Defesa de posição e manobras nas freadas: entenda a regra da F1

Punições por conta de acidentes e toques se tornaram cada vez mais frequentes na F1 nas últimas duas décadas. O regulamento escrito mudou poucas vezes, porém, os pilotos são alertados com as notas de direção de prova e explicações do entendimento do que é ou não jogar fora da conduta correta em reuniões nas corridas, os famosos briefings.

Em 2016, após grande reclamação de adversários, a FIA instaurou um novo artigo no regulamento da F1 que logo ficou apelidado de “Regra Verstappen”. Nesta, a entidade apontava a proibição de um piloto defendendo sua posição de mudar de direção quando já estivesse na zona de frenagem.

Verstappen estava apenas em sua segunda temporada na F1, mas já estava irritando rivais por não cumprir o chamado “acordo de cavalheiros” entre os pilotos de não mudar a direção do carro quando os pilotos já estão na zona de frenagem.

O grande perigo dessa manobra é quando o piloto que está atrás já se comprometeu com um mergulho ou traçado em que freia mais dentro da curva, e o que está à frente faz então uma mudança em sua linha de forma repentina quando já não é mais possível desistir da tentativa de ultrapassagem.

Normalmente, esse tipo de manobra gera toques e acidentes que podem ser até perigosos pela possibilidade de toques roda com roda. Por isso, a preocupação foi grande de tentar vetar a prática.

Só que depois de apenas alguns meses, a FIA entendeu que ter um tipo de lance assim especificado no regulamento estava deixando os julgamentos dos comissários engessados e as disputas por posição burocráticas.

Assim, para 2017, a “Regra Max Verstappen” foi eliminada do texto do regulamento, pelo menos da forma como vinha sendo aplicada até então. Não seriam mais todas as mudanças de trajetória durante as frenagens que seriam investigadas e punidas, mas apenas as que fossem consideradas perigosas. Essa é a abordagem que é adotada até os dias de hoje.

A regra atual da F1 e a punição de Verstappen na Áustria

No artigo 33.4 do regulamento desportivo da F1, no capítulo em que se regulamenta “pilotagem”, apenas se aponta que “em nenhum momento, um carro deve ser pilotado de forma desnecessariamente devagar, errática ou em maneira que pode ser potencialmente perigosa para os outros pilotos ou qualquer outra pessoa”.

Perceba que a redação da FIA deixa aos comissários um grande espaço para interpretação de cada lance. Em tese, segundo o que é informado pelos próprios pilotos sobre as instruções que eles recebem da direção de prova nos briefings, a mudança repentina de linha dentro na zona de frenagem continua sendo considerada “pilotagem errática” e que em caso de toques, o autor na manobra será considerado causador do incidente.

Porém, chamamos a atenção novamente que o ponto se tornou totalmente interpretativo e nos últimos anos. Além disso, os comissários estão julgando este tipo de manobra apenas quando ela resulta em algum toque.

No GP da Áustria de 2024, Max Verstappen foi acusado pelo seu adversário Lando Norris de mover seu carro dentro na zona de frenagem diversas vezes em suas tentativas de mergulho. O holandês, porém, foi investigado e punido apenas depois de um toque entre eles. E se você prestar a atenção, a penalização não foi especificamente pelo movimento que ele fez dentro da área de frenagem.

No seu Código Esportivo Internacional, item “b” do artigo 2 (ultrapassagem, controle do carro e limite de pistas) do capítulo IV (código de conduta de pilotagem em circuitos) do anexo “L”, a FIA instaura:

“Mais de uma mudança de direção para defender a posição não é permitida. Qualquer piloto que se mover de volta para a linha de corrida, após ter defendido sua posição fora da linha, deve deixar pelo menos a largura de um carro entre o seu próprio carro e o limite da pista na aproximação da curva.”

Ou seja, o piloto não pode fazer zigue-zagues na pista para defender sua posição. E caso resolva retornar ao traçado convencional após ter mudado de linha uma vez, precisa respeitar o espaço do adversário. Isso acontece porque ao mover seu carro da linha ideal, o piloto automaticamente concede preferência ao que está atrás de se aproximar da curva utilizando o traçado de corrida.

Esse direito de espaço pode voltar ao piloto que está à frente caso este ainda esteja em vantagem quando os dois chegam ao apex da curva (ponto médio em que se completa a tangência da entrada da tomada).

No lance com Norris, em que o britânico emparelha por fora, Verstappen tinha escolhido a linha por dentro da curva três do Red Bull Ring. Então, ele tenta voltar para a linha de corrida para buscar tomada e acaba esbarrando na McLaren do adversário.

Isso acontece antes mesmo dos dois entraram para curva. Se eles chegam a entrar na tomada, com Verstappen respeitando o espaço da largura da McLaren de Norris entre sua Red Bull e o limite da pista, ele poderia muito bem contornar a curva por dentro e, em caso de toque após o apex, se estivesse na linha de corrida, poderia até ser absolvido de qualquer prova.

Neste caso, seria um lance até parecido com a ultrapassagem de Verstappen em Charles Leclerc na mesma curva três do GP da Áustria de 2019, em que o holandês foi considerado inocente após um toque entre os dois já na saída da curva.

No anúncio da punição de 10 segundos de Verstappen no GP da Áustria de 2024, os comissários apontam que o problema foi justamente o esbarrão antes da entrada da curva.

“O piloto do carro 1 se mexeu para a esquerda, causando a colisão com o carro 4. Os comissários determinaram que o piloto do carro 1 foi predominantemente culpado e por isso impuseram a penalização mencionada em linha com os precedentes”.

Em nenhum momento, os comissários levaram em conta as diversas vezes que Verstappen ne mexeu em zona de frenagem nas voltas anteriores e, caso os dois pilotos não se tocassem de novo no lance em questão, aparentemente, eles não investigariam a conduta do holandês novamente. A punição acabou sendo pelo bloqueio da pista.

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