Entenda a polêmica punição de Piastri em Interlagos
Um dos lances de mais destaque do último GP de São Paulo aconteceu na relargada da sexta volta. Oscar Piastri tentou uma manobra de ultrapassagem sobre os dois pilotos que estavam à sua frente, Kimi Antonelli e Charles Leclerc.
Os três pilotos chegaram a ficar lado a lado na entrada do “S do Senna” com Piastri por dentro. O australiano e Antonelli acabaram se tocando e a Mercedes do italiano ainda se chocou com Leclerc, que estava por fora.
Com a suspensão dianteira esquerda quebrada, o monegasco da Ferrari foi o único dos três a abandonar a prova. Piastri chegou a pular para segundo, mas recebeu uma penalização de 10 segundos pelo lance.
A justificativa dos comissários foi a regra prevista nas “Diretrizes Padrão de Pilotagem” da FIA, que afirma que para ter o direito de ultrapassar por dentro em uma curva, o piloto precisa estar com o eixo dianteiro do seu carro no mínimo alinhado ao retrovisor do adversário no momento do apex da curva (ponto em que os pilotos mais se aproximam da parte interna da pista no contorno da curva).
Pela imagem, é possível perceber que, no momento do toque, antes mesmo do apex, Piastri está um pouco atrás do que a regra exige. Os comissários então adotaram uma interpretação fria para considerar o australiano da McLaren culpado pelo incidente, mesmo que Antonelli tenha reduzido o espaço do adversário.
Diante da existência de uma regra bastante objetiva, é difícil tirar a razão dos comissários.

Uma 2ª interpretação para dividida de Piastri e Antonelli
Mantendo sempre em mente a regra, é possível, no entanto, ter uma visão mais abrangente da dinâmica do lance, sem se concentrar apenas no instante exato do toque ou do apex.
No momento da freada e da entrada da curva, é possível ver que Piastri chega a ficar lado a lado com Antonelli, até além do que a regra exige. Quando começam a esterçar o volante, o australiano, temendo tocar na Mercedes do italiano, trava a roda, mas consegue manter o contorno sem sair de frente, sempre se aproximando da linha branca interna da curva.
Só que Antonelli, por conseguir carregar mais velocidade por ter uma tomada melhor, avança um pouco mais à frente de Piastri e fecha a linha do piloto da McLaren.
Nesta situação, o australiano não tem para onde ir, mesmo tentando diminuir ao máximo sua velocidade e chegando a subir com todo o pneu dianteiro sobre a zebra interna (muito além do normal) para dar espaço ao rival.


Vale ainda destacar a natureza da curva em questão. A primeira perna do “S do Senna” tem dois estágios: uma entrada com raio mais aberto, que depois muda para um ângulo mais fechado em um segundo momento. Por isso, é difícil definir o estágio exato do apex dessa curva.

Assim, a frase “Piastri foi, portanto, totalmente responsável pela colisão” que os comissários utilizaram no documento oficial da decisão poderia ser questionada pelo fato de o australiano ter tentado evitar o acidente em um lance com três pilotos lado a lado, em uma relargada e em uma curva cujo raio muda ao longo de seu contorno.
Antonelli, protegido pela regra, também não poderia ser “culpado”, mas existiria uma brecha utilizada em largadas para considerar o lance como “incidente de corrida”.
De qualquer maneira, não é possível dizer que os comissários erraram, pois utilizaram a regra de forma objetiva. A questão é entender o quanto a FIA está permitindo e orientando uma análise da dinâmica, e não apenas do instante exato de um frame dos acidentes.
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