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Como foi o ano miserável de Zanardi na Williams em 1999

Alessandro Zanardi se juntou à Williams cheio de expectativas para a temporada de 1999 da F1. Depois de acumular dois títulos na CART e de se tornar um astro do automobilismo americano, o piloto ganhou uma nova chance na F1 em uma equipe grande. Porém, o resultado foi uma decepção, com muitos problemas mecânicos, sérias dificuldades de adaptação e uma pitada de má sorte, que o fizeram terminar o ano sem um pontinho sequer. Mas por que tudo deu tão errado?

Alessandro Zanardi já havia tido uma primeira passagem apagada pela F1, quando guiou por Jordan, Minardi e Lotus entre 91 e 94. Mas, sem conseguir se estabilizar, foi nos Estados Unidos onde ele encontrou refúgio e uma nova oportunidade de brilhar.

Em uma parceria icônica com a Chip Ganassi na CART, Zanardi se tornou um dos nomes mais populares do automobilismo na segunda metade dos anos 90, e atingiu seu auge com os dois títulos em sequência em 97 e 98. Diante do sucesso meteórico, seu próximo passo natural parecia ser um retorno à F1. Por exemplo, Zanardi chegou a ser especulado na novata BAR, na Prost, ou no projeto da Honda em criar sua equipe própria, mas a conversa avançou mesmo foi com a Williams.

Assim, em setembro de 98, Zanardi foi confirmado como piloto titular da Williams para 99, ao lado de Ralf Schumacher, que se juntaria ao time, preparando o terreno para a parceria com a BMW a partir de 2000. O contrato do italiano era originalmente de três anos, e, como movimento colateral da negociação, o jovem protegido da Williams, Juan Pablo Montoya, assumiria a vaga que Zanardi deixaria em aberto na Chip Ganassi.

Williams em uma outra fase na F1

Mas o momento da Williams já não era mais o mesmo de antes. Depois de 97, quando conquistou seu último título, com Jacques Villeneuve, a equipe perdeu a parceria de fábrica com a Renault, e o seu projetista Adrian Newey, que se mandou para a McLaren. Então, naquela altura, a Williams passava por um momento de transição, e contava com os motores Supertec, que nada mais eram do que os antigos motores Renault que eram mantidos sem suporte de fábrica. Nesse contexto, McLaren e Ferrari passaram a dominar as ações, enquanto que a Williams virava uma força secundária.

E, assim que começaram os primeiros testes, ficava claro que Zanardi teria muito trabalho pela frente. O italiano se deparou com uma incompatibilidade entre seu estilo de pilotagem e as características técnicas da F1 da época, nomeadamente os pneus com ranhuras, a própria borracha da Bridgestone, que era mais dura e afetava a dinâmica da suspensão, e o fato de o carro ser estreito, com menor aderência. Mas talvez o seu maior calcanhar de Aquiles foi a sua relação com os freios, e nós vamos entrar em detalhes neste ponto mais para frente no vídeo.

E as dificuldades se converteram em um começo de ano desastroso. Nas primeiras corridas da temporada, Zanardi andava longe de Ralf Schumacher em ritmo bruto, enfrentou uma série de contratempos diferentes, e fracassou em sequer receber a bandeira quadriculada em uma prova. Já o parceiro alemão terminou duas vezes nos pontos, incluindo um pódio em Melbourne. Esse abismo entre companheiros fez Zanardi querer rever alguns conceitos.

Desde o início da preparação para a temporada, a Williams atribuiu a Zanardi um engenheiro mais novato, pois assim o italiano poderia tomar as rédeas do desenvolvimento e do acerto do carro de acordo com suas próprias preferências. Mas, na medida em que as coisas foram dando errado, o próprio Zanardi pediu para a situação ser revista, pois um engenheiro mais experiente ditaria o rumo das coisas, de modo que era mais fácil o piloto se adaptar ao carro do que o contrário. A Williams não acatou a ideia, o que fez Zanardi concluir que o time já havia perdido a confiança nas suas sugestões.

E aí, tudo foi de mal a pior. Ele sofreu com o banco do carro que se quebrou em Mônaco, teve uma corrida para esquecer no Canadá, e teve problemas de motor na França devido à água da chuva que se acumulou nas entradas de ar do carro. Já na Áustria, viveu uma situação inusitada: ele estava com problemas no rádio e não ouviu a Williams chamá-lo aos boxes para reabastecer. A equipe, então, usou placas para avisar Zanardi sobre a parada, mas o piloto não viu, pois estava distraído disputando posição com Pedro Paulo Diniz, e sofreu uma pane seca. Mas foi justamente na prova austríaca que um tema ganhou mais destaque para explicar as dificuldades de Zanardi: a relação do piloto com os freios.

Zanardi x freios: um capítulo à parte

Desde o começo dos testes, Zanardi não se entendia com a dinâmica dos freios de um F1 moderno – tanto que ele costumava frear com o pé direito, enquanto que a maioria dos outros pilotos freava com o pé esquerdo. Mesmo assim, ele não conseguia ter a resposta necessária para extrair o máximo rendimento, e aí ele tentou de tudo: trocou de fornecedores de freio no Canadá, experimentou começar a frear com o pé esquerdo na Hungria, e mudou de novo para o fornecedor antigo no GP da Bélgica. 

Mas, no meio de tudo isso, ainda surgiu o ponto que ficou mais famoso para Zanardi em 99: ele passou a testar freios de aço, uma tecnologia rudimentar até mesmo para a F1 da época. O italiano experimentou este tipo de freio durante os treinos na Áustria e na Bélgica, mas não viu grande vantagem, já que isso acrescentava cerca de 10 kg no peso do carro em relação aos freios de carbono. De toda forma, a abordagem pouco convencional mostrava como que Zanardi e Williams estavam em uma situação de desespero para fazer a parceria funcionar.

E, na 13ª corrida do ano, em Monza, veio o momento mais encorajador de toda a campanha. O piloto da casa obteve a melhor posição no grid em toda sua carreira na F1, com o quarto lugar, e chegou a subir para segundo logo na primeira volta. No entanto, Zanardi danificou o assoalho de seu carro por ter passado em cima de uma zebra, perdeu rendimento ao longo da prova, e terminou na sétima colocação, apenas 0s6 atrás de Eddie Irvine, o sexto. O problema, vale lembrar, é que apenas os seis primeiros pontuavam, então Zanardi mais uma vez bateu na trave. 

E aí, naturalmente, surgiam com força os rumores de que Zanardi perderia sua vaga. Foram especulados nomes como Juan Pablo Montoya, que brilhava nos Estados Unidos, Jacques Villeneuve, que vivia um calvário na BAR, ou Olivier Panis, que estava sem vaga no grid para 2000. 

Zanardi ainda teve mais três corridas na miséria para fechar a campanha em 99. O piloto terminou o campeonato sem conseguir marcar um único ponto, enquanto que Ralf Schumacher pontuou 11 vezes, o que incluiu três pódios. Em classificações, o placar foi de 11 a 5 para o alemão, que foi em média 0s5 mais rápido.

O italiano ainda tinha contrato com a Williams para 2000, mas, com o tempo, ficava claro que sua permanência seria insustentável. Havia alguns sinais: por exemplo, a nova pintura com a chegada da BMW foi apresentada apenas com a presença de Ralf Schumacher. Já nos testes, a Williams contava somente com o alemão, além de outros jovens pilotos, como Bruno Junqueira e Darren Manning.

Foi só no dia 21 de janeiro que a história teve seu desfecho. A Williams confirmou a rescisão de contrato com Zanardi, o que pôs um fim prematuro a uma parceria que foi um fracasso. Quem assumiu a vaga foi o surpreendente Jenson Button, que levou a melhor no famoso vestibular contra Bruno Junqueira.

Zanardi considera que faltou muita coisa para a parceria dar certo – desde uma incompatibilidade de seu estilo de pilotagem com a F1 da época, ou até mesmo energia de sua parte para ajudar o time e fazer o seu ponto de vista ser ouvido. Porém, o que ele mais lamenta foi não ter conseguido proporcionar momentos de alegria a Frank Williams.

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