Pietro Fittipaldi é o mais novo brasileiro a correr na F1
(Foto: Haas)

Com Pietro, terceira geração da família Fittipaldi chega à F1

Apenas um dia depois do grave acidente de Romain Grosjean no GP do Bahrein, a equipe Haas anunciou nesta segunda-feira (30) que Pietro Fittipaldi será o substituto do francês na prova do próximo final de semana, que usará o anel externo do circuito de Sakhir.

Certamente não é a forma como ninguém gostaria, substituindo um piloto que sofreu um grave acidente. Mesmo assim, depois de rodear por anos a F1, Pietro finalmente tem a sua chance na categoria.

A estreia marca a volta de um piloto brasileiro no grid desde a aposentaria de Felipe Massa, ao final de 2017. Claro que é importante pontuar que isso não significa que Pietro terá uma chance de longo prazo na F1, mas claro que representa uma oportunidade para mostrar seu trabalho, ainda mais em um time que ainda não anunciou nenhum de seus pilotos para 2021.

E mais do que o Brasil no grid, a participação de Pietro representa a chegada da terceira geração da família Fittipaldi à F1, que independente da nacionalidade, já passa a ser uma das mais importantes da história da categoria por sua relação com o Mundial. Pietro será o quarto piloto do clã a competir no Mundial.

Tudo iniciado, é essencial dizer, com Wilson Fittipaldi, o Barão, pai de Emerson e Wilson Jr, que apesar de não ser piloto foi um promotor importante de provas no país e incentivador de primeira ordem do automobilismo, além de narrar e comentar corridas no rádio.

A primeira geração dos Fittipaldi na F1

A estreia de Emerson Fittipaldi aconteceu no GP da Grã-Bretanha de 1970, pela equipe Lotus. O brasileiro já vinha sendo abordado desde a temporada anterior para entrar na categoria, mas em um primeiro momento negou os convites para ganhar mais experiência. Naquele ano, no entanto, resolveu aceitar o desafio no terceiro carro do time de Colin Chapman.

A ideia parecia uma boa forma de entrar no Mundial, já que ele poderia se desenvolver enquanto os dois pilotos principais, Jochen Rindt e John Miles eram responsáveis por liderarem o time. O austríaco, inclusive, estava em uma grande temporada, na frente no campeonato e brigando pelo título.

Só que a morte de Rindt durante os treinos do GP da Itália mudou tudo. Miles resolveu abandonar a categoria e a Lotus ficou fora por duas provas. Ela voltou no GP dos EUA para tentar defender a liderança de Rindt na classificação geral e Fittipaldi, aos 24 anos e fazendo sua primeira temporada na F1, foi alçado a piloto principal do time. E não fez feio. Venceu a corrida e o seu companheiro de equipe se tornou o primeiro – e único até hoje – campeão póstumo da história.

Fittipaldi estreando pela Lotus, em 1970

Emerson se tornou rapidamente um dos pilotos mais importantes da F1 e venceu dois campeonatos, em 1972 e 74, este segundo pela McLaren, e 14 corridas. Durante essa história, ele ganhou companhia. Seu irmão mais velho, Wilson Fittipaldi Jr, também chegou lá.

Wilsinho partiu para a Europa dois anos depois de Emerson, passou pela F2 e conseguiu uma chance na F1 pela equipe Brabham. Sua primeira participação foi em uma corrida não válida para o campeonato e para estatísticas gerais da F1, o GP do Brasil de 1972, em que chegou no pódio, em terceiro, atrás de Carlos Reutemann e Ronnie Peterson.

Os resultados de Wilsinho não foram tão consistentes quanto os do irmão, apesar de chegar a marcar três pontos em 73, não tendo também a oportunidade em uma equipe grande como a Lotus. Em 74, ele resolveu então parar de pagar por uma vaga e não participou do campeonato para poder se concentrar no projeto de sua própria equipe.

Em 75, ele voltou a correr pela Copersucar-Fittipaldi, que sofreu bastante em sua primeira temporada na F1. No ano seguinte, o time receberia um reforço de peso, com a chegada de Emerson.

Durante os anos, a equipe dos irmãos Fittipaldi teve altos e baixos, mas conseguiu resultados importantes como o histórico segundo lugar de Emerson no GP do Brasil de 1978, além de mais dois pódios em 1980, um com Keke Rosberg e outro com Emerson novamente. A melhor temporada do time, acabou sendo de 78, com 17 pontos e o sétimo lugar no campeonato de construtores, à frente de McLaren e Williams.

A equipe Fittipaldi participou de 103 GPs na F1 até encerrar suas atividades por falta de recursos em 1982. Emerson passou a focar sua carreira nos Estados Unidos, onde teve muito sucesso na Indy. A história da família com a F1, porém, ainda não tinha terminado.

Christian Fittipaldi retoma a tradição da família

Na década de 90, a segunda geração de pilotos dos Fittipaldi chegou à F1. E não foi por acaso. Christian Fittipaldi, filho de Wilsinho, foi uma revelação do kart brasileiro, com muitos títulos e conquistas. Ele partiu para a Europa em 1990, quando ficou na quarta posição da ainda forte F3 Britânica, em ano em que Mika Hakkinen foi o campeão.

No ano seguinte, foi terceiro colocado no tradicional GP de Macau, em prova que teve David Coulthard como vencedor e Rubens Barrichello, eterno rival de Christian desde os tempos de kart, em quinto, além do futuro campeão mundial Jacques Villeneuve em oitavo. Na mesma temporada, ele conquistou seu principal título internacional, da F3000, que na época era a última categoria de acesso antes da F1, com um status que hoje é da F2.

Os bons resultados lhe renderam uma chance no Mundial, aos 21 anos, na equipe Arrows. Christian nunca teve chance em uma grande equipe, mas teve uma carreira sólida na F1 passando ainda por Minardi e Footwork. Em suas quatro temporadas na categoria, ele marcou pontos em todas, em uma época em que a zona de pontuação era formada apenas pelos seis primeiros colocados das corridas.

Por três vezes ele bateu na porta no pódio ao terminar em quarto, nos GPs da África do Sul de 1993, de Minardi, e Pacífico e Alemanha de 94, de Footwork. Em 1995, sem grandes chances na F1, ele resolveu redirecionar sua carreira para a Indy, em momento em que a categoria americana estava em forte crescimento internacional e atraindo nomes importantes. Lá, ele correu por mais sete anos e venceu duas corridas, além de terminar por 20 vezes entre os três primeiros.

Christian ainda faria mais história nos Estados Unidos ao vencer por três vezes as 24 Horas de Daytona e uma vez as 12 Horas de Sebring, duas das mais importantes provas do endurance mundial.

A nova geração que se aproxima da F1

Nos últimos anos, um movimento de uma nova geração de pilotos da família Fittipaldi começou a chamar a atenção, desta vez de dois irmãos, netos de Emerson. Pietro foi o primeiro a ganhar atenção, ao se destacar em provas locais de stock cars nos Estados Unidos e depois resolver direcionar sua carreira para a Europa.

Ele começou com a F-Renault Britânica, da qual foi campeão em sua segunda participação, em 2014, passando em 15 pela F3 Europeia sem bons resultados. Em 16, ele foi campeão do MRF Challenge, um campeonato que acontece normalmente nos meses de virada dos anos na Índia e Oriente Médio, sempre com jovens pilotos.

Seu primeiro título internacional veio na World Series de 2017, campeonato que chegou a ter muita força e até rivalizou com a antiga GP2 (atual F2) como categoria de acesso da F1, mas que já estava em um momento de decadência, tanto que não foi mais realizada já a partir do ano seguinte.

Neste momento, o caminho de Pietro rumo à F1 se tornou de certa forma um mistério. O piloto por algum tempo decidiu não focar em um campeonato e também não participou da F2, que seria o passo natural.

Ele fez seis corridas na Indy, uma na Super Fórmula Japonesa e andou também no Mundial de Endurance, onde sofreu um grave acidente em que quebrou as pernas. Ele votou em 2019 no DTM, onde finalmente competiu de forma regular, paralelamente ao seu novo cargo de piloto de testes na Haas.

A entrada na Haas lhe abriu as portas do paddock da F1. Pela equipe americana, ele passou a fazer trabalhos de simulador e participou de seis sessões de testes de pista pela equipe. Ele ainda teve tempo de participar da F3 Asiática na virada de 2019 para 20, em que terminou na quinta posição e conseguiu, enfim, os pontos que lhe faltavam para tirar sua superlicença.

Em 2020, ele seguiu apenas com seu trabalho de piloto de testes e reserva da Haas. A chance agora de participar de pelo menos uma corrida para mostrar serviço veio aos 24 anos com o acidente de Grosjean.

O irmão mais novo de Pietro também trilha um caminho bastante interessante. Enzo, ao contrário do irmão, já começou sua carreira de cara focado no automobilismo europeu e na F1. Participou de campeonatos de kart no Velho Continente e logo chamou a atenção da Ferrari, que lhe colocou em seu programa de formação.

Na F3, Enzo Fittipaldi defende a Academia de pilotos da Ferrari
Na F3, Enzo Fittipaldi defende a Academia de pilotos da Ferrari (Foto: Sebastiaan Rozendaal / Dutch Photo Agency / RF1)

Com o apoio da equipe italiana, ele correu em 2017 e 18 nas F4 italiana e alemã, se sagrando campeão da primeira e terceiro na segunda. Em 19, ele ficou com o vice da F-Regional, novo nome da antiga F3 Europeia. Em 20, ele participou da F3 FIA, em uma temporada com alguns azares e poucos resultados sólidos, terminando o ano na 15ª posição do campeonato pela equipe HWA.

Aos 19 anos, Enzo segue como membro da Academia Ferrari e deve competir por mais uma temporada na F3 em 2021 antes de dar o passo decisivo de entrar na F2. Os resultados nestes próximos dois anos terão um peso enorme do prosseguimento de sua carreira, até pela forte competição que existe no programa da escuderia de Maranello, com pelo menos duas levas de pilotos de alto nível nas principais categorias de base.

Pietro e Enzo, assim, escrevem os mais novos capítulos desta rica história da família Fittipaldi, uma das mais importantes não só do automobilismo brasileiro, mas mundial.

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