Vai acabar a eterna procissão de Melbourne?
(Foto: Dirk Klynsmith / Sutton Images / Pirelli)

Melbourne será teste para regras da F1 2022 e aposta em novo traçado

Já tem muita gente comemorando o sucesso das novas regras da F1 após os GPs de abertura de 2022, no Bahrein e Arábia Saudita. Mas se existe uma pista que pode confirmar a melhora das corridas como um todo e no número de ultrapassagens graças ao novo regulamento é a de Melbourne.

Historicamente, o GP do Bahrein rende corridas movimentadas. A prova de Sakhir sempre figura entre as cinco primeiras com o maior número de ultrapassagens. Normalmente também propicia uma briga interessante de estratégias, o que bagunça um pouco o grid durante a corrida e acaba promovendo mais manobras por conta da diferença de pneus entre os carros.

O desenho da pista de Sakhir também contribui. A última curva, que leva para reta, permite que o carro de trás consiga se manter próximo. Depois, a reta principal, com uma forte freada em seu final e com a ajuda da asa móvel, é um ótimo ponto para manobras de ataque. Para melhorar, logo em seguida, tem uma nova reta com zona de DRS com uma freada forte no final, o que também dá chances de novas ultrapassagens.

Contar quantas ultrapassagens aconteceram em uma corrida não é algo fácil, pois teoricamente é preciso ver todas as imagens de todas as manobras durante a prova. E aí, cada veículo de imprensa, empresa de análise de estatística e até a F1 têm seus critérios para analisar se certa manobra é uma ultrapassagem ou não. Por exemplo, se um piloto comete um erro e sai do traçado, e volta atrás de do outro, para a maioria não é considerado uma ultrapassagem. Manobras em que um competidor chega a passar na frente do outro, mas não consegue segurar a posição por muitos metros não entram em diversas das estatísticas. Passar por um retardatário ou quando o adversário está no box também não contam.

Seguindo os dados da conceituada revista alemã Auto Motor und Sport, o GP do Bahrein de 2022 teve 10 ultrapassagens a mais do que em 2021 (68 x 58, respectivamente). Por conta das explicações acima, em uma pesquisa na internet você pode encontrar números diferentes. E não é que um ou outro esteja errado. De novo, vale o critério escolhido.

Leclerc e Verstappen se enfrentam na Arábia Saudita
Leclerc e Verstappen se enfrentam na Arábia Saudita (Foto: Mark Sutton / LAT /Pirelli)

O caso da Arábia Saudita é parecido com de Sakhir. A corrida deste ano foi apenas a segunda no circuito de Jeddah. O aumento lá foi maior, 18 ultrapassagens em 2021 contra 38 em 22. Isso pode representar que o regulamento está sim indo bem. Um dos fatores para esse crescimento pode ser o fato dos carros conseguirem andar mais próximos nos dois primeiros setores, com mais curvas, para finalmente conseguirem fazer as ultrapassagens na parte final, em que existem duas zonas de asa móvel seguidas, incluindo uma bastante longa na reta principal.

É bom lembrar, no entanto, que a prova de 2021 teve uma bandeira vermelha (o que permitiu que todos os carros trocassem os pneus e entrassem na mesma estratégia, diminuindo as chances de ultrapassagem). Além disso, foram oito voltas de safety car e outras oito de safety car virtual em 2021 contra quatro com carro de segurança nesta temporada e mais quatro com o safety car virtual.

De qualquer forma, é preciso apontar que o circuito de Jeddah foi planejado e construído pensando no desafio de curvas rápidas com muros próximos e em ter pelo menos um ponto em especial, na reta dos boxes, com grandes chances de ultrapassagem.

O sempre complicado GP da Austrália

O circuito de Melbourne já tem características totalmente contrárias as de Sakhir e Jeddah. Para começar, não é uma pista que foi projetada desde o papel em branco, mas sim aproveitando as vias em um parque na cidade australiana.

Desta forma, apesar de algumas corridas caóticas e surpreendentes em sua história por conta de abandonos e acidentes, o circuito sempre teve dificuldades de promover provas movimentadas do ponto de vista de ultrapassagens. No último GP da Austrália, em 2019 ( os de 20 e 21 foram cancelados por conta da pandemia), foram 14 ultrapassagens. E olha que isso foi comemorado na época, já que aconteceram apenas três no ano anterior.

Existem três dificuldades básicas para as manobras. A primeira é a falta de grandes retas, o que diminui as chances de manobras de ataque, mesmo com o DRS. Seguir o carro da frente nas curvas de média e alta velocidade sempre foi um problema com a perda de pressão aerodinâmica. E por fim, a largura da pista também diminui as opções para os pilotos que estão atrás. Mesmo condizente com os padrões mínimos da FIA para circuitos de grau 1, está longe dos traçados como de Sakhir, Jeddah e de outros autódromos (e até mesmo circuitos de rua como de Singapura) que estrearam no calendário já no século XXI.

Por isso tudo, será interessante ver como os novos carros se comportam no traçado de Melbourne. Além disso, após anos de críticas, os organizadores também não ficaram parados e resolveram também dar uma mãozinha para melhorar as corridas por lá a partir de 2022.

O novo circuito de Melbourne

A corrida de Melbourne está no calendário da F1 desde 1996 como GP da Austrália, em uma operação bastante curiosa e secreta até o anúncio, principalmente para não chamar a atenção dos organizadores da então sede do evento, em Adelaide. Já contamos essa história aqui no Projeto Motor.

Seria injusto dizer que a pista sempre foi criticada. Mas com o passar dos anos e a evolução aerodinâmica e do tamanho dos carros da F1, as provas na pista do Albert Park começaram a ter problemas. E as últimas edições, durante a década de 2010, foram as que deixaram isso mais em evidência.

Para 2022, então, Melbourne resolveu investir em uma reforma pensada para aumentar as ultrapassagens e o desafio aos pilotos. Foram feitas pequenas modificações no traçado, mas com redesenho de diversas curvas.  

Confira as mudanças:

– Curva 1
O ponto de diversas colisões, a curva 1 foi alargada em 2,5 metros à direita para dar mais espaço para que os carros consigam contorná-la lado a lado.

Evolução da reforma do circuito de Melbourne: curva 1
Evolução da reforma do circuito de Melbourne: curva 1 (Fotos: Divulgação/GP da Austrália)

– Curva 3
Sem dúvida nenhuma, a curva 3 é o principal ponto de ultrapassagem de Melbourne. A curva foi alargada em quatro metros à direita e também ganhou um novo desenho mais aberto com uma pequena inclinação positiva. Isso deve aumentar ligeiramente a velocidade do ponto e criar novas linhas de traçado.

A zebra também foi remodelada para criar problemas para quem tentar ganhar vantagem explorando os limites da pista.  

 Evolução da reforma do circuito de Melbourne: curva 3
Evolução da reforma do circuito de Melbourne: curva 3 (Fotos: Divulgação/GP da Austrália)

– Curva 6
Esse ponto recebeu uma mudança grande em que a curva foi alargada em 7,5 metros, além de receber um desenho com apex bem mais rápido. Para se ter ideia, a expectativa é que a velocidade no ponto deva aumentar de 149 Km/h para 219 Km/h. E isso deve ter influência direta do trecho a seguir.

  Evolução da reforma do circuito de Melbourne: curva 6
Evolução da reforma do circuito de Melbourne: curva 6 (Fotos: Divulgação/GP da Austrália)

– Curvas 9 e 10
Este é ponto em que se pode dizer que o traçado realmente mudou. É certamente onde foi feita uma alteração mais drástica. Onde existia um “S” de baixa velocidade vindo justamente desde as curvas 6, 7 e 8, agora é simplesmente uma reta.

Considerando que os carros já virão mais lançados do trecho anterior, criou-se agora um ponto de aceleração plena de 1,3 Km. As simulações apontam para velocidades máximas de 330 Km/h até a curva 9 (antiga 11), que junto com a 10, segue sendo um “S” de média.

   Evolução da reforma do circuito de Melbourne: supressão das curvas 9 e 10
Evolução da reforma do circuito de Melbourne: supressão das curvas 9 e 10 (Fotos: Divulgação/GP da Austrália)

– Curva 11 (antiga 13)
Com a supressão das antigas curvas 9 e 10, a antiga 13 passa a ser a 11, no final de uma pequena reta, mas em que os carros já vinham em certa velocidade do “S” de média anterior.

A entrada da curva foi alargada de 12 para 15 metros. E para aumentar as oportunidades de ultrapassagem, o desenho da curva foi remodelado para ficar um pouco mais estreito e fechado já no apex (parte central da tomada), o que deve obrigar os pilotos a realizarem uma freada mais brusca para o contorno.

A zebra também foi remodelada para os pilotos não terem a oportunidade de cortar o caminho por dentro.

Evolução da reforma do circuito de Melbourne: nova curva 11 (Fotos: Divulgação/GP da Austrália)

– Curva 13 (antiga 15)
A penúltima curva do circuito, que abre um “S” que leva para a reta dos boxes. Sempre foi uma tomada complicada em que diversos pilotos cometem erros tanto em voltas rápidas tanto na classificação como nas corridas.

A ideia aqui foi de aumentar a chance do carro de trás seguir de perto e até tentar um mergulho para forçar uma ultrapassagem. Para isso, o trecho foi alargado em 3,5 metros. A zebra da parte de dentro também foi remodelada para punir quem tenta ganhar algum tempo passando por cima dela.

Evolução da reforma do circuito de Melbourne: nova curva 13 (Fotos: Divulgação/GP da Austrália)

– Pit lane
Uma das mais antigas reclamações de pilotos e equipes, o pit lane foi alargado em 2 metros. Assim, a velocidade mínima pôde ser aumentada de 60 para 80 Km/h, o que pode incentivar novas estratégias de pit stops, já que as paradas devem ser menos punitivas aos pilotos.

A expectativa é que com todas essas modificações, além de mais pontos de ultrapassagens, façam a velocidade média do circuito de Melbourne aumentar consideravelmente, o que pode gerar mais erros dos pilotos. É o aumento do desafio técnico. As simulações apontam para uma diminuição do tempo de volta de cinco segundos, porém, esse dado foi gerado antes dos carros de 2022 irem para a pista pela primeira vez. Ou seja, essa diferença pode ser maior, pois o ritmo dos novos modelos já anda surpreendendo.

Apesar de ainda depender de confirmação da FIA, o site da F1 aponta que, graças ao novo layout, o circuito contará com quatro zonas de DRS, algo inédito. Serão, no entanto, apenas dois pontos de detecção de diferença. Um entre as curvas 12 e 13, que permitirá a abertura da asa tanto na reta dos boxes quanto na segunda reta, até a curva três. O outro ponto é na saída da curva 6, para os pilotos possam acionar o DRS no novo trecho 1,3 Km até a curva 9, e depois, na reta seguinte, até a nova 11.

Agora, é esperar se a união do novo regulamento com a reformulação do traçado de Melbourne traga os resultados esperados no próximo GP da Austrália.

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