(Foto: Jerry Andre / LAT / Pirelli)

Limite de pista na F1: por que existe a regra e o motivo da polêmica

Uma das discussões que mais cansam os fãs na F1 é sobre o limite de pista. Voltas deletadas nas classificações, ultrapassagens revertidas e até punições nas corridas se tornaram rotina na categoria nos últimos anos por conta desta questão.

No GP de Áustria de 2022, o fator ganhou bastante destaque. Apenas na corrida de domingo, os comissários apontaram 43 infrações que resultaram que tempos de voltas deletados, além da punição com cinco segundos para quatro pilotos:  Zhou Guanyu, Lando Norris, Sebastian Vettel e Pierre Gasly.

E além de terem que pagar a penalização em tempo durante a prova, os quatro ainda receberam um ponto em suas superlicenças. Esta pontuação tem validade de um ano, tempo no qual o piloto não pode somar 12 tentos. Caso contrário, ele é suspenso automaticamente de uma etapa da F1.

Na sexta-feira do GP da Áustria, um caso em especial chamou a atenção. Durante o Q2 da classificação, Sergio Pérez ultrapassou o limite da pista na curva oito. Só que a infração aconteceu já no final da sessão e os comissários foram notificados quando o Q3 já estava para começar. O mexicano acabou participando da parte final da tomada.

Após a sessão, ao comprovarem no vídeo que Pérez realmente tinha saído da pista durante sua volta rápida no Q2, os comissários resolveram deletar sua volta não só naquela fase da classificação, mas também todos os seus tempos do Q3. A justificativa é que se a punição tivesse sido imposta no momento adequado, ele não teria passado para a última parte da disputa.

A regra do limite de pista na F1

Tecnicamente, nunca na história da F1 os pilotos receberam autorização para deixar e voltar a pista. Porém, por diversos motivos, essa regra foi ficando cada vez menos flexível e mais rígida com o passar dos anos, principalmente na última década.

Não existe dúvida que um dos principais agentes para essa situação é a mudança de característica dos circuitos. Por questão de segurança, os limites de pista estão sendo cada vez menos físicos e mais dependentes apenas da linha branca nas extremidades dos traçados.

Dois bons exemplos destes casos são o aumento das áreas de escape asfaltadas e as zebras planas. A necessidade dos autódromos também se adequarem para receberem tanto corridas de carros como de motos, e assim aumentarem a quantidade de eventos, também faz com que os circuitos da F1 mantenham diversos parâmetros de segurança que dificultem a implantação de limitação física dos traçados, pois esses são mais perigosas nas provas de duas rodas.

Além disso, o ganho – mesmo que marginal – de tempo em que pequenas saídas (como para alargar uma tomada ou sair mais lançado de uma curva) começaram a ficar mais evidentes. E claro que o avanço da tecnologia com um número maior de câmeras que permitem o monitoramento constante dos carros e das curvas também estimulou a FIA a ficar mais de olho na questão.

Limites de pista na Áustria deram trabalho para os comissários da F1
Limites de pista na Áustria deram trabalho para os comissários da F1 (Foto: Glenn Dunbar / LAT / Pirelli)

E para pode impor uma interpretação mais dura, a FIA primeiro decidiu acabar com certas margens. A interpretação para o fato do piloto ter saído da pista ou não passou a ser apenas em torno da necessidade. Ou seja, se precisou desviar de algum detrito, carro lento ou acidente à frente, ou se saiu para melhorar a sua linha de pilotagem ou tentar uma ultrapassagem. Sendo assim, deixou de importar se deixou a pista por um metro ou milímetro, ganhando ou não tempo.

Isso tudo está explicado no artigo 33.3 do Regulamento Desportivo da F1:

“Pilotos devem fazer todo esforço razoável para usar a pista a todo tempo e não podem sair da pista sem um motivo justificável.

Os pilotos serão julgados por deixarem a pista se nenhuma parte do carro permanecer em contato com ela. Para evitar dúvidas, qualquer linha branca definindo as extremidades da pista são consideradas parte da pista, mas as zebras, não.

Se o carro deixar a pista, o piloto pode retornar, no entanto, isso deve ser feito apenas quando for seguro e sem ganhar nenhuma vantagem duradoura. Sob supervisão absoluta do Diretor de Provas, um piloto pode ter a oportunidade de devolver a totalidade de qualquer vantagem que ele ganhou ao deixar a pista.”

Nestes últimos dois parágrafos do artigo, estão determinados que no caso de uma vantagem duradoura (exemplo, ganhar uma posição), o piloto pode abrir mão do que ganhou (devolvendo a posição ou diminuindo a velocidade) e deixar de receber uma punição. Este tipo de ação também já se transformou em rotina na F1, e muitas vezes gera algum debate no rádio dos pilotos.

Nas últimas diretivas técnicas, a FIA estabeleceu que os pilotos perdem seus tempos de volta a cada infração do tipo. Durante as corridas, no caso da repetição por três vezes, recebem uma bandeira de advertência. Na quarta, é imposta uma punição de cinco segundos, que pode ser paga no próximo pit stop do piloto ou com acúmulo no tempo total de prova.

Por conta da impossibilidade de se verificar todos os carros em todos os pontos da pista, a cada etapa, o diretor de provas aponta antes do início do final de semana, em suas notas, quais os pontos em que os comissários irão monitorar com mais atenção o limite de pista. Isso não significa, no entanto, que no caso de um ganho de vantagem latente e “duradouro” em outro setor, uma punição não possa ser imposta.

Por que tanta polêmica

Para começar, apesar de tanta regulamentação, pilotos e equipes vivem reclamando da falta de critério. Principalmente nas manobras de ultrapassagens. É difícil antecipar a leitura dos comissários para o caso de um piloto ter deixado a pista por uma simples necessidade para evitar um acidente ou se para ganhar vantagem e deixar o adversário para trás. E as diferentes interpretações durante o tempo também deixam todos confusos.

Além disso, muitos competidores da F1 também questionam a própria leitura do regulamento sobre “vantagem duradoura” ou “sem motivo justificável”. A alegação é que em alguns circuitos, mesmo com a área de escape asfaltada ou zebra baixa, a perda de tração fora do traçado causa na verdade uma perda de tempo. E que muitas vezes o piloto acaba saindo da pista para evitar uma rodada.

No GP do Bahrein de 2021, o então diretor de provas, Michael Masi, colocou em suas notas pré-GP que a curva quatro de Sakhir seria monitorada durante os treinos e classificação, mas não durante a corrida. Após um questionamento da Red Bull no meio da prova, pois Lewis Hamilton estava ignorando o limite na saída daquele ponto, Masi resolveu começar a alertar as equipes sobre infração dos pilotos na curva, o que deixou muitos pilotos confusos nas conversas de rádio.

Por uma coincidência, nas últimas voltas, Max Verstappen, da Red Bull, teve que devolver a liderança para Hamilton por ultrapassar o inglês saindo do traçado justamente ali. A questão fez com que os dois pilotos questionassem a direção de provas nas semanas seguintes.  

As decisões também causam inquietações nos fãs, ainda mais em tempos de redes sociais, com tempos de voltas em classificação deletados e posições devolvidas em momentos decisivos. E tudo isso muitas vezes por conta de saídas de pista que o público não enxerga um ganho de vantagem.

De qualquer forma, por mais que a questão do limite de pista cause polêmicas e até protestos, a F1 ainda não encontrou uma outra forma de monitorar e evitar que pilotos ganhem vantagem ao andarem fora do traçado. E a readequação dos circuitos por motivos de segurança é algo que também não deve ser revertida, por motivos óbvios. Assim, ainda devemos ver muitas discussões sobre o tema no futuro.

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