Quatro Rodas

Prisão, mentira e estreia: a louca história por trás da primeira corrida de Schumacher na F1

A história por trás da estreia de Michael Schumacher na F1 tem cara roteiro de filme. Ela inclui uma confusão no trânsito e cadeia para um outro piloto, além de uma pequena mentira que colocou o alemão no Mundial.

Vamos começar falando de um personagem central nessa história toda: Bertrand Gachot. O piloto havia estreado na F1 em 1989, e inicialmente enfrentava dificuldades em equipes pequenas.

Mas, para a temporada de 1991, Gachot teria uma chance valiosa. Ele assinou contrato para correr pela Jordan, time com uma trajetória sólida no automobilismo de base e que estrearia na F1. O companheiro de Gachot seria o veterano Andrea de Cesaris. 

Meses antes da temporada sequer começar, Gachot teve um contratempo fora das pistas. Em dezembro de 1990, o piloto se dirigia a um evento da Jordan, mas se envolveu em um incidente de trânsito perto no centro de Londres.

Durante o ocorrido, um taxista ameaçou brigar e segurou Gachot por sua gravata. Como reação, o piloto sacou um spray de pimenta e o espirrou, deixando o taxista momentaneamente desnorteado. A discussão acabou ali, mas o taxista, um homem chamado Eric Court, entrou na justiça contra Gachot pelo ocorrido. 

Enquanto o processo ainda corria, Gachot pôde competir normalmente em 91. Apesar de a Jordan ser uma equipe estreante, o conjunto tinha potencial, e tanto Gachot quanto De Cesaris eram presença constante na zona de pontos. Gachot havia pontuado nos GPs do Canadá, Grã-Bretanha e Alemanha, além de ter registrado a melhor volta na Hungria.

Até fora da F1 a fase era boa, já que Gachot foi um dos vencedores das 24 Horas de Le Mans com a Mazda. De fato, a carreira do piloto parecia ter dado uma guinada em 91.

A reviravolta com Gachot – e a cadeia 

Entre os GPs da Hungria e da Bélgica, Gachot precisou comparecer aos tribunais em Londres para ser julgado pela confusão de trânsito do ano anterior. O piloto, que alegava legítima defesa, esperava receber apenas um puxão de orelha, quem sabe uma multa, mas não foi nada disso.

Para sua surpresa, Gachot foi condenado a 18 meses de prisão – seis meses pela posse do spray de pimenta, o que era ilegal para um civil, e 12 meses por seu uso. Para piorar, Gachot ficou detido na prisão de Brixton, uma das mais duras de todo o Reino Unido. 

O episódio como um todo gerou protestos dentro da F1. O argumento dos colegas de Gachot era de que o piloto recebeu uma pena dura demais porque a justiça britânica queria fazê-lo de exemplo. Afinal, tratava-se de um personagem com certa notoriedade pública.

De qualquer forma, tudo isso significava que a Jordan precisaria de um outro piloto para o GP da Bélgica. Alguns nomes foram inicialmente cogitados: o campeão Keke Rosberg, os veteranos Stefan Johansson e Derek Warwick, e os jovens Alessandro Zanardi e Christian Fittipaldi. No fim, quem ganhou força nas negociações foi outro jovem piloto, Michael Schumacher. 

Como Schumacher entrou no jogo?

Schumacher Jordan
(Foto: Reprodução)

Michael Schumacher, de 22 anos, havia sido campeão da F3 Alemã e do GP de Macau de F3 em 1990. O alemão era membro do programa de pilotos da Mercedes e competia pela fabricante no Mundial de Esporte-Protótipos. A questão é que a Mercedes planejava voltar à F1, mas queria dar experiência a seus pilotos. Então, a chance na Jordan veio em boa hora. 

Para o plano dar certo, o estafe de Schumacher e a Mercedes precisavam convencer a Jordan. A fabricante pagaria £ 150 mil para colocar Schumacher na Bélgica, sendo que houve contribuição de dois patrocinadores do alemão (Dekra e Tic Tac). Além disso, o empresário de Schumacher, Willi Weber, disse a Eddie Jordan que o piloto conhecia a pista de Spa muito bem, até porque o circuito ficava a pouco mais de 100 km de distância da cidade natal do alemão. Porém, isso era mentira: Schumacher nunca tinha guiado em Spa antes. 

Mas a conversa colou. Jordan se convenceu com Schumacher e o escalou para um teste em Silverstone, naquele que seria o primeiro contato do alemão com um F1. Na atividade, Schumacher impressionou a equipe, não só por sua velocidade, mas também pela capacidade de descrever o carro nos mínimos detalhes aos engenheiros.

Então, ele ficou com a vaga para Spa e também assinou, na véspera do primeiro treino livre, uma carta de intenções com a Jordan. Isso abria a possibilidade de permanecer no time por um longo período. Este documento ainda renderia muita polêmica.

O desempenho de Schumacher na Bélgica

Schumacher se destacou em Spa com a Jordan (Foto: Reprodução)

Schumacher chegou a Spa-Francorchamps no centro das atenções, mas mesmo assim ele pegou rápido o jeito da coisa. Logo na sessão classificatória de sexta-feira, ele obteve um competitivo oitavo lugar, mas 4s atrás de Ayrton Senna.

Já na classificação de sábado, com mais confiança no carro, melhorou seu tempo em mais 2s para manter a oitava posição nos tempos combinados. Isso se transformou em sétimo lugar depois de uma punição a Riccardo Patrese por uma irregularidade técnica da Williams. Mais do que isso, Schumacher igualou o melhor resultado da Jordan em grids, e ainda ficou com uma vantagem de 0s7 para Andrea de Cesaris. De fato, era um desempenho que chamava a atenção.

A corrida parecia promissora para Schumacher, mas ela durou muito pouco. O alemão teve tempo de subir para quinto na largada, mas a embreagem quebrou logo nos primeiros metros de prova, o que causou seu abandono. Existem duas versões para o ocorrido. A primeira é de que Schumacher, desacostumado com o equipamento e com as largadas paradas, exagerou na dose e provocou a quebra da embreagem. A outra é de que a embreagem da Jordan vinha dando problemas desde o warm-up, no domingo pela manhã. Porém, o time teria se recusado a trocá-la, pois o conserto seria caro.

A escapada da Jordan para chegar à Benetton

Mas nem deu tempo de a Jordan aproveitar direito a presença do jovem talento. Sabe aquela carta de intenções que Schumacher assinou antes do GP de Spa? Pois ela continha uma brecha em sua linguagem, o que abriu a possibilidade de o alemão ficar livre imediatamente para negociar com outra equipe.

Na versão original do documento, Schumacher dizia que, caso de fato corresse na Bélgica, assinaria antes da corrida seguinte o contrato de piloto com a Jordan para o fim da campanha de 1991 e para os campeonatos de 1992, 1993 e quem sabe 1994. Neste último ano, quem teria a preferência por seus serviços seria a Mercedes. 

Alteração na linguagem fez toda a diferença na relação entre Schumacher e Jordan

Mas, antes da assinatura definitiva da carta, o estafe do alemão quis fazer um ajuste: trocar a expressão “o contrato” por “um contrato”. Ou seja, abria a possibilidade para a assinatura de um contrato genérico. O empresário de Schumacher na época explicou que poderia ser qualquer coisa, inclusive um contrato para que o alemão, por exemplo, visitasse a fábrica da Jordan duas vezes por ano. Em resumo, a nova linguagem do documento não necessariamente previa um acordo de piloto de titular. 

Eddie Jordan tentou provar nos tribunais que tinha preferência para contar com os serviços de Schumacher, mas era causa perdida. O fato era que o alemão estava liberado imediatamente para assinar um longo contrato com a Benetton, substituindo Roberto Moreno ao lado de Nelson Piquet. A partir do GP da Itália, Schumacher estaria na equipe pela qual conquistaria, anos mais tarde, seus dois primeiros títulos mundiais.  

Tudo bem, mas que fim teve Gachot? O piloto ficou preso durante toda esta novela, mas, depois de dois meses de detenção, teve sua pena reduzida e acabou solto.  Ele havia perdido de vez sua vaga na Jordan, mas, ainda ao fim de 1991, arrumou um cockpit na equipe Larrousse, onde permaneceu até o fim de 1992. Já em 1994 e 1995, competiu pela pequenina equipe Pacific, mas sem grande sucesso. Gachot se aposentou das pistas em 1997, e hoje é empresário. 

Conheça mais detalhes em nosso vídeo especial:

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