Mick Schumacher faz molde de banco pela Haas
(Foto: LAT/Haas)

O que a dupla Schumacher e Mazepin indica sobre o futuro da Haas

Nos últimos dias (01 e 02/12), a Haas anunciou sua dupla de pilotos que irá substituir Kevin Magnussen e Romain Grosjean (que estavam avisados que iriam continuar) com o russo Nikita Mazepin e o alemão Mick Schumacher, filho do heptacampeão mundial, Michael, nas vagas.

É uma mudança enorme de perfil para o time americano, que entrou na F1 em 2016 e que até hoje só teve três pilotos em seus carros em corridas: Romain Grosjean desde a primeira prova, Esteban Gutierrez, em 2016, e Kevin Magnussen, a partir de 2017.

A nova dupla da Haas simboliza não só a mudança dos nomes nos carros, mas uma alteração geral na estratégia de como a equipe passa a abordar sua participação na F1. Não é segredo para ninguém que o proprietário do time, Gene Haas, passou os últimos meses reconsiderando sua participação da categoria. Assim, para continuar, foi preciso mudar o modelo de negócio.

O fundamento da Haas até 2020

Haas, que também tem um time na Nascar nos Estados Unidos, investiu forte na sua esquadra na F1 com o objetivo principal de divulgar sua companhia de automação industrial, a Haas Automation.

Ela foi a primeira equipe totalmente nova – ou seja, sem assumir o espólio de outra – a entrar na F1 desde 2010, quando Caterham, HRT e Virgin passaram a fazer parte. E não existe nenhuma outra palavra para resumir a passagem desses times pelo grid do que “desastre”. Nenhuma faz parte mais do Mundial e nem suas inscrições foram aproveitadas por outros. Além disso, no tempo em que estiveram competindo, nunca saíram das últimas posições.

Gene Haas não queria passar por isso e tentou ao máximo se precaver. A grande sacada foi a sua aliança com a Ferrari. Todos os componentes que a FIA permite que sejam comprados por um time de outro, a Haas adquiriu da escuderia de Maranello. Motor, caixa de câmbio e diversas peças não listadas. E o resto?

Gene Haas, fundador da equipe Haas F1
Gene Haas, fundador da equipe Haas F1 (Foto: LAT/Haas)

Ele contratou a Dallara, outra empresa italiana, para desenvolver o projeto em torno do que a Ferrari mandava e fazer o desenvolvimento aerodinâmico. Tudo então é montado na base do time construída na Inglaterra, que serve mais como uma garagem, centro logístico e base para mecânico e engenheiros de pista, a maioria ingleses.

Isso tudo deu um impulso inicial para que o time tivesse logo de cara um carro relativamente competitivo e ao mesmo tempo com custo menor. Jogando na defensiva, a escolha dos pilotos se deu por nomes que mesmo não sendo grandes estrelas, trouxessem experiência de F1 para garantir pontos e poderem contribuir com o desenvolvimento geral.

E o esquema, por um tempo, deu certo. Em suas duas primeiras temporadas, o time ficou em oitavo no campeonato de construtores, batendo Sauber em ambas e a Renault em 2016 e a McLaren em 17. Em 18, a equipe teve seu melhor desempenho, com um ótimo quinto lugar entre as 10 concorrentes.

Só que a coisa começou a desandar em 2019. Dentro da pista, o carro deixou de ser competitivo, e fora, o time se meteu em uma confusão com o patrocinador Rich Energy. Além disso, mesmo com uma operação reduzida ao máximo, Gene Haas começou a se questionar sobre seu investimento no time sem a chance de brigar por pódios e agora até mesmo com parcos e cada vez menos frequantes pontos.

O drama sobre a continuidade da Haas

No GP da Hungria de 2020, ao ser questionado se achava que continuaria na equipe e na F1 em 2021, Romain Grosjean levou a público a grande questão sobre a Haas que até então estava apenas nos bastidores: “Vamos nos livrar do elefante que está na sala: a Haas estará aqui no ano que vem? Esta é a pergunta óbiva”, disparou.

Todo mundo já sabia que o futuro da Haas estava em jogo. Mas nunca alguém tinha falado de forma tão direta e aberta em uma entrevista. E apesar de algum desconforto do time e pedidos de desculpas do francês, ninguém desmentiu a situação.

A F1 estava na época na reta final de negociação do novo Acordo de Concórdia, em que as regras comerciais da categoria são definidas em troca de um comprometimento das equipes com o campeonato. Gene Haas era um dos mais receosos em assinar porque não sabia se iria seguir com a equipe.

Com as novas medidas, explicadas em detalhes em outro texto do Projeto Motor, mas que em resumo melhorou a distribuição da verba destinada aos times, que até então era bastante desproporcional e que, com bônus acertados paralelamente com alguns concorrentes, não refletia necessariamente os resultados em pista.

Carro de 2020 da Haas é uma decepção
Carro de 2020 da Haas é uma decepção (Foto: LAT/Haas)

Além disso, o acordo aumentou consideravelmente o valor da taxa para a entrada de novas equipes, o que, em tese, encrementou o valor das atuais, como se fossem franquias que podem ser vendidas. Isso aliado ao novo regulamento financeiro, que já tinha sido aprovado no primeiro semestre, que traz um teto orçamentário de U$ 145 milhões para 2021 e que deve chegar a U$ 135 milhões em 23, deixou o ambiente econômico da F1 mais sustentável. Foi o bastante, depois de muita conversa, para convencer Haas a permanecer. Pelo menos, por agora.

Haas assinou o Acordo de Concórdia, mas isso não necessariamente o obriga a ficar pelos próximos cinco anos na F1. Ele pode muito bem vender sua equipe no meio do caminho e recuperar parte de seu investimento. De qualquer maneira, para continuar com a empreitada, ele resolveu fazer algumas mudanças fundamentais na forma de financiamento de seu time e passou as novas diretrizes para o chefe da equipe, Gunther Steiner. Isso mudou radicalmente o perfil dos pilotos.

A dupla Schumacher e Mazepin

Em vez de seguir com a estabilidade (às vezes até questionável) de seus pilotos e apostando na experiência deles, a Haas partiu para a procura por nomes que fossem jovens e que trouxessem algum benefício financeiro. É sempre bom lembrar que com a atual regra de superlicença da FIA, não adianta só chegar com dinheiro se o candidato não tiver os resultados na base que lhe deem a pontuação necessária para entrar na F1. Isso já faz com que a lista diminúa consideravelmente.

Nikita Mazepin é um cara que estava namorando a possibilidade de entrar na F1 há algum tempo. Seu pai, Dmitry Mazepin, é um bilionário da ramo da indústria química na Rússia e que nos últimos anos tentou comprar pelo menos duas equipes: a Force India, em 2018, que acabou sendo levada por Lawrence Stroll e transformada na atual Racing Point/futura Aston Martin, e a Williams, agora em 2020, que ficou com o grupo de investimentos Dorilton.

Steiner abordou Mazepin e eles conversaram sobre a possibilidade de investimento na Haas. Claro que isso dependeria de uma vaga para Nikita. Só que o jovem de 21 anos ainda tinha uma questão para correr atrás: a superlicença. Na pontuação da FIA, ele abriu 2020 com 33 pontos: 1 pelo 10º lugar na F3 Europeia de 2017, 20 pelo vice-campeonato da GP3 em 2018 e 12 pelo terceiro lugar na edição de 2019-20 da F3 Asiática. Para conseguir o documento que autoriza o piloto a andar na F1, ele precisa somar 40. Para alcançar a pontuação, ele precisava de pelo menos um sétimo lugar na campanha de 2020 na F2.

Nikita Mazepin venceu duas provas na F2 em 2020 (Foto: LAT/Haas)

Em 2019, pela ART GP, ele não foi bem em sua estreia na categoria de acesso e ficou apenas em 18º. Mazepin mudou para a Hitech para esta temporada e faltando apenas a rodada dupla final do campeonato, no próximo final de semana, no Bahrein, ele é o terceiro, com duas vitórias e seis pódios. A diferença para o oitavo é de 36,5 pontos, o que significa que a superlicença está bem encaminhada, apesar de não estar garantida.

Assim, chegou a hora de fechar o acordo com a Haas e o pai assinar um belo cheque que será importante para a equipe garantir um orçamento competitivo em 2021, ano em que todas as equipes precisarão gastar um dinheiro extra para desenvolverem os novos carros de 22, quando a F1 passa por uma revolução técnica.

Mazepin ainda traz uma experiência considerável com carros de F1. O primeiro teste foi em 2017, quando ele acumulou quase mil km durante três dias pela Force India. Ele voltou a andar pelo time em sessões em 18 e em 19 ele não só completou 600 km em uma sessão para jovens pela Mercedes, como seu pai financiou uma série de treinos particulares com o carro da equipe alemã (regulamento permite desde que seja um modelo de pelo menos dois anos antes) por diversas pistas da Europa.

Para a outra vaga do time, Steiner e Haas procuraram a Ferrari e, de olho na ótima leva de pilotos da Academia de jovens do time italiano, ofereceram um novo negócio. A ideia é estreitar ainda mais os laços com a esquadra de Maranello em troca de algum desconto no fornecimento de peças e equipamentos. O acordo pode fazer até com que alguns funcionários de área técnica sejam transferidos para a Haas, já que por conta do teto orçamentário, as três grandes, o que inclui também Mercedes e Red Bull, precisarão enxugar um pouco seus quadros.

Em troca, o time oferece um de seus cockpits. A Ferrari tem também um acordo de parceria técnica com a Alfa Romeo, cuja operação na verdade é feita pela suíça Sauber sob o nome da marca automotiva, mas que não envolve uma relação tão íntima e próxima.

Assim, três candidatos surgiram: Mick Schumacher, Callum Ilott e Robert Shwartzman. Este último, campeão da F3 em 2019, faz em 20 uma boa temporada de estreia na F2, porém, ficou claro para a Ferrari que ele precisa ainda de mais um ano na categoria de acesso para amadurecer. A disputa ficou então entre o alemão e o britânico, que também disputam ponto a ponto o título da F2.

Por fim, a Ferrari resolveu por hora apostar em Schumacher, que lidera a F2 antes da rodada decisiva, e que leva para a Haas também um sobrenome de peso que pode render atenção de mídia e atenção de potenciais novos patrocinadores. Ilott não escondeu a frustração por ser preterido em uma postagem em suas redes sociais em que anunciou que “não irá competir na F1 em 2021”.

A Haas aposta agora em uma dupla de novatos, com um histórico bom na base (mais pelo lado de Schumacher neste caso) e que traz dinheiro de forma direta (Mazepin) ou indireta (Schumacher) para a sobrevivência e desenvolvimento da equipe. Se vai dar certo, precisamos esperar pelo menos uma temporada para sabermos.

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