ou até Mika Hakkinen), mas foi no mês de setembro que alguns passos concretos foram tomados rumo a uma definição.
Ralf Schumacher, Damon Hill e o mercado de setembro
A Jordan confirmou em um de seus cockpits o nome de Ralf Schumacher, irmão mais novo de Michael Schumacher, que estrearia na F1 depois de conquistar o título da F-Nippon no Japão. No mesmo mês, a Williams anunciou que Damon Hill, que liderava o Mundial e estava caminhando rumo ao título, não permaneceria na equipe em 97. Com um nome cobiçado livre no mercado, Eddie Jordan começou a mover nos bastidores uma força-tarefa para atrair o inglês para a outra vaga.
Barrichello, que não teve a cláusula de renovação de seu contrato acionada, ficou na sombra dos planos da Jordan. E ele começou a estudar outras opções para 97: por exemplo, ele havia sido sondado pelo projeto de renovação da Arrows, entrou na lista imediata de opções da Sauber, e também manteve conversas com a Tyrrell. No entanto, diante da improbabilidade de se transferir para uma equipe de ponta, uma outra alternativa passou a ganhar espaço: uma transferência para a Indy, nos Estados Unidos.
A Indy dividida e a tentação americana com Fittipaldi
O ano de 96 foi o primeiro em que a Indy esteve dividida. A IRL tinha a seu favor as 500 Milhas de Indianápolis em seu calendário, mas era a CART que contava com uma estrutura mais competitiva, com a presença de diferentes fornecedoras de motor, pneus e chassi. A categoria também estava em uma crescente de popularidade no Brasil, chegando a ter oito pilotos brasileiros, transmissão em TV aberta no SBT, e uma etapa em território nacional, no novo oval de Jacarepaguá.

Assim, desanimado com as suas possibilidades na F1, Barrichello admitiu que cogitava “correr o risco na Indy” para “ressurgir” e “reabrir seu espaço”. Ou seja, ponderou fazer um plano semelhante ao de seu antigo rival Christian Fittipaldi, que, ao fim de 94, trocou a F1 pela Indy para dar um respiro em sua carreira e, quem sabe, retornar ao Mundial nos anos seguintes — o que, no caso dele, não aconteceu.
E quem entrou em cena foi Emerson Fittipaldi. O campeão da F1 e da Indy reforçou que Barrichello não vinha conseguindo mostrar o seu talento, e se ofereceu para intermediar um eventual acordo com a Hogan/Penske, equipe pela qual ele mesmo competiu até meados de 96, antes do grave acidente que sofreu em Michigan. Fittipaldi e Barrichello chegaram a se reunir em São Paulo para arquitetarem a viabilidade de um teste em pista no mês de outubro, para ver se Rubinho iria gostar da experiência e, então, planejar uma mudança em definitivo.
Mas, durante essas conversas, uma nova perspectiva se abriu. A nova equipe Stewart, encabeçada pela lenda Jackie Stewart e seu filho, Paul, organizava as últimas peças para sua estreia na F1 em 97. O plano A para ter em seu cockpit era Damon Hill, que também era cobiçado pela Jordan, mas o inglês surpreendeu e acabou fechando com a Arrows. Então, a Stewart voltou os seus esforços a Barrichello, um piloto cujo perfil agradava por aliar experiência com juventude.
O brasileiro ficou impressionado com a estrutura do novo time — especialmente com as instalações, na Inglaterra, o apoio oficial da Ford, o conjunto de patrocinadores, a proposta de correr com os novos pneus Bridgestone e, é claro, a presença de uma figura como Jackie Stewart. Assim, Barrichello garantiu sua permanência na F1 com um contrato de três anos, o que foi confirmado logo após o término da temporada de 96. Durante o anúncio, destacou que a mudança “foi um passo para frente em sua carreira”, e alfinetou a sua agora ex-equipe, dizendo que a Jordan “cresceu, mas continua pensando pequeno”.

E a Jordan? Mansell, Fisichella e a espera por Hill
Quanto à Jordan, a equipe não desistiu do plano de contratar um medalhão depois de perder Damon Hill. Ela flertou com a ideia de trazer Nigel Mansell de volta à F1, mas o acordo com o campeão de 92 não foi para frente depois de alguns testes, então ela acabou contratando Giancarlo Fisichella, que fez com Ralf Schumacher uma dupla jovem em 97. A desejada chegada de Hill aconteceria só em 98.
E foi nesses três anos de Stewart que Barrichello de fato ganhou um novo impulso em sua carreira, o que o lançou, a partir de 2000, para a mudança para a Ferrari — onde viveu os seus capítulos de maior sucesso.
Já em 2012, quando esteve sem espaço na F1, concretizou a mudança para a Indy, quando a categoria americana já vivia um momento bem diferente daquele da década de 90.
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