Schumacher: grandes vitórias e grandes polêmicas
(Foto: Ferrari)

O dia em que Schumacher estacionou seu carro por pole em Mônaco

Durante a disputa pela pole do GP de Mônaco de 2006, Michael Schumacher estacionou seu carro na pista para provocar uma bandeira amarela e atrapalhar a volta de seus rivais. Porém, o alemão foi punido, o que resultou em um dos episódios mais controversos de sua carreira

Convenhamos que lances considerados antidesportivos não eram exatamente novidade para Schumacher. Alguns casos ficaram bem famosos, como a batida em Damon Hill para a conquista do título em 1994, e a fechada em Jacques Villeneuve em 97, o que desta vez viu o rival terminar com a taça.

Mas, quando a Ferrari estabeleceu seu domínio, entre 2000 e 2004, Schumacher emendou títulos mundiais, e muitos pensavam que aquele tipo de polêmica já era coisa do passado.

Em 2005, a Ferrari teve um ano complicado e Schumacher foi destronado, sendo que Fernando Alonso se tornou campeão mundial. Mas, em 2006, a Scuderia de Maranello se recuperou e voltou à luta pelas primeiras posições. Antes do GP de Mônaco, Schumacher era o vice-líder na tabela, mas ainda a distantes 15 pontos de Alonso – lembrando que na época a vitória valia só 10 pontos.

O “incidente” de Schumacher

No fim de semana em Monte Carlo, como de costume, a situação era tensa durante a sessão de classificação, já que a pole position é bastante cobiçada devido à dificuldade de ultrapassagem no circuito de rua. Nas primeiras tentativas dos pilotos durante o Q3, Schumacher anotou a pole provisória, registrando um tempo 0s082 melhor do que Alonso, o segundo colocado.

Todos os pilotos foram aos boxes, trocaram os pneus e partiram para as tentativas finais. Nos segundos derradeiros da sessão, Schumacher estava em volta lançada, mas passou quase 0s2 acima do seu próprio tempo na segunda parcial. Quando se aproximou da curva Rascasse, a penúltima do circuito, o alemão travou rodas, escorregou e parou seu carro logo ao lado do guard-rail. Isso provocou bandeiras amarelas no local, o que afetaria as voltas de quem vinha atrás, incluindo Alonso, Mark Webber e Kimi Raikkonen, os rivais mais próximos de Schumacher naquela sessão.

Para se ter uma ideia, Alonso vinha em volta 0s3 mais rápida e caminhava para a pole, mas foi obrigado a tirar o pé na Rascasse, e ficou a 0s064 de Schumacher, na segunda posição. Por isso, logo de cara, a dinâmica do lance gerou suspeita.

O controverso Flavio Briatore, chefe de Alonso na Renault, balançava a cabeça negativamente, e disse que Schumacher simplesmente “estacionou seu carro”, pois era “assim que a Ferrari agia”. Jacques Villeneuve, antigo rival de Schumacher e que na época competia pela BMW, foi bem duro na crítica. O canadense “esperava que tivesse sido de propósito, porque, se aquilo foi um erro, Schumacher sequer deveria ter uma superlicença”, já que “seria um lance vergonhoso até mesmo para Yuji Ide”, referindo-se ao piloto que havia sido banido da F1 naquele mesmo mês.

Já Alonso até cogitou uma manifestação inusitada. Ele confessou a pessoas mais próximas que se deitaria em frente do carro de Schumacher no grid, após a volta de apresentação, como protesto pela atitude do rival. Schumacher rebateu as críticas. O alemão argumentou que “apenas quem estava no carro sabe o que aconteceu”, e que ele “forçou o ritmo, travou rodas, escorregou e ficou sem espaço, o que era comum em Mônaco”. De qualquer maneira, a direção de prova decidiu investigar a conduta de Schumacher no lance.

A investigação da FIA punição a Schumacher

A entidade conversou com as partes envolvidas, analisou as evidências de vídeo e telemetria, e uma decisão foi comunicada só depois das dez da noite do sábado. Schumacher foi considerado culpado por estacionar seu carro de forma intencional, e teve todos os seus tempos na sessão deletados, o que o tiraria da pole e o jogaria para o fundo do grid.

Para justificar a decisão, os comissários citaram que Schumacher chegou à curva Rascasse em velocidade muito parecida com o que fez na volta rápida anterior. Porém, daquela vez ele freou de maneira “indevida, excessiva e incomum”, o que o fez travar as rodas. O veredito não encontrou “razão justificável” para tal postura, e “não teve alternativas a não ser concluir que isso foi feito de maneira deliberada”. Assim, os comissários acionaram o artigo 112 do Regulamento Desportivo da F1, o que não dava direito a apelação.

Um dos comissários daquela corrida deu mais detalhes. Segundo Joaquin Verdegay, Schumacher aplicou força nos freios 50% maior do que em suas outras voltas, sendo que ele ainda permaneceu por cinco metros fazendo movimentos no volante que foram considerados “desnecessários”.

Ele perdeu o controle do carro a apenas 16 km/h, e o motor de seu carro morreu por ele ter demorado para acionar a embreagem em seu volante. Ainda segundo o comissário, como Schumacher apenas estacionou o carro ao lado do guard-rail, o lance foi considerado proposital. Se ele tivesse danificado seu carro, talvez a direção de prova poderia lhe dar o benefício da dúvida e considerar o caso como um erro de pilotagem.

A Ferrari trocou o motor de Schumacher, e o alemão partiu dos boxes, e ele se recuperou para receber a bandeirada na quinta colocação. Alonso venceu a prova, e ampliou sua liderança no campeonato.

Schumacher, no GP de Mônaco de 2006
Schumacher, no GP de Mônaco de 2006 (Foto: Ferrari)

Repercussão com os pilotos

Um ponto delicado nesta história toda é que Schumacher também ocupava posição na diretoria da GPDA, a Associação dos Pilotos da F1, e a polêmica colocou o heptacampeão em confronto com seus colegas.

Na corrida seguinte, em Silverstone, os pilotos ainda buscavam explicações durante as reuniões a portas fechadas, mas a situação se resolveu e Schumacher permaneceu no posto. Villeneuve, alegando questões de princípios, se desligou da GPDA. Naquele mesmo fim de semana, Schumacher foi confrontado por Mark Webber, outro diretor da GPDA. O piloto australiano relata em seu livro que ouviu do alemão a seguinte frase: “Às vezes nós seguimos um caminho que não dá para voltar atrás”, o que Webber interpretou como uma confissão de que o lance de Mônaco foi proposital.

Ao longo daquela temporada, Schumacher cresceu e até assumiu a liderança do campeonato perto do fim, mas acabou derrotado por Alonso, que se sagrou bicampeão do mundo. O alemão também deu adeus à Ferrari e se aposentaria da F1.

Muitos anos mais tarde, em 2020, Felipe Massa, o parceiro de Schumacher naquela época, contou como foram os bastidores daquela fatídica classificação em Mônaco. O alemão se inspirou em uma piada feita por Ross Brawn, o diretor técnico da Ferrari, durante uma reunião, sendo que ele confessaria a Massa que fez tudo aquilo de propósito somente um ano depois.

O mesmo Ross Brawn, também em 2020, reconheceu que aquilo foi uma manobra desnecessária e estúpida, e que Schumacher, na ânsia de ser competitivo, “podia fazer coisas que não tinham explicações lógicas”.

Confira essa história em nosso vídeo:

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