Quatro Rodas
Estrela da base, Vandoorne não brilhou na F1

As grandes promessas da base que naufragaram na F1

Chegar à F1 certamente é a realização de um sonho para todos os pilotos que galgam os degraus da base. O funil desde o kart até a categoria máxima do automobilismo mundial é implacável, de modo que são poucos que conseguem sobreviver a ele e atingir o topo da pirâmide.

Mas, como muitos pilotos oportunamente lembram, chegar à Fórmula 1 é só o começo do trabalho. Ali, em uma plataforma mais grandiosa e exigente, o competidor será submetido ao teste definitivo, diante de uma concorrência altamente qualificada e com a dura missão de prosperar no ambiente certo, na hora certa.

Essa junção de fatores influencia no sucesso ou no fracasso de um piloto na F1. Até por isso, não é grande raridade ver nomes que chegam à categoria cheios de moral, com currículos invejáveis, mas que sucumbem ao se deparar com uma realidade totalmente diferente.

Assim pode ser definida a trajetória de Stoffel Vandoorne pela categoria: tudo parecia ir na direção correta, mas no meio do caminho o trem descarrilou de tal modo que o piloto deixará a F1 pela porta dos fundos.

Em tese, Vandoorne colecionava todos os ingredientes necessários para um piloto de sucesso na F1. Não lhe faltavam os mais diversos títulos na base, como nas divisões europeias da F4 e da F-Renault, além de um massacre sobre a concorrência na GP2, em 2015. Falta de apoio? Não era problema, uma vez que ele compunha o programa de pilotos da McLaren desde 2013.

Mas, ao contrário do que aconteceu com a famosa ascensão meteórica de Lewis Hamilton, também cria de Woking, Vandoorne se deparou com uma fase tenebrosa da McLaren. Inicialmente, parecia até que o plano de fundo lhe serviria como uma oportunidade, a julgar por sua estreia na F1, quando, mesmo às pressas, superou o parceiro Jenson Button e anotou um ponto.

Só que não foi bem assim. A McLaren implodiu nos últimos dois anos e Vandoorne foi junto, já que se tornou presa fácil diante de um ainda inspirado Fernando Alonso no duelo interno. A imagem do belga ficou altamente danificada, o que lhe custou a vaga para 2019 e o tornou uma opção apagada para as equipes concorrentes.

Sem alternativas na F1, Vandoorne precisou sondar novos mercados, e seu destino deve ser a Fórmula E, provavelmente na nova equipe HWA. Por mais que ele ainda seja relativamente jovem, com 26 anos, e teoricamente ainda teria tempo para retornar à F1, o piloto sofreu um baque de carreira do qual pouquíssimos conseguem se recuperar.

Vandoorne, então, é mais um caso da lista. Separamos alguns nomes que chegaram à F1 cheios de moral, mas que, por algum motivo, sucumbiram na categoria máxima. Se você se lembrar de mais exemplos, mencione nos comentários abaixo que poderemos fazer uma segunda parte.

Jan Magnussen

Tinha moral porque: campeão da F3 Inglesa (1994)
Passagem pela F1: McLaren (1995), Stewart (1997-1998)

O Magnussen pai foi um daqueles casos para deixar encucado: promissor, talentoso, mas que simplesmente foi despedaçado aos olhos do mundo quando chegou à F1.

Parecia que o dinamarquês teria ascensão rápida, especialmente por ter no currículo uma temporada brilhante na F3 Inglesa, quando famosamente bateu o recorde de vitórias de Ayrton Senna de mais de dez anos.

Porém, a trajetória de Magnussen pela F1 não refletiu nada disso – e mostrou que talento apenas não basta. O que havia em habilidade, faltava em disciplina e organização, e o carro pouco confiável da Stewart também não ajudou em nada um piloto de pouca experiência.

Na temporada e meia que fez pela Stewart, Magnussen marcou somente um ponto, justamente em sua última corrida, e foi amplamente subjugado por Rubens Barrichello – sendo que o próprio Jackie Stewart considerava que o dinamarquês até tinha mais talento bruto que o brasileiro. Vai entender.

Antonio Pizzonia

Tinha moral porque: campeão da F-Renault (1999) e da F3 Inglesa (2000)
Passagem pela F1: Jaguar (2003), Williams (2004-2005)

Antônio Pizzonia é um raro de caso de piloto que teve duas chances na F1
Antonio Pizzonia é um raro de caso de piloto que teve duas chances na F1 (Foto: BMW)

Produto do boom  brasileiro pós-Senna nas pistas, Pizzonia parecia ser um daqueles que chegaria longe. O amazonense ganhou espaço nas pistas inglesas com títulos importantes, além de chamar a atenção fora delas pelo apelido de “Jungle Boy”, que se tornou uma marca registrada do início de sua carreira.

Tal sucesso o fez ser disputado pelos “cachorros grandes” da F1: foi cobiçado por Flavio Briatore, mas acabou sob as asas de Frank Williams. Contudo, Pizzonia não prosperou, mesmo tendo sido um raro caso agraciado com uma segunda chance.

Na primeira delas, na Jaguar, não se bicou com a chefia da equipe e foi para lá de discreto dentro da pista. Na segunda, em um ambiente supostamente mais favorável com a Williams, cometeu erros em momentos importantes e viu a chance escapar de suas mãos.

Vitantonio Liuzzi

Tinha moral porque: campeão da F3000 (2004)
Passagem pela F1: Red Bull (2005), Toro Rosso (2006-2007), Force India (2009-2010), HRT (2011)

Grande kartista, Liuzzi não conseguiu brilhar na F1 como se esperava
Grande kartista, Liuzzi não conseguiu brilhar na F1 como se esperava (Foto: Red Bull Content)

De todos os exemplos citados desta lista, Liuzzi foi, de longe, quem permaneceu por mais tempo na F1. Mesmo assim, sua presença se justifica pelo fato de que a passagem, apesar de duradoura, ficou bem aquém do que se esperava.

Liuzzi foi uma das primeiras crias do bem-sucedido programa de pilotos da Red Bull, que foi justamente o que o colocou na F1. Ocorre que, em suas idas e vindas por equipes diferentes, o italiano simplesmente não emplacou.

Não que Liuzzi tenha cometido erros em momentos cruciais ou mostrado incapacidade técnica – até porque, se fosse este o caso, ele não duraria tanto. A questão é que o campeão massacrante da F3000 (categoria que, é verdade, vivia o fim de seus dias àquela época) nunca chegou perto de dar as caras.

Ricardo Zonta

Tinha moral porque: campeão da F3000 (1997) e do FIA GT1 (1998)
Passagem pela F1: BAR (1999-2000), Jordan (2001), Toyota (2004-2005)

Situações para Zonta não foram as ideais e bonde da F1 passou (Foto: Honda)

Outro mandamento importante quando se fala de pilotos promissores que chegam à F1: é importantíssimo estar inserido no contexto certo, na hora certa. Zonta era um dos talentos a serem observados no fim dos anos 90, mas sua carreira na F1 foi turbulenta a ponto de não fazer jus à sua reputação.

Campeão da F3000, do FIA GT e piloto de testes da McLaren, o curitibano fez sua transição para a F1 pela porta da BAR. Como dissemos neste texto, o projeto até parecia ser bem estruturado, mas evidentemente um novato enfrentaria obstáculos a mais dentro daquele cenário.

A equipe também dava seus primeiros passos de reestruturação, então as quebras ainda eram bastante frequentes. A referência interna também não ajudou: do outro lado da garagem estava Jacques Villeneuve, campeão mundial e que era um pilar importante da equipe, já que seu empresário, Craig Pollock, ocupava o posto de chefia.

Para piorar, Zonta teve reveses, com uma fratura no tornozelo que o deixou de molho (Brasil-1999) e um acidente com o próprio Villeneuve (Alemanha-2000), o que não lhe ajudou em nada.

Depois de deixar a BAR, Zonta teve passagens por três equipes como piloto de testes, inclusive correndo ocasionalmente em duas delas (Jordan e Toyota). Porém, ele jamais ocuparia novamente a posição de titular de fato, o que fez com que sua carreira na F1 fosse relativamente breve.

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Giorgio Pantano

Tinha moral porque: campeão da F3 Alemã (2000), vice da F3000 (2002)
Passagem pela F1: Jordan (2004)

Pantano chegou a dar um passo atrás e voltar para a GP2, mas não conseguiu uma segunda chance na F1 (Foto: Jordan Grand Prix)

Pantano foi mais um caso de quem parecia ter a receita completa, mas simplesmente não conseguiu pegar o bonde certo, no momento adequado.

O italiano era observado com atenção desde que deu seus primeiros passos nas pistas. Exímio kartista, o piloto ganhou espaço na base, obteve feitos/atuações de destaque e, por isso, atraiu os olhares de equipes de ponta da F1 – já que ele realizou testes com Williams, McLaren e Benetton.

Mas a subida definitiva para a F1 nunca foi muito bem feita. Ou lhe faltou dinheiro (como quando perdeu uma vaga na Jaguar para Christian Klien, que tinha apoio da Red Bull, aos 45 do segundo tempo), ou simplesmente o timing  nunca casou bem com o momento da F1.

Pantano ingressou na F1 pela Jordan, uma equipe tradicionalmente forte para novatos. Porém, em 2004, o time já havia entrado em uma crise irreversível, de modo que o piloto só tinha grana para fazer uma parte da temporada. E, na pista, não conseguiu oferecer muita resistência ao experimentado Nick Heidfeld.

O italiano tentou cavar uma segunda chance ao voltar ao degrau da GP2 e cravar o título em 2008, mas ali o bonde já havia passado.

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