Foto: Jerry Andre / Sutton Images / Pirelli

Flow-vis: para que serve esta tinta verde nos carros de F1?

No desenvolvimento dos carros da F1, as equipes investem pesado em recursos que possibilitam o acesso a informações detalhadas. O objetivo é sempre entender como é o funcionamento na prática do modelo na pista, para aí sim encontrar soluções que melhoram o rendimento do conjunto. 

Para isso, por muitas vezes os engenheiros se apoiam em ferramentas tecnológicas e sofisticadas. Só que, mesmo neste ambiente de constante evolução, também há espaço para coisas que são bastante práticas e relativamente simples. 

Você já deve ter reparado que, às vezes, os carros vão à pista pintados com uma tinta fluorescente, na maioria das vezes de cor verde, e em pontos específicos da carenagem. Isso tem um papel importante no entendimento de como o carro funciona. Mas para que ela serve, exatamente?

A F1 e a importância fundamental da aerodinâmica

F1 flow vis
Foto: Red Bull Content Pool

Um ponto crucial na concepção de um carro de F1 é a sua eficiência aerodinâmica. As asas e as linhas do modelo são projetadas para que, quando em movimento, a passagem do ar force o carro para baixo, o que provoca maior aderência e possibilita que o conjunto faça a curva com mais velocidade. 

Para que o máximo de performance aerodinâmica seja extraída, cada componente precisa funcionar em sintonia, já que o ar vai passar pelo bico e asa dianteira, ser encaminhado para as bargeboards laterais e para o halo, contornar os sidepods e a entrada de ar superior e enfim percorrer o difusor e a asa traseira. Neste processo, cada peça precisa funcionar exatamente como o planejado. Por exemplo, se a asa dianteira tem um comportamento imprevisível, o ar chega para a bargeboard de uma forma que não era esperada, e esta peça, portanto, já não funcionaria conforme o planejado.

É por isso que as equipes não economizam esforços no estudo e desenvolvimento dos componentes aerodinâmicos, com um trabalho intenso feito no túnel de vento e em simulações de fluidodinâmica computacional (também conhecida como CFD). Acontece que os indicadores apresentados nestas ferramentas possuem caráter teórico, já que as simulações são feitas em um ambiente fechado e controlado. Na conversão do banco de testes para a pista na prática, muita coisa pode mudar, o que também pode invalidar tudo o que os engenheiros projetaram. 

Como o flow-vis atua na análise de correlação

Quando o carro vai à pista, é preciso checar se as informações obtidas no campo teórico batem com a realidade. Um recurso utilizado para isso é justamente esta tinta que é conhecida como flow-vis. O nome vem de flow visualization, ou “visualização do fluxo” numa tradução livre. E aí já fica a primeira curiosidade: literalmente não se trata de uma tinta, e sim uma mistura de óleo com um pó brilhante, por muitas vezes verde, mas que também se apresenta em outras cores.

Instantes antes de o carro ir à pista, as equipes passam o flow-vis nas peças que são alvo do estudo, que são geralmente pontos cruciais para o desempenho aerodinâmico. Como se trata de uma substância bastante líquida, na medida em que os carros ficam em movimento, o flow-vis se espalha pela carenagem de tal maneira que evidencia exatamente como o ar está percorrendo o conjunto, o que dá um indicador concreto do comportamento aerodinâmico. 

Flow-vis se espalha pela carenagem com o carro em movimento, dando um indicador visual do comportamento aerodinâmico

Assim que a substância seca, pouco tempo depois, o piloto retorna aos boxes para que os engenheiros registrem o resultado final. Por isso, é importante que o flow-vis tenha uma cor bastante chamativa, para que fique mais fácil a sua visualização.

Geralmente este recurso é aplicado quando se trata de um novo projeto, ou de peças de atualização. Desta forma, é mais comum que o flow vis seja usado em testes de pré-temporada, ou nos treinos livres de GP. Os resultados do experimento são fundamentais para que as equipes entendam não só as suas peças, mas também o seu trabalho como um todo, já que é um processo para medir a correlação de suas informações. Isso significa que os engenheiros possuem mais elementos para comparar os dados teóricos de túnel de vento e CFD, com o que é visto na prática com o flow-vis

Caso os resultados batam, a equipe saberá que pode confiar mais nas informações teóricas e embasar o seu desenvolvimento a partir dali. Mas se as informações forem completamente discrepantes, isso pode provocar um grande atraso e deixar tudo mais trabalhoso, o que tem consequências catastróficas nas operações da equipe. 

É uma explicação básica, e na prática é um pouco mais complexo do que no discurso. Mas o uso flow-vis simboliza bem como que a F1 combina a mais alta tecnologia com outras soluções bastante simples na busca de cada décimo de segundo.

Confira mais detalhes em nosso vídeo especial:

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