Sergio Pérez será piloto da Red Bull em 2021

Ferrari, McLaren, Red Bull… A jornada de Sergio Pérez na F1

No começo, parecia algo bastante distante. Apenas um rumor. Mas ele foi ganhando força, passou cada vez mais a fazer sentido e agora virou notícia. Nesta sexta-feira (18), Sergio Pérez foi anunciado pela Red Bull como piloto titular para 2021, ao lado de Max Verstappen. O então ocupante da vaga, Alex Albon, se tornará piloto reserva.

Pérez ganha uma nova chance na F1, no atual segundo melhor carro da categoria, justamente quando parecia que ia ficar fora. Ele já tinha perdido seu cockpit na Racing Point (que passa a se chamar Aston Martin em 2021) para Sebastian Vettel. Olhou Williams, Haas, Alfa Romeo, mas nenhuma porta se abriu como esperava. Pelo menos para agora. Ele mesmo já admitia que estava em uma situação complicada, mesmo depois de sua incrível vitória no GP do Skahir.

Só que no meio de tudo isso, a Red Bull também estava passando por uma DR interna. Única equipe que aposta quase que de forma exclusiva em pilotos de seu programa de formação, pelo menos nos últimos cinco ou seis anos, o time vem tendo problemas com seu segundo carro. Isso começou a ter consequências nos resultados da equipe, que sem dois pilotos fortes, fica mais amarrada nas estratégias de corrida e ainda pontua menos no campeonato de construtores.

Depois de muita discussão interna, a equipe chegou à conclusão de que é hora de, pelo menos por um momento, ter uma abordagem diferente. Colocar um piloto experiente e com capacidade comprovada de entregar pontos e desempenho, e segurar um pouco a fila de seu programa de pilotos para voltar a seguir um programa prévio, com um tempo de maturação maior para os jovens.

Desta forma, Pérez recebe uma nova chance não só na F1, mas em uma equipe grande, depois de ter chegado à categoria como piloto da Academia Ferrari, ter uma passagem de apenas um ano na McLaren (e dizem que é a Red Bull que não tem paciência) e ficar, desde então, preso no pelotão intermediário na Force India (que se tornou a Racing Point)

Chegada de Pérez e explosão na F1

Com um enorme apoio financeiro do grupo do empresário mexicano Carlos Slim, Pérez chegou a Europa em 2005, aos 15 anos, para correr na F-BMW Alemã. Na época, o campeonato tinha nomes como Nico Hulkenberg e Sébastien Buemi. Neste período, ele chegou a morar durante quatro meses em um restaurante de propriedade de Slim.

Dois anos depois, ele foi para a Inglaterra, onde venceu a F3 Britânica, em uma época que a categoria tinha certa importância ainda. Apesar do título, ele ficou mais uma temporada na categoria, terminando em quarto, em campeonato vencido por outro futuro F1, Jaime Alguersuari, atrás também de Oliver Turvey (que se tornaria depois piloto de testes da McLaren e hoje está na Fórmula E) e Brendon Hartley, que teria uma passagem pela Toro Rosso.

Em 2009, Pérez estreou na GP2 (atual F2) pela equipe Arden, que entre os proprietários tem Christian Horner, chefe da Red Bull. Ele ficou em 12º no campeonato, mas somou dois pódios. Em sua segunda temporada na principal categoria de acesso à F1, teve um desempenho mais constante em 2010 pela Addax com cinco vitórias e sete pódios, terminando com o vice-campeonato, atrás de Pastor Maldonado e logo à frente de Jules Bianchi.

O desempenho de Pérez chamou a atenção da Ferrari que resolveu contratá-lo para sua Academia de Pilotos. No ano seguinte, com total apoio de Slim, o mexicano conseguiu um lugar na F1, pela equipe Sauber.

Apesar de batido por seu companheiro de equipe, Kamui Kobayashi, Pérez já mostrou em sua primeira temporada uma boa curva de evolução e constância, marcando 14 pontos. Em seu segundo ano no time, ele explodiu e passou a ser cogitado na Ferrari para o ano seguinte, aproveitando seu vínculo com o time.

Pérez subiu em 2012 três vezes no pódio com a Sauber com dois segundos lugares, na Malásia e Itália, e um terceiro, no Canadá. Desta forma, ele superou desta vez Kobayashi no campeonato, com 66 pontos contra 60 do japonês.

Os rumores de uma promoção à Ferrari ficaram muito fortes no segundo semestre daquele ano, mas a escuderia italiana, que tinha uma parceria relativamente próxima com a Sauber, não se sentiu confiante de apostar na jovem promessa e decidiu renovar com Felipe Massa como companheiro de Fernando Alonso. Mesmo assim, a esquadra italiana ofereceu ao mexicano um pré-contrato para ser titular em 2014.

A McLaren, no entanto, resolveu não deixar a oportunidade passar e sinalizalou com um acordo já para 2013 para Pérez, mas de apenas um ano. A proposta balançou o piloto, que resolveu arriscar, abrindo mão de seu vínculo com a Ferrari, para fechar com o time de Woking.  

Queda rápida na McLaren e reconstrução da carreira

Em 2012, a McLaren teve um dos melhores carros do grid, no entanto, cometeu muitos erros em estratégias e de confiabilidade, o que tirou seus pilotos, Lewis Hamilton e Jenson Button, da briga pelo título. De qualquer forma, a equipe ainda era uma das grandes potências da F1.

Só que Hamilton resolveu mudar de ares e partiu em 2013 para a Mercedes, que vinha em crescimento, mas vencido apenas uma prova desde seu retorno à F1. A McLaren manteve Button como líder e apostou no jovem Pérez, que aos 22 anos recebia sua primeira chance em uma grande equipe.

Pérez e Button com a problemática McLaren de 2013
Pérez e Button com a problemática McLaren de 2013 (Foto: McLaren)

Só que as coisas passaram longe de irem bem. A McLaren não acertou no carro. Em uma temporada em que quatro times diferentes venceram corridas, o time de Woking sequer subiu ao pódio. Button terminou em nono na classificação geral com 73 pontos e Pérez, 11º com 49.

O piloto também não se deu muito bem internamente na relação com a equipe. A McLaren resolveu não renovar com Pérez após apenas uma temporada e apostar em um piloto de seu próprio programa para 2014, Kevin Magnussen (que também duraria apenas um ano).

Pérez, que 12 meses antes tinha propostas da Ferrari e McLaren, e até conversas com a Mercedes, se viu desempregado. Com apoio de seu patrocinador, o mexicano conseguiu, ainda em dezembro de 2013, fechar um contrato com a Force India, time médio que vinha em certa ascensão nos últimos anos.

No primeiro ano na nova equipe, Pérez até subiu ao pódio, no GP do Bahrein, mas em geral foi inconstante, sendo superado pelo companheiro Nico Hulkenberg. A partir de 2015, no entanto, o mexicano criou um belo entrosamento com o time. Subiu ao pódio mais uma vez e bateu com uma gordura de 20 pontos o parceiro alemão.

Em 2016, terminou por duas vezes entre os três primeiros, bateu Hulkenberg mais uma vez, e ajudou o time a terminar na quarta posição no campeonato de construtores. O bom desempenho se repetiu em 2017 e parecia que até poderia acontecer de novo em 18. Só que a Force India, se mostrava força dentro da pista, tinha sérios problemas fora.

Seu proprietário, o empresário indiano Vijay Mallya se afundou em dívidas e chegou a ter prisão decretada em seu país. A equipe entrou em recuperação judicial a pedido do próprio Pérez, em um movimento que visava forçar a venda para que o time não fosse obrigado a fechar as portas. A estratégia deu certo e a organização foi arrematada por um consórcio liderado pelo canadense Lawrence Stroll, que a rebatizou de Racing Point e manteve Pérez ao lado de seu filho, Lance Stroll.

Pérez, o líder da Racing Point

O novo momento mostrou um Pérez maduro, capaz de entregar bom resultados sempre que o carro lhe desse as mínimas condições. A primeira temporada do novo time não foi muito boa, mesmo assim o mexicano marcou 52 dos 73 pontos da equipe no campeonato de construtores.

Em 2020, a Racing Point apostou na polêmica receita de copiar o carro da Mercedes do ano anterior, aproveitando que já possuía uma parceria técnica em que compra todos os itens não listados que o regulamento permite.

Com um bom carro nas mãos, Pérez não deixou dúvidas que passa pelo melhor momento em sua carreira. Constante, o mexicano terminou o campeonato na quarta posição entre os pilotos, mesmo ficando fora de duas etapas por ter sido diagnosticado com Covid.

A cereja no bolo foram as últimas corridas, em que ele terminou em segundo na Turquia, partia para um terceiro no Bahrein até seu carro quebrar a quatro voltas do final, e a incrível vitória na etapa do Sakhir, em que se recuperou após ter caído para último na primeira volta.

Pérez no alto do pódio após sua incrível vitória no GP do Sakhir de 2020
Pérez no alto do pódio após sua incrível vitória no GP do Sakhir de 2020 (Foto: Racing Point)

Só que no meio do caminho desta campanha, o mexicano sofreu um baque. Vettel perdeu seu lugar na Ferrari e ficou à disposição no mercado. Com o projeto de adotar o nome da Aston Martin na F1, seu novo investimento fora das pistas, e a chance de aliar a imagem do tetracampeão à marca, Lawrence Stroll resolveu contratar o alemão. No outro carro, ele manteve seu filho, Lance Stroll, que apesar de inconsistente, tem momentos de destaque e ainda é bastante jovem, com apenas 22 anos.

Assim, Pérez ficou sem contrato na F1 e parecia que ficaria assim até a Red Bull resolver mudar sua política de contratação de pilotos e convocá-lo para 2021.

Por que a Red Bull contratou Pérez

Um dos grandes clichês das análises sobre a F1 é reclamar de uma suposta falta de paciência da Red Bull com seus jovens pilotos. Bem, a história mostra que isso não é totalmente verdade.

Além de patrocinar boa parte das carreiras de seus jovens nas categorias de base, a empresa sempre mostrou confiança em colocá-los pars correr no mais alto nível da F1. Sebastien Buemi, Jaime Alguersuari, Jean-Éric Vergne, Daniil Kvyat, Pierre Gasly e Alex Albon tiveram todos no mínimo duas (alguns três) temporadas completas pela Red Bull ou Toro Rosso na F1. Poucas equipes proporcionam isso.

Só que no time principal da organização, existe uma pressão extra e absolutamente compreensível por vitórias. E algumas mudanças ali aconteceram fora do cronograma da Red Bull, o que atrapalhou um pouco seus planos.

Ao final de 2014, Sebastian Vettel resolveu se transferir para a Ferrari. O time, querendo se manter fiel ao seu programa, promoveu imediatamente Daniil Kvyat, talvez antes do planejado. Apesar do desempenho do russo não ter sido ruim, ele cometeu alguns erros importantes (dentro e fora da pista) e ainda passou a sofrer a pressão de um jovem Max Verstappen, na Toro Rosso, pedindo passagem. A troca aconteceu na quarta etapa de 2016, com Kvyat ainda se mantendo na Toro Rosso. E Verstappen venceu logo em sua estreia na Red Bull.

As coisas pareceram se estabilizar por um momento, quando a empresa passou a contar com o holandês e Verstappen em sua esquadra principal. Pierre Gasly se tornou titular da Toro Rosso, mas o segundo carro do time demorou um pouco para ser preenchido, já que Kvyat se mostrou bastante desmotivado pelo passo atrás na carreira e por falta de mais um jovem pronto no programa. Brendon Hartley acabou sendo convocado e fez toda a temporada de 2018.

Só que para 2019, nova mudança bagunçou o esquema. Ricciardo deu adeus e partiu para a Renault. A Red Bull teve que promover Gasly talvez antes do que gostaria, apostar em Albon, que não fazia mais parte do programa, mas tinha ido bem na F2, e chamar Kvyat de volta.

O francês, que já não tinha exatamente confiança de Christian Horner, não conseguiu mostrar serviço enquanto Albon estava indo bem na Toro Rosso. A Red Bull então resolveu trocar os dois para o segundo semestre daquele ano e permaneceu com a formação durante todo 20.

Albon teve altos e baixos. No geral, foi melhor do que Gasly na Red Bull, porém, também nunca conseguiu se estabelecer como um piloto de primeiro pelotão. Isso muitas vezes enfraqueceu a posição do próprio Max Verstappen, que precisava brigar contra duas Ferrari e duas Mercedes, sem um companheiro para ajudar a marcar as estratégias. Gasly, por outro lado, se recuperou bem na Toro Rosso (rebatizada depois de Alpha Tauri) com pódios e até uma vitória no GP da Itália de 2020. Mesmo assim, ainda não convenceu internamente os dirigentes.

Com consciência de que precisa esperar pela nova geração ganhar um pouco mais de maturidade para entrar na F1 e para fazer novas promoções para sua equipe principal sem queimar mais nomes, a Red Bull percebeu que precisava mudar sua abordagem. E ter um Sergio Pérez livre no mercado neste momento, se tornou algo muito conveniente.

Se a Alpha Tauri tem o objetivo de abrir as portas da F1 para novos talentos, a Red Bull tem que vencer corridas e brigar por campeonatos. Neste momento, uma dupla formada por Verstappen e Pérez é a que dá melhor chance para isso acontecer a curto prazo.

O time aposta assim em manter Albon sob aviso como reserva, ver como Gasly continua se desenvolvendo agora em sua quarta temporada na F1, e ainda dá um tempo para o jovem Yuki Tsunoda, de apenas 20 anos, chegar sem tanta pressão em 2021 à Alpha Tauri.

O programa de jovens pilotos da Red Bull segue sendo o melhor e de maior sucesso da história da F1. Para se ter ideia, na próxima temporada, serão seis pilotos nascidos ali correndo na categoria (Vettel, Ricciardo, Sainz, Verstappen, Gasly e Tsunoda). É mais de um quarto do grid. O que acontece agora, é apenas um respiro para que a Red Bull volte a encontrar o seu timing para trocas e promoções de pilotos. E Pérez era o cara certo no lugar certo para ficar com essa vaga.

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