Foto: Tiago Rafael

Entrevista: Philippe Streiff e o acidente que mudou a sua vida em Jacarepaguá

Nesta sexta-feira, 26 de junho, o ex-piloto francês Philippe Streiff completa 60 anos de idade. O Projeto Motor aproveita a ocasião para fazer a estreia da seção “Do Baú”, que contará com a republicação de materiais especiais produzidos pela equipe do site no passado.

A história de Streiff virou sinônimo de superação após o grave acidente que sofreu durante um teste da F1 em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, o que acabou deixando o francês paraplégico. Desde então, o ex-piloto luta para melhorar as condições de transporte para portadores de deficiência física, além da conscientização para segurança no trânsito.

A entrevista com Streiff feita de forma exclusiva foi publicada no dia 2 de março de 2010, no extinto site Tazio. A conversa aconteceu no circuito de Barcelona, na Espanha, durante os testes de pré-temporada da F1 daquele ano.

Confira na íntegra:

Durante os testes em Barcelona, um simpático homem em cadeira de rodas tinha fácil acesso a todas as equipes do ambiente fechado da F1. Recebido sempre com sorrisos, ele estava constantemente acompanhado de grandes estrelas da categoria, que escutavam atentamente o que ele tinha a dizer.

Se trata de Philippe Streiff, ex-piloto francês e paraplégico desde 1989 devido a um acidente na F1. Ele está em Barcelona para divulgar o torneio de golfe beneficente que irá promover em Marrakesh, no Marrocos. O evento colaborará com as entidades francesas Autour de Williams – algo como, traduzindo para o português, Associação Francófona da Síndrome Williams-Beuren – e ICM, o Instituto do Cérebro e da Medula-Espinhal.

Após passagens bem-sucedidas pela F-Renault, F3 e F2, a carreira de Streiff na F1 começou na etapa final de 1984, em Portugal. Alinhando em um terceiro carro da equipe Renault, o francês largou na 13ª posição no circuito do Estoril e abandonou a prova com problemas de câmbio enquanto estava em 17º.

No ano seguinte, disputou a F3000, que fazia sua primeira temporada em substituição à F2. Mas, a partir do GP da Itália de 85, Streiff foi promovido a titular na F1 pela equipe Ligier, que corria com motores Renault. E é do GP da Austrália daquele ano, em Adelaide, que Streiff guarda sua melhor recordação de seus tempos de piloto.

“Eu tinha Jacques Laffite como companheiro de equipe e terminei em terceiro, atrás de Keke Rosberg, pai de Nico, e de Laffite. Eu perdi uma roda na última volta porque eu bati com meu companheiro de equipe, terminando a corrida em três rodas. As pessoas da Austrália ainda lembram daquilo”, relembra.

Ainda com o apoio da Renault, Streiff se transferiu para a Tyrrell em 1986. Após terminar as duas temporadas seguintes em 13º e 14º, o francês acertou com a AGS, equipe pela qual disputou a F2 e F3000 e que havia se promovido à F1.

Em janeiro de 1989, durante os testes de preparação para a temporada da F1 no circuito de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, Streiff, aos 33 anos, sofreu o acidente que mudou sua vida.

“Eu tinha um novo carro e minha suspensão traseira quebrou porque a pista era muito ondulada. Bati a 180 km/h, muito rápido, capotei e o santo-antônio não era forte o bastante. Não usávamos o HANS que os pilotos usam hoje em dia, então tive lesões cervicais. O atendimento médico não era muito bom em Jacarepaguá; perdemos tempo entre o acidente e a cirurgia no hospital. O médico veio de São Paulo até o Rio de Janeiro para me atender, então não sabemos o que poderia ter acontecido.”

O santo-antônio (parte do carro que protege o piloto em caso de capotagem) de seu AGS, assim como a maioria das equipes da época, era apenas preso com quatro parafusos no chassi. Assim, no acidente, ele se desprendeu, cansando lesões em Streiff.

“Eu só me lembro de ter acordado após minha cirurgia em Paris. Fiquei quatro dias no hospital no Rio de Janeiro. Gerard Saillant, que é presidente do ICM, veio de Paris até o Rio para ajudar os médicos brasileiros com a traqueostomia e tudo mais. Lembro apenas de quando eu abri os olhos em Paris. Achei que estava antes do GP do Brasil [a abertura da temporada]. Pensava em voltar à pista e guiar, porque eu tinha na minha cabeça que ainda estávamos antes da corrida”.

“Foi quando me mostraram na televisão o GP em Ímola com outro piloto no meu carro, Gabriele Tarquini. Aí que eu entendi o que tinha acontecido. Foi difícil, obviamente. Quando você se dá conta que está na cama, você quer acabar com tudo”.

O aprendizado com o acidente

O acidente de Streiff causou mudanças na F1, tanto nas exigências da FIA na segurança dos carros, quanto no resgate e atendimento após acidentes. É comum ver, hoje em dia, pilotos serem retirados de seus carros em macas com colares cervicais apenas como medida de precaução, sendo que os próprios assentos dos veículos são removíveis a fim de causar o menor movimento possível à região cervical.

“Depois do meu acidente, os crash-tests ficaram muito mais rigorosos na parte do santo-antônio, com testes de impacto de até 7000 kg. Hoje não há problemas se um F1 fica de cabeça para baixo. Depois disso, tivemos o suporte do HANS entre o capacete e os ombros, então hoje é quase impossível ter um problema igual ao meu. Em 2007, Kubica não sofreu nada após sua batida no Canadá, sendo que foi um acidente muito parecido com o meu”.

Streiff ressalta que seus principais apoiadores após seu acidente foram seus patrocinadores, a Jacadi, linha de roupas infantis, e a petrolífera francesa Elf. A primeira ajudou Streiff a promover o Troféu Jacadi, programa de conscientização às crianças sobre segurança rodoviária; já a segunda promoveu o Elf Masters, prova de kart com a participação de pilotos de F1 no estádio de Bercy, em Paris.

A edição de 1993 da prova de Bercy, realizada em dezembro, é lembrada até hoje como o último duelo entre Alain Prost e Ayrton Senna, já que o francês tetracampeão mundial havia se retirado da F1 no final daquela temporada.

“Ele [Senna] me ajudou muito vindo do Brasil para o estádio de Bercy para correr de kart com Alain Prost especialmente por mim, com kart e macacão brancos escritos ‘Senna, driven to perfection’. Perguntavam-me o motivo de ele estar vestido de branco: foi porque ele ainda não podia usar o patrocínio da Elf devido a ainda estar na transição da McLaren para a Williams. Ele me dizia que só seria um piloto Elf a partir de 1º de janeiro”.

Como forma de agradecimento, Streiff deu a Senna o kart utilizado pelo brasileiro em sua vitória naquela prova.

“No fim de semana em Ímola, perguntei a Ayrton se ele havia recebido o presente e ele disse ‘sim, está no Brasil. Meu sobrinho Bruno vai se divertir muito com ele’. Infelizmente, naquele domingo, Ayrton morreu.”

Hoje, Philippe Streiff é conselheiro técnico do Ministério de Segurança Rodoviária da França, onde luta por melhorias nas condições de transportes para pessoas portadoras de deficiência física. De acordo com o ex-piloto, sua proximidade com o então presidente francês Nicolas Sarkozy vem de longa data. “O meu advogado e amigo é Nicolas Sarkozy. Quando eu bati, ele ficou cuidando de meus filhos enquanto eu estava no hospital e depois ele virou presidente da França”, lembra.

Desde seu acidente, Streiff ajudou a desenvolver um carro especial para pessoas portadoras de deficiências físicas no qual é possível operar os comandos a partir de um joystick. Em 2007, conta, fez uma viagem de 300 km de Paris a Magny-Cours na época do GP da França.

“Aos meus 20 anos, eu parei de correr de kart para fazer Engenharia. Nunca trabalhei como com isso, mas me ajudou na F1 em minhas reuniões com engenheiros. Após meu acidente, eu andava em uma cadeira de rodas motorizada e não gostava. Você não pode se locomover, viajar e fazer tudo o que eu faço.”

“Então, pedi para a Renault me ceder seu modelo Space com os padrões da Inglaterra, com o volante na direita. Desenvolvi o meu sistema e tive que fazer as adaptações para o lado esquerdo do carro. Depois de algumas quilometragens, consegui a homologação. Agora, vários carros são construídos para que pessoas como eu possam dirigir.”

Mesmo tendo passado por toda a adaptação para um estilo de vida completamente diferente, Streiff é um exemplo de que é possível ser feliz mesmo com limitações físicas.

“O primeiro ano [como tetraplégico]é muito difícil psicologicamente. Você precisa de muito planejamento, de dinheiro, obviamente. Foi por isso que eu pedi a Sarkozy para que ajudasse pessoas como eu para poder comprar cadeiras de roda e tudo mais; ajuda financeira se você não puder trabalhar. O meu caso, graças aos meus negócios na F1, como patrocinadores e relacionamentos, é diferente do de outras pessoas. E também para pagar uma enfermeira ou assistente”.

“Meu sonho é seguir em frente, é ser feliz, mesmo que eu seja tetraplégico. É preciso ter paixão em sua vida e eu estou feliz de estar no paddock com meus amigos. Você vê o caso Frank Williams: ele ainda tem paixão. Os meus filhos tinham 3 e 5 anos quando eu bati no Brasil e o segundo, o de 3 anos, estava lá. Agora eles são homens adultos, então meu sonho é ser feliz comigo mesmo e com minha família”.

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